14/6 SP começo de noite: os fascistas mandam lembranças

Quando vemos toda uma geração de neo-gays, jovens nascidos e crescidos depois dos tempos do autoritarismo e do reestabelecimento das liberdades  civis, dá prazer em saber que diversos medos e paranóias foram ficando pra trás no lugar onde realmente devem ficar.

Não há como construir um modelo de tolerância da diversidade se continuarmos martirizados e aprisionados em lembranças amargas de tempos em que ser homossexual, mais do que  uma afronta social, era estar subvertendo os valores da moral brasileira. E isso era muito perigoso. Era mortal em muitos casos.

Ainda bem que a militância mais aguerrida, no seu trabalho infindo, se encarregou e se encarrega de preservar essa memória. A garotada, frutos de outros tempos, não sabe muito bem o que é isso. Às vezes aqui e ali um situação de discriminação ou mais grave:  a morte de um travesti que já virou um terrível clichê e que é , mais horrível ainda, encarada como fato consumado da vida.

Por isso, e por mais outras coisas do campo da alienação e da egotrip que se alastra como praga nos dias atuais, a massa gay que se encontra em sua convenção anual, a Parada do orgulho, é tão atenta e enagajada quanto o eleitor brasileiro: no dia seguinte,  já nem se lembra em quem votou.

Gays também nem lembram mais se, de cima de algum trio elétrico, alguém chamou sua consciência para direitos GLBT´s e para o perigos reais da homofobia internalizada.

Mas dessa vez algo diferente aconteceu. Sem nenhuma cena mais dramática ou teatral, com bandos de carecas fortes atacando gays fracos e franzinos, o terror, aquele de outras épocas, mostrou sua cara e sua fome de sangue.

Em 3 episódios quase simultâneos, um garoto foi esfaqueado, um grupo foi atingido por uma bomba caseira jogada de um edifício e um rapaz mulato, provavelmente homosexual, foi assassinado covardemente por 5 pessoas com exlcusiva cobertura de  uma boa câmera digital.

Como se fosse  uma cena de aventura rocambolesca e nenhum pouco holllywoodiana e num intervalo de duração maior do que a vinda dos comerciais e a volta do Fantástico amordançando os lares brasileiros, jovens homossexuais presenciaram o que no passado era tido como uma “limpeza” social: Viado bom é viado com medo, agredido e se possível, morto.

Não foi preciso nem o confronto entre a parada e seus inimigos religiosos  mais comuns clamando aos céus o fogo para nos queimar. Ou mesmo os aprendizes nazistas das torcidas uniformizadas. Ou os lendários skins.

Bastou alguém na proteção confortável de um apartamento em meio a tantos outros iguais com suas tvs obedientemente ligadas e hipnotizando as famílias. Bastou uma faca, escondida sob um coturno e rapidamente jogada fora e bastou um grupo de rapazes comuns, de corpos comuns apenas com aquela ira bem conhecida de ódio e vingança pelo diferente que incomoda para instaurar o medo, a violência e o terror na festa que celebra a alegria e o prazer de ser feliz.

Ferimentos, cicatrizes e morte.

Nem toda a bibliografia e nem todos os filmes sobre os anos de repressão e arbítrio seriam tão eficazes para ensinar, ainda que de forma trágica e desnecessária, que o inimigo continua a nos observar atentamente. Que ele nos odeia. E a qualquer momento nos ataca.

O momento foi domingo passado.

Podia ter sido eu ou você.

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Uma resposta to “14/6 SP começo de noite: os fascistas mandam lembranças”

  1. quando isso vai parar?

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