cartão rosa para a homofobia

corinthianosQuando eu era bem pequenininho, meu papai me deu uma bola de futebol de presente uma vez. Na verdade, era uma daquelas bolas de borracha que se furavam com facilidade. Eu adorava brincar de chutar aquilo, especialmente com força, porque ela quicava que era uma maravilha, e eu ria muito. Quem visse a cena, diria que eu seria um craque (risos).

Ao chegar à idade escolar, por outro lado, fui tentar jogar o tal do futebol com as outras crianças, e não me dei muito bem. Eu era magrelinho e desajeitado, então não dava conta de jogar. Eu geralmente nem sabia de que time eu era (com ou sem camisa), e todos chutavam minhas canelas e me chamavam de “mulherzinha” por causa desse meu “despreparo”. Já chorei muito por causa dessa rejeição (aos dez anos um dos meus apelidos foi “queijo fresco”, então daí já dá pra se ter uma idéia), até que resolvi ir brincar com as meninas (Puxa, eu precisava brincar com alguém!). Todo mundo ria de mim por causa disso. Até as meninas… Algumas diziam que eu não podia brincar porque eram brincadeiras “de meninas”. Sabe, eu nunca tolerei esse “sexismo entre crianças”, mas mesmo achando isso idiota ao extremo, tive que ver a mesma coisa se repetir a respeito de esportes na escola até o terceiro colegial. Legal, não?

Ali por volta dos meus doze anos, acho que entrei numa fase de querer me identificar com o mundo adulto (que eu conhecia), e manti por algum tempo certas práticas das quais posteriormente até me envergonhei. Eu era meio homofóbico, por exemplo (guardados os limites da homofobia na cabeça de uma criança), porque entre os meninos da minha idade havia muito aquilo de “zoar” a masculinidade alheia. E, fora isso, havia ali naquela infância muitos outros pensamentos automáticos condicionados pelo meio externo. Nessa fase cheguei a falar pra mim mesmo que eu gostava do Corinthians, por exemplo, e fiz parte do universo de homens (ou projetos de) que mantinham um repertório de linguagem fática voltado para “qual time deu surra em qual”. Na verdade, meu pai já era Corinthiano, então eu acho que escolhi o mesmo time que ele por causa de toda a propaganda que ele fez em cima disso. Não encontrei posteriormente nenhum porquê racional de ter escolhido esse time, já que, depois, passei a pensar que eram todos iguais.

Enfim, eu não jogava futebol, mas me sentia na obrigação social de ter um time. Fui me “libertar” dessa nóia apenas quando, ali pelos quinze anos, deu um “plim” na minha cabeça e eu larguei de querer me identificar com aquele “mundo adulto que eu conhecia”. Passei a rejeitar tudo que eu achava errado nesse mundo, e isso incluiu a religião que eu tinha, o time de futebol pro qual eu torcia, a idéia de que eu tinha que me casar e ter família, dentre outras coisas que podem vir a se tornar um texto também algum dia.

pic1237648675_25655_15Desde então passei a ser um “sem-time” convicto, praticamente ignorando a existência do futebol na minha como algo além de um incômodo, torcendo muito raramente para o Brasil, em ocasiões em que colocavam uma TV passando jogo na minha frente. Não sinto vontade alguma de ver jogos de futebol. Já vôlei eu adoro. Como era um jogo “de meninas” e eu sempre estava com elas, foi então que aprendi a jogar, e lá no colegial eu já estava craque nas cortadas e no bloqueio enquanto os heterozinhos só apanhavam (risos). Claro que eles achavam o futebol deles melhor que o vôlei, mas, quem diz que isso fez diferença pra mim?

fut02Mas, bem, minha intenção com esse relato pessoal foi fazer nascer idéias para uma discussão acerca das relações entre futebol e homofobia. Para aqueles mais antenados, já deve ter sido possível vê-la na espreita dessas situações que narrei. Como em várias outras coisas do nosso dia-a-dia, a homofobia está presente. Mesmo assim, acho que nós temos que analisar essa questão com certa cautela para não incorrermos em generalizações e superficialidades.

