sobre ensinar e aprender…

Estreiando aqui no blog. Preciso registrar as postagens maravilhosas do Wesley Ursão e do Adriano (logo mais abaixo). Tanto os relatos pessoais quanto a discussão sobre homofobia e futebol estão maravilhosos. Leituras necessárias.

Fiquei pensando num assunto que gostaria de abordar aqui. Por mero acaso, encontrei um texto mais cedo, via twitter, que no começo aborda aquilo que quero falar. Chama-se Que história é essa de opção sexual? e trata da homossexualidade na educação e na imprensa.

Embora curse jornalismo, sou completamente perdido em termos de preferências acadêmicas: adoro Filosofia, Direito, Letras, História, Ciências Políticas… Se pudesse, cursaria todos. Foi essa sede de saber de tudo um pouco que me rendeu o convite, por parte de um grande amigo, para participar de um projeto de extensão da Universidade em que estudo.

conhecimento

Entrar na universidade é grande desafio para quase todos brasileiros que o desejam. Anos de cursinhos para muitos. Milhares de reais para outros – que podem pagar por isso evidentemente. É aí que entra o Pré-Vestibular Popular Alternativa, o PVPA. O projeto é da própria UFSM e funciona de modo bem simples: alunos dos diversos cursos da Instituição, principalmente das licenciaturas, são professores voluntários no cursinho. Há uma seleção bem rigorosa todo começo de ano e são formadas quatro turmas com aqueles que passam pelas duas etapas (documentação e entrevista). Os dois critérios principais? Não ter condições de pagar um pré-vestibular tradicional e muita força de vontade.

Em meio aos alunos de Letras, estou eu de penetra. Mas o desafio tem sido gratificante. Essa relato é válido para o blog na medida em que outras atividades fora da sala de aula são desenvolvidas pelo PVPA. Nisso consiste, inclusive, seu diferencial: não só aulas, mas atividades que propiciem discussão e participação assídua dos alunos. A equipe de Português, muito afeita a projetos (risos), saiu na frente. Um deles, que eu coordenei, foi sobre diversidade sexual.

diversity (original)

Minha turma tem jovens de 17, 18 anos. Tem também moças casadas de 40 e poucos anos. E rapazes de 40, 50 anos. Uma turma super eclética, com gás de escola e aprendizado do cotidiano de trabalho e dificuldades da vida da maioria dos brasileiros. Uma galera que, quase na totalidade, trabalha o dia todo e dedica todas as noites às aulas do cursinho. Tudo pelo sonho de entrar na Universidade. Uma das minhas alunas é funcionária da empresa terceirizada que limpa a Universidade. De dia a vejo lá, de uniforme. De noite, nos encontramos na aula, para crescermos juntos.

Bota a Língua! Esse foi o primeiro projeto, e a ideia dele era convidar alguém para fazer uma palestra e introduzir algum assunto para discussão. O coordenador da minha equipe e eu, ligados em sexualidade como somos, decidimos: nosso professor de Antropologia, Gênero e Sexualidade é o cara. Lá foi o querido Guilherme Passamani falar a um público bem diverso. Primeiro ele passeou um pouco sobre estudos de gênero e então o assunto que sempre rende: as homossexualidades.

The two gentlemen of Portugal - Steve Walker

The two gentlemen of Portugal - Steve Walker

Voltando um pouquinho: quando organizamos a atividade, não esperava muitos alunos. De um total de 150 (4 turmas), pensei que no máximo 30 iriam. A noite estava chuvosa e o local era meio distante do cursinho (depois da atividade, os alunos teriam outra aula). Para minha surpresa e imensa satisfação, mais de 100 pessoas compareceram. Faltaram cadeiras, mas sobrou discussão.

Terminada a exposição do nosso convidado, os alunos começaram timidamente a opinar. Uns parabéns dali, uma crítica daqui, um relato mais adiante. Um dos alunos mais conhecidos do cursinho nos contou

Aos nove anos, numa rodinha de amigos, um deles nos ofereceu cigarro e disse: quem não fumar é puto.

Ele disse que fumou. Viciou-se por 20 anos. Foi então que eu disse, já num clima de descontração pós-palestra:

Puxa, era melhor ter sido puto né? Ele concordou (risos!).

Semanas depois fizemos uma segunda etapa do projeto, agora em formato de GD (Grupo de Discussão). Por acessibilidade, optamos por textos publicados em revistas conhecidas da imprensa brasileira que trataram do tema. Mais uma vez, participação intensa dos alunos; contribuições valiosas; e perspectivas que nem sempre nós, que tentamos pensar o tema diariamente, observamos.

Tenho sido um aluno desse cursinho ao aprender sempre mais um pouco que generalização tende à burrice inevitavelmente. Esses alunos, de todas as idades, a maioria com renda baixa e moradores das periferias de minha cidade, estão todos ali dispostos a discutir o tema. Com as expressões que tanto combatemos (homossexualismo, opção sexual, etc.) sim; mas com uma abertura incrível para falar de homossexualidade, de diversidade. Nisso reside o aprendizado de que só no contato humano é que podemos reter verdadeiramente as reflexões acadêmicas (e do orkut também). Tão habitual associar homofobia com baixa escolaridade e pobreza. De repente, há espaço para outras microrealidades, para essa profusão de visões que, muitas vezes, nos escapam.

Imagem da exposição Aches and Snow

Imagem da exposição Aches and Snow

Essa experiência, que espero ser longa ainda, fortalece em mim a convicção de que há searas em que podemos e devemos intervir, agir, dialogar, refletir conjuntamente. Fortalece o espírito de que é desse cotidiano palpável que virão as mudanças que tanto desejamos como homossexuais, cidadãos e seres humanos. Não só da educação, mas por meio dela sem dúvida alguma. A que se produz na escola, nas universidades, nas famílias, nos papos de bar, nos cursinhos. Retirando as camadas que constroem tudo isso, vemos que no cerne estão duas palavrinhas mágicas: visibilidade e diálogo.

Por fim, um vídeo. A fabulosa Nina Simone cantando Here comes the sun. Para o inverno rigoroso aqui do sul, a letra cai muito bem. Mas também para fortalecer nossas forças frente a ‘tempestades’ diversas. Afinal, o sol está vindo aí…

Abraços e até a próxima.

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2 Respostas to “sobre ensinar e aprender…”

  1. Luiz Claudio Says:

    Luizinho querido, que experiência anabolizante: tudo que vale a penas cresce assim: generosidade, tolerãncia, ampliação de mundo e visão das coisas.

    Você veio para multiplicar sabe né? Não só aqui mas na sua vida mesmo.

    Quero muito seus textos aqui

    abraços e seja muito bem-vindo

  2. […] de algumas escolhas pessoais e da minha intuição. Era meu último ano de graduação, eu ainda dava aulas no Pré-Vestibular, tinha o programa de rádio Ecolândia, a minha monografia, e as duas seleções de mestrado que […]

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