monstros do armário

being-gayOutro dia eu estava digitando um post na comunidade  HJE, quando surgiu um pensamento dentro da minha cabeça. O “recém-nascido” ficou escondido no meio dos meus miolos por alguns dias, até eu ter passado por uma experiência que o amamentou, fazendo com que crescesse e virasse este texto que vocês vão  ler  agora.

O pensamento era sobre gays homofóbicos.

Sim, você já deve ter lido sobre isso um sem número de vezes: Há homossexuais que, fãs da cultura heteronormativa, e já previamente ensaiados pela necessidade de se enquadrar em padrões e não destoarem muito do “script”, negam a si mesmos e voltam-se contra gays bem resolvidos, que vivem o espetáculo que eles gostariam de viver se tivessem coragem de subir no palco.

Homossexuais que fazem isso por terem internalizado desde pequenos uma rejeição a gays, rejeição essa que os empurrou à auto-negação e fugas confusas, as quais geralmente só terminam quando a pessoa é “flagrada”, pelos outros ou por ela mesma.

Mas a homofobia gay da qual quero falar é a daqueles homossexuais que já entenderam razoavelmente bem seus desejos e os vivenciam sem nenhuma culpa ou auto-ressentimento (Alguns vivenciam até bastante, aliás, ainda que dentro do armário) . O que não os impede, em alguns muitos casos, de continuar reproduzindo o ideário homofóbico em seu cotidiano, como parte do disfarce de hétero.

Na cabeça dessas pessoas, ser homofóbico é algo intrínseco da vida de um não-gay. A experiência eu tive certa vez com um rapaz que conheci na internet, quando eu ainda morava em uma pequena cidade do interior de MG chamada Monte Carmelo.

Como já era de se esperar, uma cidade nesses padrões não é o melhor lugar para se viver como gay, e acho que o cenário já ilustra bem o tipo de homofobia que estou pretendendo apontar desta vez.

Ele havia me adicionado dias antes num chat, e disse que era de outra cidade. Até aí, tudo bem, porque a vasta maioria dos meus contatos era com pessoas de cidades maiores mesmo. Em cidades pequenas, até na internet há dificuldades para se encontrar outros caras gays, principalmente se você não é dotado do famoso “gaydar”, o radar que alguns gays orgulhosamente juram ser infalível.

Só que eu não costumava dar muita bola pra pessoas de outra cidade (já que era incapaz de conceber que um estranho viajaria só pra me conhecer), então “fui deixando” ele na minha lista de contatos. Minha “lista de caça” já tinha também um monte de caras nas mesmas condições, ou seja, que me adicionavam super empolgados, e depois ficavam mudos, talvez ocupados demais adicionando outros estranhos para, no fim, não ficarem de verdade com ninguém.

gay-porn-shoot-tim-roma-bdsm-picDe toda forma, eu os mantinha lá, porque, se, qualquer dia, eu tivesse algo pra fazer na cidade deles, poderia rolar algo.O referido moço, no entanto, aparecia online muito pouco, e quando aparecia, não falava comigo, tanto que não me lembrei dele quando veio conversar. Quando veio, já começou todo animadinho querendo marcar algo, sendo que não tinha mostrado sequer foto pra mim.

Resolvi fazer a linha “entediado” para lembrá-lo que estávamos a quilômetros de distância, quando ele me perguntou o que nós faríamos se estivéssemos na mesma cidade. Foi a hora em que saquei que o tempo todo era alguém da minha cidade. Perguntei e ele confirmou, voltando a insistir na transa. Devia estar sendo um jogo interessantíssimo para ele esse de ficar escondido atrás das cortinas me cantando até conseguir algo com segurança, “sem se expor ao público”.

Bem, eu estava a fim, mas não queria dar tiro no escuro. Falei que só sairia de casa depois de vê-lo na webcam, para algum local neutro onde ele passaria para se encontrar comigo e de lá irmos para outro lugar talvez. Ele disse que se mostraria, mas não mostraria o rosto. Já comecei a torcer o nariz. Puxa vida, “o cara já me viu, já sabe que sou gay, e ainda vem com esse papo torto de não mostrar o rosto? Ele está pensando o quê? Que na hora da transa ele vai ficar com um saco de papel na cara pra ‘proteger a identidade’ dele?”

Quando ele ligou a webcam, mostrou só o peitão sarado dele. Sinceramente, em termos de corpo, acho que foi o cara “mais gostoso ever” que eu, um reles mortal, já tive a chance de pegar. Totalmente bofescândalo. Acho que não vou encontrar outro assim disposto a ficar comigo tão cedo (o que é uma pena, porque eu sou fã confesso de sarados, haha).

Depois de mais um pouco de conversa, enquanto euzinho esperava a boa vontade dele, me segurando pra não falar um “avoa” pra tanta baixa resolução (não estou falando da qualidade da cam), ele, por fim, mostrou o rostinho igualmente lindíssimo dele.

monsters_18-m22_fAcontece que, daí em diante, ele deve ter me pedido umas trinta vezes pra eu não contar pra ninguém. No MSN, no telefone, quando finalmente nos encontramos… o tempo todo. Detalhe: combinamos de ir pra casa dele, mas ele não me deixou descer do carro na garagem de fora, porque em plenas duas horas da madrugada ele estava com medo que os vizinhos me vissem (Sim, gays têm césio na corrente sanguínea e ficam luminescentes de noite. Efeitos especiais!).

Enfim, a noite foi um fiasco, porque eu fiquei me sentindo rejeitado com essa fixação armarística dele e não consegui curtir o momento. Essa coisa do “não podem saber” lança os relacionamentos (mesmo os de puro sexo) para uma coisa de clandestinidade que eu descobri que me enerva profundamente. A pessoa fica olhando pros lados, ansiosa, terrificada, paralisada, como se você fosse uma bomba relógio de purpurina.

