epifania aos 7

Não tinha completado ainda sete anos quando aquele sentimento mudou sua vida para sempre. Era manhã de domingo. O pai o levara a uma partida de futebol na várzea e, faceiro, o apresentara a cada companheiro do time. Ao final do jogo, os homens subiram para a carroceria coberta do caminhão improvisada em vestiário, e começaram a trocar de roupa, alegres, atléticos , repartindo o cheiro dos corpos, as risadas, as pernas, as vozes que ribombavam como trovoada no espaço pequeno, Embora esquecido na ponta de um banco de madeira , o menino sentia-se confortável.

De tempo em tempo o pai o alcançava com um olhar soberano, assegurando que tudo estava bem dentro do seu campo magnético. Então aconteceu. Foi surpreendido por aquele sentimento, que dava a impressão de que o peito se alargava  e alguma coisa, vaga como um segredo remoto, um cheiro de terra molhada, um sopro criador, o irmanava àqueles homens, aguçava seus sentidos  e fazia sentir como era bom estar entre eles. O corpo bambeou, ficou mole. Tão mole que escorregou para o assoalho da carroceria  e ali ficou: bicho acocorado, os olhinhos verdes tateando os vãos, as sinuosidades dos corpos elásticos, os pés cintilantes sobre a tralha esquecida pelo chão.

Quanto durou? Talvez segundos. Minutos. Até a face começar a arder, a cabeça estontear. Como nas vezes que ficava atrás da porta, respiração presa, ouvindo conversa de adultos, temendo ser descoberto.  De repente já não se sentia mais protegido. Nem pelo olhar paterno  que agora lhe parecia solene, quase acusador, como se pudesse enxergar aquela luz em seu peito. Na volta,  o pai quis saber porque estava calado. Ele fingiu sono.  Como explicar o que ele não sabia?  Sentia, tinha certeza de que houvera um acontecimento.  E que trouxera do campo alguma coisa que o tornara diferente., mudara seu modo  de olhar. Não conseguia , no entanto, definir a coisa. De tantas pontas que tinha. Era macia, prazerosa e tão densa que podia apalpá-la nas pontas do seu corpo. Mas também suspeitava que fosse proibida e perigosa.

Foi sua primeira epifania. Eduardo _ esse é o nome do menino_ tem sido meu companheiro de estrada há quase 20 anos e já me contou essa história incontáveis vezes. Sempre a pedido. A última ocasião que lhe pedi foi na saída de uma sessão de cinema, após termos visto “Cashback”, comédia romãnticana qual o diretor inglês Sean Ellis. com humor tipicamente gay, fala de sua enorme paixão pelas mulheres. A narrativa é repleta de flashbacks. O mais impressionante deles conta quando Ben,  personagem principal, ainda menino, ali pelos sete anos, vê uma jovem sueca sair nua  do banheiro e acaminhar tranquilamente até o quarto. Ele fica em extâse. Foi a primeira epifania: descobriu que pelo resto da vida estaria apaixonado pela beleza do corpo feminino.

Quase todos os meninos  passam por esse momento mágico, seguido por certo desconforto, sabor grosso de culpa, como se tivessem adentrado num terreno inadvertido ou manipulassem inflamáveis.  A diferença é que  entre os heteressexuais os garostos descobrem cedo que devem se orgulhar disso: logo estarão contando aos outros memninos, falando do seu alumbramento com o primeiro sutiã, a primeira penugem antevista por um vão da porta.

Os gays, por sua vez,  tendem a  ocultar o momenmto da anunciação. E frequentemente o esquecem. sabem detalhes de outras epifanias, como o primeiro toque, a primeira transa. Mas raramente lembram detalahes  da primeira delas. Talvez seja por isso que me agrada tanto ouvir a história do Eduardo.

E você, leitor, lembra aquele momento inocente quando sentiu que sua vida nunca mais seria a mesma?.

 

ra modifiedRoldão Arruda é jornalista  e escritor
autor de “Dias de Ira” e co-autor de “Soldados não Choram”.Esse texto foi publicado, originalmente, na revista JÚNIOR nº 09

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