heterossexualidade presumida e o outing

OgAAAEc89fh4pcquBe-EFnDzb2Ve3a9TtSwCnizg30brwvZc4w_f_YfDrAx86Uu_pq3nY7VRHH9Bv8oX_f0mTZ8c0osAm1T1UC0dCCldAZDqYUx0Ib9z-fPlUtitDevo muito da minha consciência atual às coisas que li no orkut. Às vezes vejo as pessoas dizerem que o orkut não pode ser levado a sério, e me entristeço. Essa tecnologia das redes sociais tem possibilidades ótimas de interação, e aqueles que sabem utilizá-las podem sempre aprender coisas novas e conhecer muito mais do mundo do que aquilo que o cotidiano permite.

Falo isso porque meu processo de auto-conhecimento (nem vou falar “auto-aceitação”, porque “aceitação” acaba sugerindo uma resignação quanto a algo ruim, e nada seria mais falso) se deu quando pude ver várias pessoas (que hoje são minhas amigas) discutindo preconceitos numa rede social. O mesmo ocorreu quando decidi me assumir (ou parar de me esconder). A Comunidade HJE teve um papel fundamental nisso.

Comecei colocando no perfil do orkut a orientação sexual, com um texto super “tropa de choque” exigindo respeito, o qual mantenho até hoje, com poucas alterações. Achei que logo alguém viria me perguntar se era verdade, ou supôr que meu perfil havia sido roubado, duvidando que eu fosse gay. Isso, de fato, aconteceu uma meia-dúzia de vezes. As pessoas, às vezes, têm uma noção tão arraigada de que supor homossexualidade é uma ofensa, que mesmo você tendo “a” pinta, preferem tomar atitudes que “respeitem” sua “heterossexualidade presumida”, tais como perguntar da sua namorada, como se, com isso, elas quisessem deixar claro que não acham que você é “viado”.

No meu dia a dia fora da rede, pouca coisa mudou com esse outing “de orkut”, pelo menos externamente. Como sou muito reservado, as pessoas, na verdade, nunca tinham qualquer informação sobre minha vida pessoal, quanto mais sobre minha sexualidade. No entanto, notei que, entre elas, elas sempre falavam de namorados, casamentos, etc, essas coisas para as quais, às vezes, nós gays parecemos não ter referências.

Foi então que passei a pensar: Por que eu não tenho isso? Por que pra mim esse tipo de informação tem que ser tratada como se fosse um segredo? Por que é que eu também não posso usar minha vida afetiva como pretexto para falar de trivialidades? Será que minha introspecção não é consequência dessa “barreira” que aceitei que a homofobia me imputasse? Será que aceitei ou simplesmente nunca parei pra pensar que isso poderia ser diferente?

JPDC Swept Away By My SailorFiquei com essas perguntas na mente, até que, certa vez, uma colega de trabalho me convidou para a festa de casamento dela. Ela veio com dois convites e me disse: “Adriano, leva dois convites! Você tem namorada?”

É engraçado, mas o cérebro da gente sempre sabe quando a resposta que temos será encarada com supresa. Nesses micro-instantes após a pergunta, quem ainda não está se acostumando com a postura de “se assumir diariamente” fica a beira de mentir ou omitir. Eu poderia dizer “não”, sem com isso falar mentira alguma, afinal, eu nunca tive namorada. Aposto que muitos gays, infelizmente, tomariam uma resposta dessas como satisfatória. No entanto, entra aí o fator “heterossexualidade presumida”. Se eu dissesse “não”, ela ainda ficaria pensando que eu era hétero e estava solteiro, e que noutra ocasião poderia até ter respondido “sim”. Numa dessas, não adiantaria nada eu ter me assumido no orkut. Mesmo assim, eu tinha namorado na época. Responder um “não” não seria apenas omissão, seria uma forma de mentira mesmo.

E eu acabei desenvolvendo uma tolerância muito pequena para com a mentira depois que passei a ter tanto acesso a informações e formações. Depois de entender como a sua sexualidade é uma coisa natural, respeitar a ignorância alheia acerca dela é um suplício. Eu sentia vontade de deixar claro que aquele palpite sobre heterossexualidade estava errado. A informação era incorreta. Naquele momento, eu respondi: “Não, eu tenho namorado”. E falei na maior naturalidade, ou na melhor “naturalidade raciocinada” que consegui esboçar.

Minha colega de sala (não a que me convidou) era uma mulher super preconceituosa: racista, machista, tinha preconceito contra pobres e contra gordos, entre vários outros preconceitos que felizmente não cheguei a descobrir. Ela estava ali assistindo, e em outras circunstâncias eu teria ficado inibido, justamente por já até saber de onde poderia vir a homofobia. Mas eu também tinha plena convicção que um “a” que ela dissesse contra minha sexualidade poderia ser vastamente rechaçado. Ela jamais teria capacidade de me diminuir por causa de minha orientação. Essa segurança me permitiu responder com a verdade.

Seria fácil não falar, mas eu estaria compartimentando uma faceta da minha vida, isolando-me do contato trivial que poderia ter com quem passava horas do dia no mesmo ambiente que eu, por puro medo de um suposto preconceito, ao qual, ainda por cima, eu era totalmente capaz de fazer frente. Por que eu faria isso?

Minha resposta soou tão natural, que qualquer piadinha ou reprovação da parte alheia teria sido uma aberração social. Foi muito bom ver que não havia espaço para preconceito naquela situação. Se algo naquela situação precisaria ser omitido, não era minha orientação sexual. Era a homofobia.

Pode parecer banal isso que estou dizendo, porque… bem, eu apenas respondi a uma pergunta muito simples com uma informação muito simples. Mas é que o essencial escapa ao “diálogo do convite de casamento”. Quantas pessoas evitam falar uma coisa simples dessas por medo de reprovações? Ou se arvorando na farsa de que “ninguém tem que saber”, ou “ninguém tem nada a ver com a minha vida”? Quanto contato interpessoal nós podemos perder com os não-gays? Os héteros vivem uma cultura inteira de situações em que afirmam indiretamente sua orientação sexual o tempo todo, seja falando do almoço na casa da sogra, do passeio a dois em um restaurante, parque ou evento cultural, ou da festa de noivado de não sei quem. Eu, por outro lado, por muito tempo, falei muitas vezes pra minha mãe que eu estava saindo pra passear com “um amigo”, quando eu ainda não tinha liberdade de falar essas coisas com ela. Conheço pessoas que achariam o cúmulo até mesmo dizer que estavam saindo com alguém, e isso pra alguém que vive debaixo do mesmo teto que você e não é flagrantemente homofóbico. Deixam um atravessadíssimo “isso não é da sua conta” na ponta da língua para todas as situações em que essa paranóia mal resolvida com cheiro de mofo do armário se insinua.

Mas a verdade é que não existe nada de “meter-se na vida alheia” no fato de alguém me perguntar se tenho namorado (a). Imagino que quem sobrevaloriza uma pergunta dessas (ou qualquer outra pergunta sobre “vida pessoal”) é que está com um problema. Afinal, qualquer resposta que se dê a essa pergunta é uma resposta até mesmo banal, se analisada do ponto de vista da mera informação. O que a pessoa vai fazer com essa resposta é problema dela. Por que achar que isso é invasão de privacidade? Daqui a pouco perguntar “Tudo bem?” vai ser intrometimento, porque ninguém tem nada que saber se as outras pessoas estão bem ou não…

gay-closetTermino este texto com um questionamento: porque perguntarmos o porquê de atitudes nossas é a melhor maneira de ser algo mais que o mesmo reflexo de espelho matinal que escova os dentes pra ir pro trabalho diariamente: Será que outing é apenas o “contar que você é gay” ou um simples “evitar que pensem que você é hétero” já não seria muito mais significativo?

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6 Respostas to “heterossexualidade presumida e o outing”

  1. Parabéns Adriano, muito bom o seu texto eu gostei muito sobre essa experiência e tanto é que me inspirou a falar sobre a minha descoberta e contar algumas coisas com o que convivemos no dia-a-dia.

    Parabéns pelo ótimo texto!

    Abraços

  2. Adriano Says:

    Quem quiser visitar o tópico que deu origem a esse post, no qual há vários depoimentos tocantes, importantes e interessantes, pode clicar aqui: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=65754&tid=5341603912111567535

  3. Adriano Says:

    Obrigado, Wesley!

  4. muito bacana o texto, mesmo!

  5. ficou excelente!

    é preciso tirar toda essa maldade e enxergar da melhor forma os relacionamentos.

  6. Parabéns pelo seu texto. Se trata de um dos melhores relatos sobre o assunto que li ultimamente. Concordo plenamente com tudo o que você escreveu e ajo da mesma maneira quando me perguntam coisas pessoais que acabam por revelar minha orientação sexual. Texto claro, bem escrito e muito instrutivo para todos.

    Abraços!

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