O primeiro nível em que podemos analisar esse tema é o da prática do esporte em si. É você jogar futebol ou discutir técnicas de jogo suas e/ou dos outros. Nesse nível, eu diria que o futebol é irrepreensível, porque é um entretenimento, um atividade física, um esporte como outro qualquer. É importante sim que existam esses jogos, e não é cabível chamá-los de alienantes nesse nível, porque envolvem a interação entre pessoas e tem uma série de benefícios, como o desenvolvimento do corpo e da mente. Tá. Vamos para o segundo:

O segundo nível já seria o da coletivização desse esporte. É quando surgem os clubes e as organizações, agendando campeonatos e tornando a prática desse esporte um “evento social”. Nesse nível já podemos considerar a existência de torcidas e pessoas que olham pro futebol além do aspecto puramente “jogável”, mas eu ainda não diria que aqui ele é nocivo.

Nesse nível, ainda acho o futebol saudável, porque as pessoas têm total direito de ter os gostos que quiserem ter, e se isso envolve ter um time do coração, torcer pra ele ganhar, e elas ficarem felizes, que seja.

É no terceiro nível, porém, que  começa o anti-jogo. Esse nível eu chamaria de nível “da ideologia do futebol”, e ele engloba toda a cultura sexista, homofóbica, racista e de preconceito social que está envolta nesse esporte. Não dá pra negar: Nesse nível, o futebol (pelo menos o brasileiro) está podre.

futebolE isso tanto afeta as crianças que são inferiorizadas por não vestirem a camisa de craque-herói, quanto afeta o “pobre negro pobre” que é chamado de “macaco” enquanto joga. Perde-se a noção de que aquilo é um esporte, e os jogos viram também “cultos fanáticos da bola”. Perde-se a noção de que os times são entidades socializantes, e vêm os clubes multimilionários, transformando aquilo tudo num negócio super rentável, no qual os interesses dos patrocinadores falam mais alto do que o esporte em si. E ainda há aquela idiotice de passes caríssimos: Num dia você torce pro jogador X, porque ele joga no seu time preferido.

No dia seguinte o clube Y paga mais pra ele, que vai pro time adversário, e aí você já tem que torcer é pra ele tropeçar e sofrer uma fratura… Onde está a personalidade, a identidade desse futebol vendido? As pessoas torcem para os seus atletas e times “do coração” ou pro dinheiro que corre nessa “jogada”? E as torcidas que provocam guerrilhas em torno dos estádios? Elas estão mesmo pensando em futebol?

Eu não diria que o futebol é um “meio” onde a homofobia é “maior”, mas não dá pra negar que a conjuntura social e histórica desse país faz dele um meio perfeito para a proliferação de coisas das mais baixas que temos por aqui. O futebol reflete, então, aquilo que temos latente em nossas escolas, famílias, programas de televisão, etc.

david_beckham%20legs%20upOlhar pra fora do Brasil pode nos dar uma idéia melhor disso. Como é assistir uma partida de futebol nos EUA ou na Europa? Há esse caos social que temos por aqui? Aposto que em países desenvolvidos a coisa é diferente. E se é diferente, isso só pode ser uma prova de que não há nada de errado no esporte, e sim na cultura e nas condições socio-econômicas desses países, que deixa vazar para um esporte – que poderia ser tão benéfico – coisas como o preconceito e a violência. E isso nem é uma questão de pobreza. Lembro-me outro dia de ter visto na TV imagens da torcida da África do Sul, onde será a próxima copa do mundo. Fiquei encantado com a alegria contagiante de um povo que bem que poderia dar uma verdadeira lição para o “país do futebol” no que diz respeito a tratar um esporte como um evento de integração.

Fico por aqui na reflexão, dando meu cartão rosa para a homofobia e para todo o preconceito que, vigoroso ou dissimulado, tenta comprar os juízes e juízos das pessoas.

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