quando o telefone toca

a life goes on by Steve Walker

a life goes on by Steve Walker

Dentre diversas divagações que nunca me havia ocorrido esta é, talvez,  uma das mais assustadoras.

Digamos que você trabalhe no caixa de um estabelecimento e se veja na seguinte situação: num dia qualquer, com a cabeça nas nuvens, pensando no atual namorado ou mesmo concentrado totalmente no trabalho. Um daqueles dias em que tanta coisa ocorre que nem se consegue  ver a hora passar.

Em num piscar de olhos, com uma fila de gente aguardando seu atendimento, com o sistema travando, com uma amiga que passa e manda um beijão fazendo uma linda declaração na frente de todos,( mas vocês  tem que se despedir pois o serviço está se acumulando)….o celular toca.

Ansioso, você coloca a mão no bolso da calça para atender. Você  espera ser mais uma vez seu namorado apaixonado que  liga diversas vezes no dia. Porém,  na verdade, o nome na telinha é outro. É de um ex namorado que na época lhe tirou o chão e virou seu mundo.

Seu coração para na garganta, as pessoas na fila de olham de forma estranha e começam a ficar impacientes com a demora do sistema e  seu olhar vidrado no aparelho.

Quando você finalmente atende percebe, na  hora, que algo  está estranho. Que ele não está bem, que quer lhe contar algo e desabafar. Que ele precisa de você.

Ele diz que quer lhe ver, que PRECISA. Você diz ser impossível nas próximas semanas devido à agenda lotada, às viagens programadas e começa, aos poucos, a rodar a conversa tentando descobrir o que ele realmente deseja falar.

Ele lhe diz que precisa explicar por que terminou o relacionamento, por que saiu do emprego meses atrás ( quase uma eternidade), por que largou a faculdade e não retornou seus telefonemas. Seu coração, que já estava na garganta, agora praticamente está na cara do próximo cliente.

Você percebe que a voz dele está cada vez mais diferente, mais enrolada, principalmente por que ele lhe pergunta se você se lembra que,  antes de se conhecerem,  ele tinha um outro relacionamento.

Você responde que sim e , mesmo com as mãos tremendo e sabendo o que está por vir, consegue eliminar todos os atendimentos restantes ficando apenas, naquele pequeno espaço do caixa, você e ele.

Do outro lado da linha, é claro.

Ele conta ter recebido a ligação de um amigo dizendo que seu ex- namorado está doente e é portador do HIV. Fala ainda, que fez os exames em sua época de surto e que o resultado não foi o  que ele esperava. Em meio a muito choro ele diz que é soropositivo.

Sua cabeça roda, em primeiro instante por causa da notícia, da doença de uma pessoa que lhe é querida, mesmo após tanto tempo e após tantas “mancadas”. No  instante seguinte, com seus olhos já lacrimejando e as lágrimas  escorrendo, vem à mente diversas imagens, de lembranças das transas intensas em diversos locais sem camisinha.

Você respira fundo, tenta se acalmar e não transparecer o choque. Diz que após o término, mais precisamente 6 meses, você fez exames. Mas ele, descontrolado,  grita sem parar para que você diga que está bem, que não tem nada, que ele não lhe contaminou “com o que está dentro dele”.

Você confirma que está bem e ele desaba a chorar e até suspira de alívio. Depois, após mais alguns minutos de conversa, você desliga o telefone e se dá conta que, no atual relacionamento, também faz sexo sem proteção e o receio não só de ter contraído o vírus, mas de ter passado adiante, lhe domina a cabeça.

hiv_russia

Como conviver com a culpa de contaminar outro ser humano com um doença que ainda não tem cura? Como contar para os familiares  e amigos? O que mudaria em sua vida?

Sabemos que a AIDS não é uma sentença de morte como antigamente, mas não pode ser tratada como se fosse apenas uma unha quebrada na noite de formatura.

Enfim, torça para nunca receber tal telefonema

É  imprescindível manter a rotina de prevenção para  ter certeza de não vacilar em momento algum. Nem nos  “15 segundos de orgasmo” que podem gerar uma vida inteira controlada por remédios e cheia de caraminholas na cabeça.

Uma situação que pode não estar tão longe quanto se imagina…..

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8 Respostas to “quando o telefone toca”

  1. Pesado!

  2. Justamente pelo fato do HIV não representar mais uma sentença de morte, o uso do preservativo apresentou queda http://bit.ly/16RrGG.

    Mas escrevi um post recentemente sobre isso e acredito que hoje em dia, o que fazemos é um sexo quase seguro: http://bit.ly/oC1pa

  3. meu prazer agora é risco de vida

  4. Mônica Says:

    ADOREI!!

    Elenita vc está de parabéns. Posso ler nas minhas salas de aula?

    bjs

  5. gabicallari Says:

    Obrigado pelas participações.

    Mônica, sinta-se à vontade.Arrase!!!

    O texto foi feito para o blog, mas se puder ser usado de outras formas podendo de alguma forma ajudar outras pessoas, ficarei feliz.

    Agradeço às correções textuais feitas pelo nosso querido LCL que, definitivamente qualificam ainda mais nosso espaço como realmente deve ser.

  6. Vitor Borgheresi Says:

    Speachless. Conheço bem a dor da espera – e a minha não foi nem um centésimo do que essa deve ser. Você também.

    O grande lance é que freqüentemente podemos contar com um ombro amigo. Você tem sorte, Gá, a mesma que eu tive: você contar não só com um ombro amigo, mas com ombro, braço, abraço e ouvido de um irmão. Aqui, como eu pude aí. E sempre aqui, como eu sei que sempre posso aí.

    Te amo, maninho que a vida deu.

    Vi

  7. GRACIELLE Says:

    MUITO BOM!!!

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