dosto com gosto

idiota“E tudo tem o seu caminho; e tudo conhece o seu caminho, sai cantando e chega cantando; só ele que não sabe de nada, não compreende nada, nem as pessoas, nem os sons, é estranho a tudo e é um aborto. Oh, ele, é claro, não pôde falar naquele momento com essas palavras e externar a sua pergunta; atormentava-se de forma surda e muda.”

” É melhor ser infeliz, mas estar inteirado disso, do que ser feliz e viver como um idiota.”

Dostoiévski, Fiódor M. O Idiota. São Paulo: Ed. 34, 2002. 681pgs. [publicado originalmente em 1868]

Ao contrário do que já ouvi dizer, O Idiota não é um romance de costumes. No máximo, forçando a barra, pode ser um escrito de hábitos. Seu objetivo é o de sempre: cutucar, machucar, revirar e dizer que as coisas não são tão lindas como balas de alcaçuz enfeitando árvores de natal.

O Idiota é o duelo pessoal do autor. Criou o mais perfeito ser humano, cuja evolução é tamanha que se sacrificaria de bom grado pela Humanidade… e o atirou em meio à sociedade burguesa, em suas tramas, tramóias e falcatruas, onde mentir é um hábito tão respeitoso quanto portar cartolas e manter polainas limpas.

Suas discussões e digressões são deveras interessantes. Começa pela perfeição indiscutível do personagem, que, de tão perfeito, epilético é. Sua bondade e pureza ficam à mercê de toda a gama de personagens que encontra: uns a moldá-lo, outros a alertá-lo, usá-lo, chocá-lo… todos definitivamente a julgá-lo.

dostoievskiCritica a burguesia enquanto um atraso egoísta no desenvolvimento moral das sociedades. Critica a religião pela imprudência de criar um modelo de virtudes tão insensatas, impensáveis e impraticáveis; dogmas insolúveis que acabam por levar o homem para longe do amor pela realidade, apegando-se ao amor pelo futuro interplanetário oferecido pelo além-vida.

Em um dos finais mais polêmicos já escritos (mesmo por ele), O Idiota cava com uma colher de café o fundo do poço das falsas intenções, do “limite do bem”, da “moral benfazeja” de uma sociedade burguesa voluptuosa e sarcástica, cínica e recalcitrante, que pretende acreditar em seu “construir um mundo novo” com os velhos parâmetros, trocando apenas papéis.

Ele ousa desmascarar inclusive o leitor incauto com seus julgamentos prontos.

Há filmes sobre o livro. Vários. Sugiro Akira Kurosawa, 1951 (japonês) e George Lampin 1945 (francês).

Dostoiéviski compõem um idiota perfeito.

Resta saber como nos compomos diante dele.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: