ribeirão preto, uma parada pra pensar

ADri

Soube da parada por meio de uma postagem no fórum da Homofobia Já Era. Aliás, eu na minha desatenção costumeira, e acessando com pressa, confundi a data e pensei que fosse no dia 9 de Julho (que é um feriado estadual de algum evento histórico do qual não me recordo agora). Pensei que a parada havia sido programada para o dia do feriado justamente para reunir mais pessoas, e – vejam que loucura – cheguei a me planejar para ir nesse dia. Foi então que comentei com um amigo, perguntando se ele ia, e ele me disse que nem estava sabendo. Acessei o fórum novamente e foi então que percebi que seria um mês depois, no dia 9 de Agosto. Disfarça!

O bom foi que deu tempo de pedir uma máquina fotográfica emprestada, para tirar fotos e mostrar para todos. Resolvi cortar pequenos papeizinhos com o link do blog da HJE, para mostrar onde as fotos sairiam (e para trazer mais leitores para nós), e saí que nem um papparazzi no dia, tirando fotos de todo mundo que eu achava diferente. Acabei distribuindo poucos papéis porque a maioria das pessoas posava pras fotos sem nem se importar, mas acho que distribuí alguns. O slide-show que postei aqui anteriormente tem as melhores imagens daquele dia.

De toda forma, ainda pensei: “Que bom! Com uma divulgação de um mês de antecedência, é sinal que a parada está sendo bem organizada!”. O que ficou nas minhas impressões sobre a parada, no entanto, infelizmente não veio a confirmar isso completamente. Na verdade, em termos estruturais a organização esteve de parabéns. Tudo transcorreu conforme o planejado, e eu não vi ninguém se queixando de roubos, brigas, etc. Os três trios elétricos estavam com um som ótimo (só fiquei decepcionado por ter ouvido um remix de “I Drove All Night” da Celine Dion umas trinta vezes até o fim da parada, mas tudo bem, abafa); a polícia marcou presença com suas fardas lindas, que praticamente se mimetizaram com os demais elementos fetichistas presentes, literalmente fechando e parando o trânsito (haha); e, apesar do ligeiro atraso para começar, tudo funcionou.

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Então o que é que pode ter dado errado? Acho que foi o essencial. Foi o sentimento da parada. Foi sua ideologia. E, não, eu nem estou falando daquelas críticas batidas e demodé sobre a tal da “carnavalização” da parada. Eu sou da opinião que o fato das paradas serem festivas não as descaracteriza. Pelo contrário, a afirmação da alegria dançante de viver, da expressão pública do nosso amar e até da nossa porralouquice são o brilho purpurinado que as cores do arco-íris precisam. E esse mix de cores e tipos de pessoas é que é o que fascina, o que faz os héteros acharem a parada bonita e pensarem, da sacada dos seus apartamentos “Que legal! Que diferente! Que esquisito! Que excêntrico! É verdade, eles têm razão, acho que isso de preconceito não está com nada”. A parada tem que justamente mostrar que o mundo não tem que ser a caretice sisuda diária que ninguém aguenta mais. Não precisamos de paradas de terno e gravata.

Quando falo que o feeling não funcionou, e que isso teve a ver com a organização do evento, falo dos momentos de discursos e a inserção destes no meio da festa, fora um episódio lamentável no encerramento.

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Primeiro fato: A parada não pode ser “apenas” uma caminhada gay dançante, e foi isso que aconteceu. Aliás, ainda por cima aconteceu com pouca gente. Em alguns momentos eu tinha a impressão de que todo aquele povo caberia dentro da Diesel, que é uma boate daqui que tem uma pista de dança grande, que fica cheia todos os fins de semana desde que abriu. As boates ficam cheias todas as noites, mas nem todos “da noite” estavam lá “no dia”. Uma pena. Mesmo assim, quando falo que foi apenas uma caminhada, é porque acredito que os momentos antes do começo, quando o povo ainda está chegando e se aglomerando, precisam de ser preenchidos com conteúdo. Acho que seria ótimo oferecer algumas palestras e debates em pequenos stands, por exemplo. Por que não convidar sexólogos, militantes experientes ou até profissionais de saúde para promover conscientização dentro da própria comunidade LGBT?

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Segundo fato: A gratidão àqueles de fora que auxiliaram na organização da parada não pode se tornar um momento enfadonho de um “blábláblá” que quase beira à puxação de saco, com tom de submissão à “misericórdia hétero” que nos “deixou” fazer uma parada. São raras as pessoas que prestam atenção nesse tipo de coisa de “muito obrigado à prefeitura”, e eu, particulamente, acho que isso não é positivo nem mesmo pra quem recebe os agradecimentos, que acaba ficando taxado como o elemento “destoante e distante”. Tudo bem que haja a coroação da madrinha da parada gay e tal… mas isso tem que ser rápido, simples, criativo, e não pode ofuscar a verdadeira força motriz do evento, que é a ONG, a qual simboliza os LGBT em cima do trio.

A tônica desse momento deve ser “vencemos e agora vamos arrasar” e não “valeu por vocês terem nos permitido”. Outra coisa: A parada precisa para estes momentos, urgentemente, de um mestre de cerimônias que tenha uma voz agradável e fale bem (ouvir a palavra “aprausos” foi de doer!), e de um protocolo rígido para o que vai acontecer nos microfones em cima do trio elétrico. A festa é para quem está dançando lá embaixo. Quem está simbolizando esse momento tem que ter uma postura calculada e programada, visando um efeito de sentido bem definido: de inspiração. Não dá pra ficar chamando o fulano lá do meio da multidão para subir no trio, e nem pra pedir, no microfone, para que o outro trio abaixe o som… Isso dá a impressão de um evento amador.

RP21Terceiro fato: Se a parada teve um marco inicial bem definido (ainda que desarranjado), que foi a realização dos discursos, ela igualmente teria que ter tido um marco final apoteótico. Faltou um show, faltou fazer todo mundo cantar junto, faltou um gran finale. Mesmo que fosse uma banda não muito famosa, acredito que não seria difícil conseguir um show breve e significativo, com músicas que fossem a nossa cara. O que tivemos no final da parada, em vez disso, foi o que eu chamei de “episódio lamentável” e mais discursos sem sentido real. Não sei se foi exigência da polícia ou da lei, ou se foi a própria organização da parada que prometeu isso para a polícia, mas as drags, travestis e cia foram expressamente proibidas de mostrar os seios. A tosquice começa daí. Mas teve uma que mostrou. Subiu no trio elétrico e mostrou, pra todo mundo. Eu nem vi. Não sei se ela fez isso para transgredir mesmo, ou se estava muito “lôka” na hora (se bem que toda “lôka é uma transgressora por si só), mas isso acabou valendo um puxão de orelha vergonhoso, feito para todo mundo ouvir, pela própria organização da parada ao microfone.

Tive o desprazer de ver o cara falando que “era por isso que muitos sofriam preconceito”. Para quem tinha um pouquinho de senso crítico, foi ridículo ouvir isso. Ridículo principalmente porque ele teve aplausos (ou “aprausos”, whatever) quando disse isso. E dá-lhe paradoxo: nós ali para quebrar tabus, preconceitos e julgamentos, os casaizinhos aos beijos quentíssimos por todo canto, e a drag não podia mostrar os seios. A mulata Globeleza que passa na propaganda do intervalo da TV Globinho para as criancinhas de manhã em época de carnaval agradece, por só ela ser considerada artisticamente quando mostra os seios. As travas? Ah, essas horrorosas cometem “atentado ao pudor” (ao pudor ou ao poder?). A reprimenda me pareceu tão grotesca que resolvi ir embora. Acho que não custava nada ter deixado esse episódio longe dos microfones, e isso pra dizer o mínimo. Minha hipótese é que a organização do evento quis fazer boa imagem para a polícia e não hesitou em pedir a cabeça da travesti. Eu vi a polícia sendo elogiada pelo cara no microfone, que disse que ela não é homofóbica. Bem, eu não acho que eles estejam fazendo muita coisa para impedir os neonazis de perseguirem os gays na praça sete de setembro, por exemplo, então dessa negligência já se depreende muita coisa.

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Por fim, agora que me expliquei sobre o que me desagradou, preciso registrar que não tenho nada contra a ONG que se dedicou para que ela acontecesse – o Grupo Arco-Íris, se não me engano. Não conheço nenhum de seus integrantes, e definitivamente não quero bancar o chato com ares de crítico que “aponta o dedo” e, no fim das contas, não fez nada para ajudar. Imagino que, na nossa sociedade pseudo-liberal, seja extremamente difícil organizar um grupo político a favor da diversidade, tendo que lidar com governantes e burocratas em geral para dizer “Vamos fazer uma parada gay”, talvez até com possibilidades de levar muito “não”, muita “porta na cara”, e os intermináveis olhares feios de “que ridículo… uma parada gay…”. Num contexto de adversidades como esse, o trabalho de ONGs que se dedicam à causa deve ser admirado e incentivado acima de tudo. Nesse sentido, deixo aqui meus agradecimentos e parabéns à organização da parada.

RP4No entanto, não posso deixar de exercer o direito da crítica. E lamento esses erros ainda mais, porque são os que menos dependem de fatores externos para serem corrigidos. Colocar o trio na rua depende de “n” variáveis técnico-administrativas. Mas fazer com que a parada seja memorável só depende de nós. De toda forma, fiquei decepcionado apenas superficialmente. Eu me diverti pra valer, e olhando as fotos, eu adorei constatar que estávamos lá. Radiantes, coloridos, presentes, alegres, GAYS, a despeito de qualquer coisa, qualquer pensamento e qualquer sermão

E é por isso que temos que lutar. Mesmo que seja contra nós mesmos.

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11 Respostas to “ribeirão preto, uma parada pra pensar”

  1. Jisuis Says:

    Adriano,

    achei muito bacana a sua construção crítica sobre a parada.
    O seu primeiro ponto foi primoroso e o segundo pode resolvê-lo.

    Admitir a parada como uma comemoração, uma festa, um evento social da liberdade humana de ser [humano, glbtxyz, talicoisa] é fundamental para que seja estruturada como tal. E assim, sanar os pontos que você levantou.

    Desconheço o fluxo comunicacional das entidades glbtxyz; se pode haver troca de experiências culturais, organizacionais, enfim ‘ais’. Tipo Parentins ajudando Sapucaí… saca? Seria bacana.

    Imprescindível seu terceiro ponto. O preconceito motiva nossos passos pelo orgulho gkbtxyz: é CONTRA ele que andamos… é inadmissível que ele seja reforçado por nós mesmos.

    Não creio que nenhuma ong se sentirá ofendida com sua crítica. Ela foi tremendamente positiva, se você transcender a ingenuidade de ‘positivo é aceitar tudo feito gado’. Se eu fosse da ONG, agradeceria.

    • Adriano Mascarenhas Says:

      Obrigado pelo elogio, Jisuis! Concordo totalmente com você no que falou sobre o aspecto comemorativo da parada. Vivem falando que as paradas gays precisam ter uma postura “mais política”, mas esses episódios mencionados mostram que isso requer alguns cuidados, e que a festividade pode ser até mais política do que certas noções de “postura politizada”, como a que motivou essa censura ocorrida. Também concordo com o que disse sobre as entidades pró-LGBT ganharem bastante ajudando-se umas às outras. Espero, inclusive, que o grupo Arco-Íris não tome minhas críticas de maneira pessoal caso venha a lê-las. Espero apenas o melhor para todos nós! Abraços.

  2. Gente, que delícia esse Adriano!!!

    • Adriano Mascarenhas Says:

      Hahaha! Gente, como assim? Que delícia de ser lido ou que delícia de bonito? Bom, qualquer que tenha sido o elogio, obrigado, tá? rsrsrs

  3. Delícia de ler e ver e não posso dizer em quê mais porque infelizmente desconheço.

  4. petitte Says:

    Ah, concordo…mais ta uma sereia jogada na pedras, hein moço?!

    Quando eu vi as fotos no seu perfil da parada de Ribeirao..eu pensei ‘Gente que fodastico”.

    Eu e minha cabecinha ridicula de “cidade grande’ nos surpreendemos com o fato de uma parada numa cidade de ‘interior’ fosse organizada e movimentada.

    Enfim….preconceitos meus e paradigmas dai foram quebrados, tenho certeza.
    Acho interessante é introduzir mais formas de comunicação do publico gay ai, FikaDik adriano.

    Afinal de conta é um evento que movimenta MUITA grana e que além de tudo tem um publico bem grande…..

    Parada gay de Ribeirao Preto, globalize-se JA! No sentido mais amplo que isso pode ter.

  5. Excelente relato, opiniões muito claras e corretas. Realmente, a questão da ‘politização das Paradas’ é muito confusa e complexa.

    Há quem pense que ‘politização’ se faz interrompendo a Parada de hora em hora para fazer mais discursos (já vi isso acontecer, é estranhíssimo); há quem ache que é convidar sindicatos e partidos para colocar trios no desfile; há quem pense que se deve tirar os trios de saunas e boates ‘porque elas queimam nosso filme’.

    Só que se esquecem de que a política neste país não se faz (ou não se devia fazer) só com discursos, especialmente aqueles ‘muito obrigado à hegemonia hétero que nos deixou fazer a nossa festinha’, mas com a própria celebração e festa popular; de que atrelar o Movimento a partidos políticos pode criar uma situação de dependência que cedo ou tarde dará problema; e de que, quer gostemos ou não, saunas, bares e boates fazem parte do universo e da cultura LGBT.

    Além disso, a Parada tem um cerne dionísico de transgressão que por si mesmo é político; ela cria novos costumes ao enfrentar costumes e não deve se limitar por normas que não são aplicadas aos eventos heterossexuais, como bem lembrado no caso dos seios à mostra. Se todos os eventos tivessem iguais cuidados e limites, talvez até houvesse lógica nesse procedimento; mas, não como é a nossa realidade.

    Ainda temos muito o que caminhar (desfilar e dançar) na nossa luta diária por igualdade e direitos. As Paradas estão em transição e sofrem questionamentos nas suas raízes e origens; porém, não é trivial que o Brasil seja o país com maior número de Paradas (cerca de 150), mais que o dobro do que o segundo colocado. E não é trivial que as Paradas alavanquem mais mídia do que a Conferência Nacional de 2008. Elas estão aí para ficar; o que precisamos é aprender a usá-las mais adequadamente. Caminhando e cantando (e dançando e beijando).

    Ufa! Já escrevi demais, mas não podia deixar de fazer um último comentário. Faço coro com o Caio: Adriano, é uma delícia (com e sem vírgula) rsrs

  6. Texto excelente de se ler. Não vou me repetir, pois os colegas já disseram o que eu diria e com muito mais propriedade. Adoro textos grandes, hehe.
    Abraços querido.

  7. gabicallari Says:

    Com certeza Adriano arrasou no texto e na construção de uma visão sobre algo tão definido e ao mesmo tempo tão indefinido, que é a imagem de uma Parada de Orgulho GLBTT.

    Parabéns querido ;)

  8. Gostei das críticas, mas, pensando em transpô-las para a parada de sampa, fico com muitas dúvidas sobre sua viabilidade, dado o seu gigantismo e o número reduzidíssimo de pessoas dispostas a coordená-la.

    Sobre o Primeiro fato: há anos temos as palestras antecedendo a parada na feirinha do Anhangabaú. Neste ano eu participei distribuindo a programação dos eventos para quem chegava, e um amigo deu uma das palestras. Saí de lá bufando de ódio pelo desinteresse do povo em qualquer coisa que não fosse azaração e compras de coisinhas com estampa de arco-íris. Pode ser que o problema seja a divulgação da feirinha como só uma feirinha (quem vai pensando em se divertir e paquerar provavelmente não se animaria, na hora, a participar de uma palestra), mas talvez (e o meu palpite é este) o buraco seja mais embaixo.

    Ainda sobre o primeiro fato: como tornar uma parada gigantesca como a daqui em algo mais que uma caminhada dançante? Como subdividir e coordenar TODOS os trios, levando-se em conta que, pelo que sei, há somente três pessoas em cada um responsáveis por TUDO o que ocorre dentro de cada um deles? Pode parecer suficiente, mas vi este ano que não é…

    Sobre o segundo fato: concordo plenamente. Mas isto significaria arrumar um mestre de cerimônia carismático e bom orador para cada um dos vinte trios. Considerando que é difícil arrumar uma pessoa responsável para cada um deles, é uma exigência, por ora, irreal.

    Sobre o terceiro fato, não tenho nenhum comentário, a não ser o de que a atitude dos organizadores foi realmente lamentável.

    De qualquer maneira, acompanharei a organização da parada deste ano e levarei estes pontos e mais alguns outros que tenho :)

  9. Ricardo Says:

    Bom.. tenho que concordar com os elogios a cima.
    Texto grande, claro e, muito gostoso de se ler.
    Abços

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