entre dizer e deixar em branco

cadeado

Estive pensando na postura de Michael Jackson (agora morto, quase santo) a respeito de sua pretensa (possível, suspeita, óbvia) homossexualidade.

Não me furtando a um trocadilho infame, poderia dizer que Michael, mesmo tendo negado verbalmente qualquer comportamento/relacionamento homossexual (não entremos no mérito da pedofilia, que são outros quinhentos), deixou em branco uma lacuna que poderia (deveria?) ter preenchido. Negando o que era (ou parecia ser) bastante óbvio, Michael assumiu a postura, o discurso, de uma parcela da população homossexual que acredita que ser/dizer que se é gay é algo estritamente íntimo.

Mas não é de M. Jackson que quero falar. Quero apenas [requentando um antigo post meu, na HoJE] fazer a defesa de um comportamento inverso ao dele, em que dizemos o que somos, pelo simples fato de o sermos.

E então, por que dizer, afinal?

Porque a homossexualidade não é um elemento óbvio da constituição da identidade do sujeito como a cor da pele. Se não dizemos, se não afirmamos a diferença, esse traço distintivo, somos, a princípio, todos iguais, somos, portanto, heterossexuais, como bem prevê a norma.

Mesmo assim, há aqueles que dizem que “ninguém precisa saber com quem se vai pra cama” entre outras frases feitas e já desgastadas. No entanto, afirmar (por vezes simplesmente confirmar) que se é gay (ou homo, como preferem alguns) não é o mesmo que dizer que se gosta de tal cantor, ou que já se assistiu a tal filme, ou ainda que a sua cor predileta é o azul. Dados como esses são apenas preferências pessoais. E é justamente contra a noção de preferência/escolha sexual que há muito tempo lutamos.

Além do mais, o simples fato de alguém ser gay, mesmo muitos discordando disso, diz muito sobre a personalidade de alguém. Crescer como um “diferente” (um dissidente), descobrir que não é heterossexual como a maioria que o cerca, aceitar ou não essa sua sexualidade “diferente”, escolher, por fim, dizer ou calar-se, tudo isso são ingredientes de uma personalidade. Uma personalidade não-heterossexual, não-maioria, não-padrão, fora da normatividade, portanto.

[Vale dizer que o gordinho e o negro, e todos os “diferentes”, nas escolas da vida, também sofrem preconceito e discriminação. No entanto, são todas diferenças “notáveis” a olho nu, perceptíveis a despeito da vontade de quem é segregado. Já a homossexualidade é diferente: por ser uma característica “interna” que é condenada, oferece de bandeja outros tipos de traumas. Os gordinhos e os negros, para ficar em uma exemplificação rasteira, podem ainda buscar exemplos de gordos e negros “de bem”, “bem sucedidos”, “bonitos” etc, seja na TV, no cinema ou na música. Já os gays não têm modelo algum de homossexualidade bem resolvida para seguir, e acabam se afundando, muitas vezes, em pura solidão].

Para quem concorda com a frase (talvez de Oscar Wilde como disse certa vez um dos colegas da HoJE) “definir é reduzir”, eu digo justamente o contrário: definir é expandir. Definir é saber. É conhecer. O indefinido não leva a lugar nenhum. O indefinido é nada, é vazio. Tudo na vida deve ter um contorno, um limite. Um sentido, uma definição.
Somente com base em definições podemos, inclusive, lutar por direitos iguais. Somente com base em definições podemos nos proteger.

Uma nota
Até quando a homossexualidade (principalmente a assumida) vai ser tratada como uma exposição desnecessária? Ninguém diz que um heterossexual se expõe… Um casal de heterossexuais de mãos dadas não é exposição. Dizer que é heterossexual no orkut, por exemplo, também não… Mas muitos homens e mulheres gays (!!!) afirmam, sem pestanejar, que esses mesmos comportamentos são formas de exposição de sua intimidade.

Outra nota
Nem todos, obviamente, têm facilidade ou lidam com naturalidade com sua própria sexualidade. Assumir é, em última instância, uma escolha pessoal. No entanto, tal naturalidade é algo que se constrói (consciente ou inconscientemente). Quem não se assume, certamente não se assume por medo (e não para evitar a tal da “exposição desnecessária”), seja lá de que natureza esse medo for.

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Uma resposta to “entre dizer e deixar em branco”

  1. Muito interessantes os seus questionamentos. Mas, na questão do Michael, não sei se podemos julgá-lo pelo fato de nunca ter se assumido homossexual, tamanha era a sua “esquisitice”. Cada um encontra os seus meios de apaziguar o sofrimento, né? Michael achou melhor esconder algumas coisas (vivia num faz de conta, até sua casa era chamada “Neverland”). Talvez nem ele entendesse muito bem quem ele era, realmente. Você assistiu à entrevista com o pai dele que passou no Fantástico? O Sr Jackson chega a dizer: “Eu não suporto gays!”. Ainda assim, concordo com você que fica mais fácil erguer qualquer bandeira se houver alguma definição, embora eu não concorde que para tudo deve haver uma definição. Algumas coisas eu prefiro indefinidas.

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