saia da caverna!

“Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade,[…] e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.”

Platão

platoNão, sem analogias ao armário, por favor. No quesito armário, cada um sabe de si. Eu, por exemplo, gosto de jeans, sapatênis e Gucci’s de algodão para combater o frio.

O mito da caverna,material  de Platão no seu texto A Repúlica . É desta caverna que falo.

Daqui, serei ainda mais restrita. Vou falar da perspectiva.

A perspectiva da caverna é conhecer do outro apenas pela sombra e supor ser este o outro. Da nossa perspectiva, somos capazes de analisar o caráter de todos, validar as diretrizes mundiais, delimitar problemas, descobrir soluções, redefinir parâmetros, sanar a fome mundial e ainda descobrir qual o melhor centroavante para a seleção brasileira de futebol.

Olhamos a sombra e a vestimos com nossa verdade. Sob nossa perspectiva. Desconhecemos a verdade da sombra, negamos o que ela é e passamos a catalogá-la como algo que exista na amplidão da nossa minúscula caverna, de nossa parca experiência, de nosso aprendizado, verdades e valores pessoais.

Os exemplos mais fáceis?   revistas, sites e links de fofoca, repletos de “opiniões respeitáveis” sobre a vida alheia. Torna-se a questão pública uma verdadeira privada – e vice-versa.

Os exemplos mais difíceis? Todos aqueles que não surgem da segunda ou terceira pessoa:  são “os meus” e “os nossos”. Minha “opinião respeitável” sobre a vida dos outros, criticando posturas, ditos, feitos, escolhas; questionando caráter, filosofia, importância, afetos, razões.

Estes eu tento ignorar, sob a alcunha de “meu direito de ter e manifestar uma opinião, já que existimos em uma democracia de livre expressão”… É, todo mundo faz isto… opinião no “direito” dos outros é refresco.

Alguns dos desdobramentos da incapacidade de perceber-se em perspectiva ao “emitir sua opinião” são conhecidos há tempos por qualquer negro, judeu, pobre, portador de necessidade especial ou gay…

Pode-se dizer que o preconceito é uma conseqüência de se olhar para o outro e pensar nele como uma extensão de si mesmo. Uma extensão analisada a partir de sua experiência de vida, de seu aprendizado somente. Uma coisa que nunca existiu antes de você, sem você, nem existirá depois de você. Uma sombra na sua caverna, submetida ao seu código de valores.

Sair da caverna implica em assumir uma realidade para além das suas paredes. Assumir que suas verdades e seus valores não são nada além de seus. Particulares. Acabaram-se as extensões de si. Existem outras verdades e outros valores, outras existências e outras experiências. Para conhecê-los, não adiantará mais pensar a partir de si.

Sair da caverna é dolorido e não acontece num rompante feito um nascimento. Vejo sempre pessoas indo e voltando da caverna. Por um lado observam e aprendem vorazes, por outro, geralmente quando se trata de assuntos que, de uma forma ou outra, ofereçam restrições a si mesmo [reais ou imaginárias], voltam correndo para a caverna a fim de se sentirem seguras com seus “certo” e “errado”.

É natural. Somos humanos, recuamos diante de qualquer ameaça, principalmente daquelas elaboradas pela imaginação fértil e desocupada. Contudo, ser “natural” não faz isto “bom”. A existência em sociedade necessita do exercício da capacidade de entender-se parte, social, e, por conseguinte, cercado de pares, de iguais.

A constante percepção de que a diferença dos outros nos faz iguais. Um exercício infindável de sair da caverna

Por isto, sendo negros, pobres, judeus, portadores de necessidades especiais, gays, somos todos humanos. Socialmente iguais em nossas diferenças. Precisamos ser capazes de nos enxergar e nos respeitar.

Diversidade é aceitar [a si e a qualquer outro] como é.

Individualmente plural.

Saia da caverna.

hmfb1

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