queercore, militância de peso

*texto publicado em 2008 na Revista da Cultura, 11a edição, pgs 16-18


limp wrist

Você está em uma casa de shows onde toca uma banda de punk hardcore – um tipo de punk rock mais rápido e barulhento, com letras politizadas, e em que as músicas dificilmente chegam a dois minutos de duração. O público é composto pelos tipos normalmente encontrados em apresentações do gênero: jovens com cabelos raspados ou moicanos, pulseiras e camisetas pretas ostentando os nomes de suas bandas prediletas, executam uma dança caótica em círculos, pulando e empurrando uns aos outros enquanto sacodem as cabeças ao ritmo da música – que é demasiado rápido para coreografias mais ornamentais. Você constata que está em um ambiente viril e quase sente o cheiro de testosterona no ar. Eis que então um homem barbado, suado, acima do peso e sem camisa invade o palco, agarra o vocalista e lha dá… um beijo de língua. O vocalista não parece surpreso: devolve o beijo ao fã e o empurra de volta para a platéia; a música continua, e o refrão canta “I love boys hardcore!”

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Não, você não entrou por engano em uma balada gay; essa é uma casa de shows mesmo, e a banda está realmente tocando punk hardcore. Só que essa banda tem uma peculiaridade: todos os músicos são gays e as letras tratam apenas de questões relacionadas à vivência homossexual. Cenas como a descrita acima não são raras durante apresentações do Limp Wrist, um grupo norte-americano que se denomina “punk-hardcore-gay”. A expressão “limp wrist” significa pulso mole ou caído, uma referência ao gesto que homossexuais mais afetados costumam fazer com as mãos. No entanto, o som e a performance da banda não têm nada de delicado. Entre uma música e outra, o vocalista e letrista Martin Sorrondeguy costuma aproveitar para discursar contra o preconceito e o machismo dentro do universo punk, bem como contra a futilidade do universo gay. Uruguaio radicado em Chicago, Martin admite que “é estranho escrever letras para o Limp Wrist. Para quem estamos escrevendo? Para um público punk, gay ou straight-edge?”

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Antes do Limp Wrist, Martin fazia parte de outra banda de hardcore, intitulada Los Crudos e formada por imigrantes latinos nos EUA. Assim, antes de levantar a bandeira das minorias sexuais, já escrevia e cantava sobre a experiência de ser um forasteiro, nem sempre bem-vindo, em uma terra estranha – a quem é normalmente reservada uma posição marginal. Foi durante as apresentações de Los Crudos que Martin começou a declarar sua homossexualidade para os fãs, e surpreendentemente, a maioria reagiu bem; apenas alguns protestaram, e afirmaram não ser mais fãs de Los Crudos já que ela teria se transformado em uma “banda gay”. Martin deu de ombros: “Se esses caras pararam de nos escutar só por causa disso, é porque nunca gostaram do nosso som.” Teve então a idéia de formar um grupo onde todos os músicos fossem gays, para produzir um hardcore que abordasse questões relacionadas à vivência homossexual no universo punk – e assim nasceu o Limp Wrist, um dos porta-vozes de um movimento cultural gay punk, auto-denominado queercore.

Além do Limp Wrist, outros nomes de destaque na cena queercore são Youth of Togay – trocadilho com o nome de uma banda de punk hardcore já existente, a Youth of Today –The Dicks, GO!, Fruit Punch, Nick Name e muitos outros. A maior parte dessas bandas grava e se apresenta de forma semi-indepentende, de modo que é vendida em lojas de discos; felizmente, a maior parte também costuma ter páginas no myspace e vídeos no Youtube.

Música e transgressão

O universo do rock sempre foi aberto à ambigüidade sexual, dos cabelos longos dos hippies, passando pelas estripulias de Iggy Pop até a androginia de David Bowie. Nem o heavy metal escapou quando Rob Halford, vocalista da Judas Priest, declarou-se gay. Mas isso só aconteceu em 1999, quase dez anos após o fim da era dourada do metal – os anos oitenta. Aí reside o grande diferencial do movimento gay punk: enquanto o heavy metal e outras vertentes do rock costumavam ficar no armário, o punk vem atrelado a valores que são incompatíveis com armários em geral. É interessante notar que o termo “punk” surgiu como uma gíria para designar gays em prisões, de modo que o preconceito no universo punk torna-se uma espécie de ironia triste.

O termo queercore é uma combinação de “queer” – palavra que tradicionalmente significa “estranho” ou “incomum”, e que a partir da metade do século XX passou a significar qualquer coisa relacionada à cultura gay, especialmente sua parte mais politizada – com hardcore. Num primeiro momento pode parecer apenas mais uma denominação musical, mas há algo diferente no queercore. O estilo vem atrelado a um conjunto de valores específicos, de modo a ocupar um espaço singular na cultura contemporânea. Pode ser reconhecido pelas letras, que exploram temas como preconceito, identidade sexual e de gênero, liberdade individual e anarquismo.

Diante da apresentação de uma banda como o Limp Wrist, a primeira característica que chama a atenção é o afastamento dos estereótipos normalmente associados aos homossexuais, como delicadeza, fraqueza, predileção por músicas alegres e dançantes, ou o culto exagerado à juventude e à beleza. É como que o queercore fosse o emocore ao contrário: enquanto os emos, em sua maioria, são jovens heterosexuais que apresentam comportamento e visual andróginos, valorizando a sensibilidade e expressão das emoções, o queercore é constituído de homossexuais que cultivam uma atitude rebelde e politicamente engajada, além de um visual agressivo. Assim, emocore e queercore realizam movimentos opostos, mas ambos apontam para uma mesma direção: a diversificação dos modelos de identidade de gênero.

Em relação à comunidade gay e sua história, o queercore sustenta algumas posições que desafiam o consenso estabelecido. É verdade que o preconceito parece ter diminuído nas últimas décadas, mas isso se deve em grande parte a uma popularização do conceito de pink money. Como gays e lésbicas não costumam ter filhos, tendem a ter menos despesas, logo, tendem também a ter um poder aquisitivo um pouco maior do que heterosexuais, podendo viajar mais, estudar mais e consumir mais. De olho nesses consumidores, empresas de vários segmentos – nomes como Calvin Klein, Dudalina e Diesel – vêm lançando campanhas milionárias direcionadas ao público GLBT. Ora, sabe-se que punks em geral se opõem ao capitalismo e à lógica de mercado, e o queercore não poderia ser diferente: se por um lado o poder de consumo dos homossexuais facilita sua aceitação pela sociedade, por outro, cria uma situação de tolerância aparente e oportunista, baseada em interesses financeiros e não em princípios humanos. Isso gera distorções, onde homossexuais de classes média e alta são tolerados enquanto os mais humildes continuam sendo alvo dos mesmos preconceitos de sempre. Para os gays punks isso não é tolerância real, mas uma grande hipocrisia, sintoma de um capitalismo maligno que determina o sujeito por seu poder aquisitivo. Daí, a desconfiança que sentem diante de mega-eventos como a Parada Gay de São Paulo – temem que o evento esteja perdendo sua função política original e se transformando numa grande festa comercial.

Além dessa vinculação excessiva da luta contra o preconceito com questões de mercado, o queercore também questiona uma certa segregação entre os sexos que impera na comunidade GLBT: gays e lésbicas tendem a constituir guetos distintos, e apenas no âmbito das lutas políticas é que existe uma relativa unidade. No queercore, o público dos shows costuma ter tantas mulheres quanto homens, e há também espaço para bandas formadas por mulheres – como o Dominatrix, grupo formado por brasileiras lésbicas e feministas.

Queercore no mundo e no Brasil

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Assim como o punk, o queercore é uma cena cultural que existe fora dos sistemas comerciais, de modo que os fanzines – publicações não comerciais, produzidas de forma independentes e distribuídas através dos correios – foram cruciais para o seu desenvolvimento. Centenas de publicações independentes formaram uma rede intercontinental, permitindo que o movimento se espalhasse de forma subterrânea e que membros de comunidades menores, afastados dos grandes centros urbanos, participassem. Um dos primeiros agitadores e promotores da cultura queercore foi o cineasta canadense Bruce Labruce, que entre 1985 e 1991 editou o fanzine J.D.s – Juvenile Delinquents – onde lançou as bases para uma espécie de contra-cultura gay. Foi onde o termo queercore apareceu pela primeira vez. Para os editores de J.D.s, a cultura gay tradicional representava uma ortodoxia a ser contestada e superada, de forma semelhante a como os punks vêem a sociedade em geral. J.D.s deu origem a uma série de outros zines, todos expressando um desejo por alternativas aos guetos auto-impostos e por diversidade de gênero, em oposição à segregação então praticada pela comunidade gay. Insatisfação com o consumismo, fanatismo religioso e políticas repressoras também estavam constantemente em pauta.

A partir dos anos 90 Labruce alcançou certa notoriedade com seus filmes que, de forma polêmica, viram estereótipos do avesso combinando homoerotismo com ideologias revolucionárias e porta-vozes da intolerância. Em seu primeiro longa-metragem, No Skin Off My Ass, Labruce narra o inusitado romance entre um cabelereiro punk e um skin-head; em Raspberry Reich, erotiza figuras revolucionárias como Che Guevara e terroristas islâmicos. Ao retratar figuras tradicionalmente repressivas como homossexuais, Labruce propõe uma subversão na forma como entendemos sexualidade, identidade e relações de poder. Tudo, claro, com muito senso de humor e uma trilha sonora punk. Essa inversão de valores e modelos de comportamento é uma operação semelhante à que o queercore procura realizar no contexto da música punk. Os filmes de Labruce tiveram um enorme impacto sobre a cultura queercore, que passou a incluir o cinema como um de seus meios de expressão. O lançamento mais recente de Labruce é uma co-produção alemã intitulada Otto, the Gay Zombie – o primeiro filme de zumbis gays (!) da história do cinema.

No Brasil, a cena queercore ainda está engatinhando. Algumas das bandas mais comentadas em fórums do gênero são Nerds Attack, Textículos de Mary e Gay-O-Hazard, além do Dominatrix. Na Europa e América do Norte, eventos específicos para promover apresentações de bandas queercore acontecem desde meados dos anos noventa; por aqui, só no ano passado é que foi realizada a primeira edição do Queerfest, em São Paulo, o primeiro festival brasileiro de queercore. O evento é organizado por um coletivo autônomo, não hierárquico e sem fins lucrativos, e além das apresentações musicais, são oferecidas palestras, oficinas e debates.

Queerfest 2005, em SP Queerfest 2005, em SP
Queerfest 2005, em SP - foto de Leco Vilela Queerfest 2005, em SP

No impresso de divulgação da segunda edição do Queerfest, em março de 2008, foi publicado um texto de Michelle o’Brien intitulado How to define a term without defining the person – como definir um termo sem definir a pessoa – que diz: “Vejo-me relutante em dizer sou um homem ou sou uma mulher, ou fui um homem ou fui uma mulher ou me tornei isto ou aquilo; tão quanto me sinto relutante em dizer sou intersexual, ou sou transgênero ou sou intergênero, ou sou gay, ou sou lésbica, ou não sou gay – porque isso não define quem sou. São apenas formas de me categorizar, de modo que outros tenham poder sobre mim; este poder é tão significante que todas as forças do Estado e da medicina se envolvem na tentariva de forçar tal conformidade…” Esse pensamento, que parece proceder da História da Sexualidade de Foucault, expressa de forma pungente o desafio considerável que o queercore, enquanto proposta política, ainda tem de enfrentar.

saiba mais:

“Mate-me por favor”, de Larry Mcneil e Gillian Mccain
“A Filosofia do Punk”, de Craig O’hara e Paulo Gonçalves
“Diversos Somos Todos“, de Reinaldo Bulgarelli
“História da Sexualidade I, II e III”, de Michel Foucault
“Queer Studies”, De Robert J.Corber e Stephen Valocchi (em inglês)
“Queer Theory – Sociology”, de  Steven Seidman (em inglês)

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3 Respostas to “queercore, militância de peso”

  1. aaah obrigado pela formatação… ainda estou aprendendo a mexer nesse wordpress ^^

  2. Marcos Says:

    Muito bom… Tô conhecendo o “Queeercore” agora e achando-o bastante interessante como movimento transgressor aos padrões, heterodoxia é comigo mesmo, envolvendo o rock!… Já é! rs… Sem falar que achei o texto muito bem escrito, flúido, bem legal!

  3. Texto excelente! Não conhecia Limp Wrist nem sabia desse movimento capitalista das empresas para promoverem a marca nas “comunidades GLBT”… Lembrou-me bastante o que as empresas de cigarro fizeram para que as mulheres passassem a aderir ao vício do tabaco, fazendo o ‘fumar entre mulheres’ um símbolo de liberdade e autonomia (que se perpetua até hoje, se for perceber), mas na realidade uma coisa não tem nada a ver com a outra e isso é ÓBVIO.

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