mídia e movimento LGBT – FUMEC/BH

003 O auditório do Teatro Phoenix, da Fundação Mineira de Educação e Cultura (FUMEC), em Belo Horizonte, ficou lotado – ou, melhor seria dizer, “apinhado de gente, uai!” – na sexta-feira (28/8/2009) para receber os debatedores do evento “A Mídia e o Movimento LGBT”, realizado pela Libertos Comunicação, tradicional entidade mineira na veiculação de informações importantes para a comunidade LGBT, no combate à discriminação em todas as suas formas e na prevenção de DST/HIV, em parceria com a Comissão Mineira Pró-Conferência de Comunicação.

Na platéia, muita gente jovem, principalmente estudantes dos cursos de Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade), Direito, Pedagogia e Psicologia da própria Fundação, além das universidades Estácio-RJ, PUC, UFMG, UNI-BH e UNA. Também havia militantes do Grupo de Apoio, Luta e Defesa dos Interesses das Minorias (Galdium) de Itaúna, do CELLOS de Contagem e da Representação Regional Sudeste da Associação Brasileira de Gays (Abragay). O público ria, se emocionava e se encantava com os ótimos vídeos institucionais e publicitários sobre preconceito, cidadania LGBT e prevenção do HIV, que passavam no telão.

O Pró-Reitor de Ensino, Pesquisa e Extensão da FUMEC, Prof. Eduardo Martins de Lima, deu início ao evento, falando do histórico de dedicação e compromisso da instituição com as causas sociais, a educação e a cidadania. Ele declarou que as portas da Fundação estão abertas a eventos dessa natureza, que oferecem esclarecimento e abrem espaço para questionamentos importantes, o que não por coincidência é uma das funções primárias do ambiente universitário.

O presidente da Libertos Comunicação, Osmar Resende, falou da atual situação da Comunicação em nosso país, da futura Conferência Nacional de Comunicação – marcada para acontecer em dezembro – e da importância de se discutir, observar e criticar os veículos de comunicação de massa. Deu especial ênfase à forma como a mídia representa a população LGBT – ou melhor, como a ignora, só dando ênfase aos aspectos “exóticos”, à criminalidade, à marginalidade e aos estereótipos superficiais e preconceituosos. Lembrou que, segundo uma pesquisa feita na própria imprensa, um homossexual é assassinado a cada dois dias e que esse número provavelmente é muito maior, mas a população pouco vê, tal é o descaso da mídia.

Osmar aproveitou para lançar a campanha “Denuncie!”, que divulga endereços para que cidadãos e cidadãs possam cumprir seu papel e informar sobre discriminação, homofobia, racismo, incitação ao ódio e à criminalidade e crimes de pedofilia (vide abaixo a lista completa).

A mesa de debates, bastante animada e esclarecedora, era composta por especialistas e profissionais das áreas de Saúde, Psicologia e Comunicação:

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Andre Versiani Barbosa, representante do Conselho Regional de Psicologia (CRP-MG) no GT Diversidade Sexual do Sistema Conselhos de Psicologia, falou sobre os 10 anos da Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia, que instrui profissionais de Saúde Mental a não promoverem tratamentos de ‘cura’ da homossexualidade, posto que a mesma não é doença nem desvio. Como não poderia deixar de ser, ele comentou a recente entrevista da psicóloga Rosângela Justino à revista Veja, na qual ela não só insiste em seus equívocos conceituais sobre a homossexualidade (além de misturar suas crenças pessoais com o exercício da profissão), como também acusa o Movimento de Cidadania LGBT de ‘ligações com o Nazismo”. Vale lembrar que, recentemente, Justino teve sua censura (aplicada pelo CRP-RJ) confirmada pelo CFP.

Carlos Alberto Carvalho, professor de Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto, falou do grupo de pesquisa do qual participa no Programa de Doutorado em Comunicação na UFMG, que realiza a pesquisa intitulada “Jornalismo e homofobia: visibilidades e silêncios em narrativas jornalísticas nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo”. Ele trouxe informações importantes para provocar a reflexão na platéia sobre a invisibilidade, ainda vigente na grande mídia, de questões relevantes da cidadania LGBT.

Lidyane Ponciano, Diretora do Sindicato de Jornalistas de Minas Gerais, falou de sua monografia de graduação, em que também tratava da invisibilidade LGBT na mídia. Falou também das reações de estranhamento dos colegas de faculdade, que achavam que ela, heterossexual, seria “taxada de lésbica” (como se isso fosse uma coisa negativa) por estar pesquisando o tema. Ela também chamou a atenção da platéia para a Conferência de Comunicação de Minas Gerais, convocando todo mundo a participar. O blog da Conferência é: http://www.proconferenciamg.wordpress.com

Nivaldo Barros Coelho, jornalista e assessor de imprensa do Departamento de DST/Aids do Ministério da Saúde, falou das campanhas de prevenção e da necessidade de se debater a fundo temas que ainda são considerados “delicados” para o ambiente escolar: sexo, reprodução, camisinha, DST, HIV etc. Em especial, chamou a atenção para o comportamento sexual dos jovens, que não vivenciaram os primeiros anos da epidemia de AIDS e que precisam ser não só informados, como incentivados a usar a camisinha sempre.

Ana Fadigas, professora de Marketing da ESPM-SP, editora de revistas da Abril e fundadora da editora que lançou a G Magazine, falou de seu trabalho na militância, dos estereótipos homofóbicos na mídia – e, durante o debate, citou a participação da G nos debates sobre a cidadania LGBT. Sobre os homens que decoram as páginas da revista, disse que sempre considerou aquelas seções da publicação como “um ato de liberdade, uma lembrança ao leitor de que o prazer não precisa se desculpar, se justificar”.

Jean Wyllys – sem dúvida, o debatedor mais esperado da noite – escritor, jornalista, roteirista e professor de Estudos Culturais e Teorias da Comunicação na ESPM-SP (e, sim, ex-BBB, apesar de não gostar do ‘rótulo’), brindou o público com histórias pessoais, uma breve ‘dissertação’ acadêmica e lúdica sobre o conceito de ‘orientação sexual’, afirmações contundentes sobre a importância de se ter uma visão crítica sobre a mídia, a cidadania e a participação de todas as pessoas LGBT no Movimento, que afinal de contas é feito para elas. Ao final do debate, ele autografou exemplares de seu novo livro, Tudo ao mesmo tempo agora, um ‘compêndio de crônicas e provocações’, como ele mesmo o definiu. “Esse livro fala sobre diferença, sobre igualdade, sobre discriminação e cidadania. Sobre ser mulher, negro, homossexual, qualquer pessoa que por alguma razão seja vista como diferente ou inferior. É um livro para todo mundo”, afirmou.

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Depois do debate – que avançou até depois das 22h, ainda com o teatro bastante cheio – os convidados foram aproveitar a noite com descontração e um ótimo papo. Ana Fadigas não largava o leque (só de sua coleção) por nada nesse mundo.Só ali, naquele ambiente ‘relax’, Jean se dignou falar com mais detalhes sobre o BBB (coitado, já está saturado) e sobre os rótulos que o programa impõe aos participantes: não importa o grau de instrução, etnia, gênero ou nível sócio-econômico, ter participado do BBB ‘nivela’ todo mundo a um mesmo patamar. Ser “ex-BBB” confere um tipo de ‘status’ que pode até ser bastante duvidoso…

No dia seguinte, ainda tivemos um belo passeio pelo centro de BH, oferecido pelos nossos anfitriões Osmar, Sergio e Wallison (que fica lindo de saia). Um passeio de compras, brincadeiras e muita confraternização. O tempo ajudou, com um sol maravilhoso.

A minha única reclamação é a distância entre BH e o aeroporto (são quase 40 minutos de carro!) – não é a toa que o nome dele é Confins…foi um ótimo fim de semana, cheio de conhecimento, militância, novas amizades, humor, descontração e exercício de cidadania. Espero que este seja só um entre muitos eventos desse tipo.

 

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Seguem os endereços importantes da campanha “Denuncie!”:

Homofobia, Racismo, Neonazismo, Pedofilia, Incitação a Crimes etc.

Direitos Humanos – Tortura

Ética na TV (ou ligue 0800.619.619)

Dossiê Informativo sobre Assassinatos de Homossexuais (Grupo Gay da Bahia)

Incitação ao Ódio no Blogger

Formulário para denúncia de discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero

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Uma resposta to “mídia e movimento LGBT – FUMEC/BH”

  1. Fernando B Says:

    Bacana o relato do evento, tem que acontecer um desses pelos lados de cá… Esta temática me interessa bastante e meu tcc tem a ver com isso também, é uma análise do atual projeto da G.

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