Quando estávamos voltando para o centro, de onde eu voltaria para minha casa sozinho, ele me perguntou se eu era assumido. Quando eu disse que sim, tive medo que ele batesse o carro, tamanho foi o susto dele. Parecia filme de terror. Era como se eu fosse algum tipo de “leproso social” pronto para queimar o filme dele.

Tive então uma nítida visão da dimensão de uma homofobia que até então eu só tinha visto online. Agora vivemos no Big Brother Mundo, e em cada canto da rua há uma câmera mirando na sua bunda para saber se você anda rebolando, para – evidentemente – mostrar isso nas TV’s de cada pessoa da academia, do seu trabalho, da sua família… do resto do universo, enfim.

Ser visto na presença de alguém gay nessas câmeras, então, é um atestado inconteste de homossexualidade, o que deve ser a pior coisa do mundo.

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Ainda bem que existe a web, ahh, a web! Nela você pode ser “livre” para falar “sou discreto e quero o mesmo” (tudo “no sigilo”), e, claro, que “não sou nem curto afeminados”, porque “homem tem que ter jeito de homem”, dentre várias outras frases feitas que poderiam mostrar os níveis de desprezo contra gays assumidos e tudo aquilo que se distancia da heteronormatividade.

Eu bem me pergunto se os homofóbicos combatidos usualmente ganham dos gays homofóbicos em números e na agressividade das afirmações contrárias a tudo aquilo que remete “ao meio gay”, do qual eles afirmam estar fora, com muito orgulho (?!), como se isso fosse uma qualidade.

E acho essa a mais lamentável das fraquezas da luta contra a homofobia, porque pela internet vejo que somos muitos. Os sites de caça fervem, os batepapos idem, orkut também, sem contar os lugares onde todo esse sexo reprimido aflora presencialmente, sem se tornar visível ou socialmente pleno na vida das pessoas.

Se todos os homossexuais fossem conscientes do quanto estão perdendo por se conformar com o armário… se todos se unissem contra aqueles que tentam nos fazer mal, não haveria pastor político de merda algum capaz de se opor a nós. Nós seríamos imbatíveis na conquista de nossos direitos.

Mas não. Parece que, enquanto isso, temos que nos conformar com poucas obras de arte existenciais contra a homofobia, em meio ao todo o “teatrinho” dos caras que vestem a fantasia de algoz para serem aceitos. Aceitos de mentirinha, porque não percebem que quem é aceito é um “personagem”, e aquele que está debaixo do disfarce é tão rejeitado quanto nós, com a diferença de que não nos curvamos e temos coragem de enfrentar quem quer nos trancar nos bastidores da história.

homophobia_is_gayEspero que um dia a crítica deles se aprimore e eles possam apreciar o verdadeiro espetáculo da vida. Mais que isso, espero que se tornem atores de suas próprias vidas, e não meros espectadores sem criatividade alguma, engolidores daquilo que a TV coloca mal mastigado nas cabeças deles…

Merda para todos!

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7 Respostas to “monstros do armário”

  1. Querido, seu relato, muito bem escrito, infelizmente não é único. Isso se repete aos montes em n situações. Já passei por algumas, das quais até me envergonho quando relembro. Mas é importantíssimo falar disso: da homofobia explícita e da internalizada, cada qual em seu extremo, já temos razoáveis relatos e discussões. Nos falta o ínterim, esse meio campo entre o armário e a rua. Excelente reflexão. Grande beijo.

  2. João Pedro Says:

    Parabéns. Texto incrível.

    Eu fiz essas mesmas conclusões quando visitei chats na internet. Essas pessoas dão nojo. E graças a elas que não conseguimos nos organizar para garantir nossos direitos.

    Só não cultivo mais raiva delas, porque já tenho a consolação de que todas essas serão infelizes e nunca conseguirão se sentir verdadeiramente bens com a vida. Por mais que consigam (e a maioria consegue) esconder seus sentimentos, casar, ter namoradas e viver uma vida “normal” (ênfase nas aspas”, por dentro nunca terão paz.

  3. Patrick Says:

    Ótimo texto! Entendo perfeitamente o que vc exprime nele! Passei por situações como essa diversas vezes com outras pessoas que ‘tiveram medo/vergonha de sair comigo, pq eu “chamo atenção” pelo jeito de vestir’.. hahaha mas enfim .. nao será em 1, 10, ou mil anos q vamos mudar oq tem sido desde a pre-historia. É a triste realidade! abraços! ;*

  4. Ótimo texto Adriano, eu que gosto de Travestis sei como é isso e logo que vejo algumas Travestis revoltadas com os T-Lovers porque só saem com elas as escondidas, mas eu como T-Lover e um cara bem resolvido eu saio com qualquer travesti a qualquer hora do dia. Mas tem aquelas que preferem manter sigilo, preferem sair a noite em “guetos” específicos onde a maioria não irá nos ver.

    Eu queria muito poder arranjar uma namorada seja ela Crossdresser ou Travesti no qual pudesse curtir um momento com ela há qualquer hora do dia e em qualquer lugar, acho que os mal resolvidos preferem se esconder para não ficar mal falado na sociedade. É o que acontece com alguns caras que as Trans entitulam de mariconas, que são aqueles caras casados com mulheres e que a noite vai procurar travestis, alguns para ser passivo (Nada contra quem é passivo) e no dia-a-dia vivem uma vida digamos “hetero” e ainda metendo malha nas Trans na qual ele toda a noite estão a procura.

    É lamentável isso!

    Abraços

  5. A pior homofobia e essa…A que parte de um dos nossos.
    Convivo e amo uma pessoa que e homofobica com ela mesma.

  6. Qual o nome do autor do texto?

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