poder ou potência?*

784068 De todos os casais adultos que conheceu, minha filha de 15 anos só admira um. É um casal de mulheres: M., HIV positivo há mais de uma década, tem pouco mais de 40 anos e uma filha de 22 – de um casamento anterior -, que acaba de transformá-la em avó; e A., de 35, que é filha de pais desaparecidos. Minha filha adorou-as assim que as conheceu, há uns três anos, quando ainda desconhecia os bastidores truculentos de suas biografias. Mas ela recebeu o verdadeiro golpe de misericórdia há um mês, quando M. e A. se tornaram mães. O aporte de capital masculino para a co-produção correu por conta de X., um homem gay, amigo íntimo de ambas, que venceu a corrida pela Grande Inseminação após derrotar três ou quatro adversários – também gays – que disputavam o topo da lista de candidatos feita pelas meninas. O bebê é chorão, robusto como um touro e tem um nome exótico e desafiador que eu jamais lhe daria. As vidas acidentadas de suas mães já acumularam exotismo e desafios suficientes. Mas ninguém é perfeito.

Andei me perguntando por que minha filha acha que sim; por que para ela – filha de pais heterossexuais mais ou menos ajustados, criada num contexto onde o amor straight não foi uma experiência especialmente deprimente – a relação de M. e A. é o modelo do amor perfeito. É verdade que o amor lésbico tem um quê de “novidade”, e que o tipo de novidade oferecido está em perfeita sincronia com esse momento homossexual por excelência – a adolescência -, em que garotos e garotas se perguntam com uma seriedade quase teológica por que motivo deveriam sacrificar a paixão cúmplice e sem fissuras que lhes inspiram as amizades do mesmo sexo por aquela que lhes promete, arrebatada, porém instável, o sexo oposto. Mas quero supor que há outras razões, algumas delas menos “evolutivas” e, portanto, muito mais estimulantes para ser pensadas. A que de início me vem à cabeça é que, por ser um amor entre “iguais”, o amor entre mulheres tem, à primeira vista, certa aura de “horizontalidade”, um componente “democrático” que o amor heterossexual – entre “diferentes” – não apresenta de forma tão visível, ou que talvez obscureça em conseqüência de uma longa tradição conflituosa, ou simplesmente sepulte sob o peso de uma vontade de poder, de posse, de exclusividade, que parece constitutiva de toda relação sentimental.

E005419 Eu pensava algo parecido há alguns anos, quando ao meu redor, no jardim com ares predominantemente pudicos da Buenos Aires dos anos 1980, os primeiros casais gays começavam a despontar como flores impertinentes. Parecia-me que, incubado num contexto repressivo, forçado à dissimulação e à militância, alheio, a princípio, aos imaginários que entristeciam o amor heterossexual (a família, os estereótipos, “o homem no trabalho”, “a mulher em casa”, “o homem em cima”, “a mulher embaixo” etc.), o amor gay tinha uma oportunidade única: a de inventar formas de experiência sentimental alternativas. Era assim que eu pensava, esperançoso, e mesmo com inveja, e assim continuei pensando até perceber como em pouco tempo, ou melhor, rapidamente, a uma velocidade que chegou a me assustar, essas flores anômalas iam se integrando às cores e às formas entremeadas ao jardim, moderando seus modos e estilos e aprendendo de cor os roteiros que, supunha-se, deviam ser arquivados numa gaveta. Da noite para o dia não havia casais mais heterossexuais – mais convencionais, sedentários, estereotipados – do que os homossexuais. A passagem da alternativa à paródia foi instantânea. As cenas de ciúmes entre gays pareciam estilizações patéticas do instinto de posse sexual straight. E o homem mortiço que recebia seu par-homem-trabalhador vestido com o avental de cozinha e a casa recendendo a especiarias transformava a velha e desoladora mulher dona de casa numa personagem quase sexy, numa dessas falsas freiras de filme pornô que levantam os hábitos e mostram que estão nuas e no cio, prontas para o que der e vier.

Se no amor o estereótipo é o poder (porque fixa funções e valores, porque naturaliza posições e políticas, porque impede circulações e intercâmbios), talvez o uso de clichês, ícones, imagens cristalizadas que sempre animou a cultura gay não tenha facilitado as coisas na hora de sua relação com o poder. Mas quem sabe nossa decepção tenha a ver menos com o que os gays fizeram ou deixaram de fazer com o amor e mais com a intensidade ou o desespero de nossa demanda, com o que nós, heterossexuais, esperávamos deles. Afinal, por que os gays deveriam aceitar a incumbência de dar lições de amor ao mundo heterossexual? Por que aceitariam ser “exemplares” em uma causa que evidentemente não era deles?

Princípio de concórdia

IS761-020Não acredito que minha filha se pergunte qual das duas, M. ou A., “tem o poder” nesse casal perfeito. Talvez se pergunte, no máximo, o mesmo que o cidadão-padrão diante de qualquer casal homossexual: quem é a mulher e quem é o homem? (Que é, de certo modo, a formulação-padrão – ou seja: não reflexiva – da pergunta sobre quem detém o poder, quem está em cima e quem está embaixo, quem está dentro e quem está fora etc.). Isso parece estar claro entre M. e A., desde que essa “clareza” não faça esquecer que “mulher” e “homem” não designam essências, nem mesmo identidades, mas principalmente estilos, modalidades, formas. Em todo caso, isso não diz nada do poder, nada das formas que o poder assume entre elas, na intimidade de seu amor, e nada do modo como o administram, regulam-no, reprimem-no ou o desfrutam. E se admiro a admiração que minha filha lhes professa talvez seja porque – mesmo sem acreditar que existam “casais perfeitos”, ou acreditando que todo casal é perfeito, no sentido de que inventa e fabrica uma estrutura, uma endemia, uma forma de vida que cabe unicamente a ele, a esse ecossistema formado por duas pessoas que se amam – tenho a impressão de ler nelas outro tipo de lição, outro “exemplo”, outro modo de pensar a questão do poder na experiência amorosa.

Em primeiro lugar, um modo de pensar o poder da experiência amorosa. Ou seja, o amor como poder em si (e não mais como palco, cenário, ringue íntimo das relações de poder). Qualquer roteirista necessitado de trabalho reconhecerá na história de M. e A. o dramatismo, as brutais mudanças de sorte e os ingredientes sociopolíticos de uma telenovela latino-americana. Mas o mais telenovelesco da história não é isso; é o que o amor fez com essa matéria-prima sangrenta. É seu poder de metamorfose. A idéia de que o amor – como, de outro modo, a arte – é um grande laboratório experimental que destila das feridas da história as condições de possibilidade de outra coisa, outra vida, outro mundo.

A0004837 E no “caso” de M. e A. procuro ler também – se me perdoam a petulância – uma forma spinoziana de expor a questão do poder. Quem é o homem e quem é a mulher, quem é o ativo e quem é o passivo, quem pensa e quem sente: todas essas perguntas pairam numa mesma órbita, a do poder conforme os velhos termos da guerra: como relação de forças, como vontade de possuir, dominar, subjugar o outro (e a vontade correlata do outro de esquivar-se, resistir, rebelar-se). Que utopia eu desejo que M. e A. encarnem? A utopia de esquecer o poder, essa paixão triste, cheia de embates, toma-lá-dá-cá, ação e resistência, e substituí-lo por uma parente sutil, que age na surdina, muito low-profile, mas incalculavelmente mais alegre: a potência; ou seja: um princípio de concórdia, simpatia, aumento, multiplicação. Pensado segundo certa clave contracultural, filha e tributária do controverso conceito de poder, o fato de que M. e A. sejam mães de um vociferante bebê de nome japonês seria mais um sintoma de a que ponto a “alternativa gay” – que sempre se gabou, entre outras coisas, de poder desligar-se jovialmente da questão reprodutiva, de emancipar o desejo e o amor das coerções familiares etc. – sucumbiu à estrutura da família tradicional. Pensado segundo a lógica da potência, esse viçoso chorão de um mês de vida é sintoma não do que esse casal é, mas do que pode, do que M. e A. são capazes de fazer juntas, de quão longe podem chegar uma com a outra, do que compõem uma ao lado da outra, uma se alimentando da outra… Assim, a pergunta já não será como é, como deve ser um casal, mas o que pode, do que é capaz, até onde está disposto a ir. E a resposta não nos dará uma moral (já não era sem tempo: isso tivemos de sobra); vai nos dar algo mais audacioso, imprevisível, experimental, e sem dúvida mais necessário: uma ética de casal.

Alan Pauls, escritor argentino, é autor de, entre outros, O Passado (Cosac Naify, 2007)

* originalmente publicado na revista Continuun do Itaú Cultural de Fevereiro de 2009

tradução: Josely Vianna Baptista

saiba mais

Thumbnail via WebSnapr: http://www.sololiteratura.com/pauls/paulsprincipal.htm

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: