quando chega a hora?

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Eu contei para meus pais de minha homossexualidade quando eu tinha 18 anos. Essa era a situação: morava em outra cidade (por causa da universidade) a pouco mais de 1 ano e eles estavam separados a menos de 1 ano.

Primeiro falei para  meu pai, típica conversa de “pai pra filho”, numa visita de fim de semana. Ele perguntou se eu namorava e essas coisas… foi dizendo os nomes de uma amigas minhas… e eu dizendo que ele estava longe. Então ele falou o nome de, para ele, um amigo meu. Eu disse que era com ele que eu namorava. Ele me perguntou se era uma fase ou se eu gostava mesmo “disso” (sic). Eu disse que era gay mesmo. Ele disse que nada mudaria, que me amava e tudo mais. E nada mudou.

Com minha mãe foi um pouco mais dramático. Ela e meu pai brigaram por causa de um “segredo” meu que ele sabia e ela não. Disse-me que eu não confiava nela, que não a amava e saiu andando pela rua, altas horas da noite e na chuva …eu fui atrás dela disposto a encerrar essa confusão. Ela me perguntou que segredo era esse… se eu era drogado.. eu disse que não (querendo rir, mas respeitando seu choro)… perguntou se eu era gay… eu disse que era… e ela disse: “- Só isso!? Por que não me contou logo??” e também disse que me amava e que nada mudaria… e não mudou.

Faz dez anos que isso aconteceu. Eu ainda era dependente financeiramente falando (precisava de apoio para me sustentar em outra cidade durante a graduação). Na minha cabeça, o simples fato de eles saberem e apoiarem era o suficiente. Aos meus irmãos, (um casal e pouco mais jovens que eu), não achei necessário contar naquela época. Eles tinham a separação dos meus pais para digerir.

Mas quem são meus pais? Jovens dos anos 70/80. Minha mãe é  professora de inglês de escolas públicas (na época que ela soube tinha 41 anos). Meu pai é taxista e ex-comunista (na época ele tinha 40 anos). Crescemos ouvindo que eles nos amavam e só queriam que fôssemos felizes. Eles tinham amigos gays e os respeitavam muito.

O que eu quero dizer com minha estória é que, como já falaram, não depende só da idade para contar para seus pais. Mas da maturidade: sua e deles.

E aí  só cada um de nós, sabe os pais que tem em casa.

Estou “casado” fazem três anos. Todo mundo na minha família e na dele, no trabalho e entre nossos amigos sabe de nós. Mas tudo foi um processo de conquistas.E gays, pelo bem e pelo mal, têm que conquistar respeito em dobro.

joao Esse breve e maravilhoso relato foi postado pelo João, na comunidade Homofobia Já Era. Ele tem 28 anos, é da Paraíba e professor da UFCG, na área de Desenho e Animação. Ele também é casado com Augusto que é mineiro e se doutora em Ciência da Religião. E melhor: eles são felizes e cheios de histórias pra contar.

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7 Respostas to “quando chega a hora?”

  1. “É este tipo de história que vale a pena contar e passar a diante´para que incentivem a sua saída do armário e dessa maneira as pessoas podem ter uma visão muito mais expansiva das coisas,e que bom que ele encontrou alguém que o complete, tenho 20 anos e meu parceiro só tem 18 anos, embora nos amemos muito estou inseguro quanto a nossa relação, pois uma relação homosexual é muito mais complicada por conta do preconceito, espero que nós dois possamos um dia assim como o João,celebrar a Felicidade e a união do AMOR.”

  2. Parabéns João! Adorei seu relato.Fico feliz q existam histórias como a sua.. a esperança renasce!
    Abraço!

  3. Liliane Says:

    Meu filho,

    espero q assim como eu e seu pai dizíamos “Eu te amo”,quando de nada sabíamos,continuamos dizendo “Eu te amo”,quando vc nos contou que era gay,muitos homossexuais que vivem esse conflito interior consigam quando chegar “a hora”ter o mesmo carinho e compreensão que você teve,não só da nossa parte como também dos seus irmãos,avó,tios,primos,enfim de todos que realmente te amam.

    O verdadeiro amor supera todas as coisas,pois quando se ama de verdade não é o fato de se saber que um(a) filho(a) é “diferente”,que foge das regras impostas por uma sociedade hipócrita,que esse amor tende a diminuir ou acabar,muito pelo contrário se existe amor,também existe compreensão,carinho e acima de tudo respeito.

    Se no primeiro momento não se consegue digerir,se cai na sua cabeça como uma bomba atômica,pelo menos tenta-se administrar e entender o que está acontecendo,pois sei que para muitos não é fácil,mas não é virando-lhes as costa,expulsando,praguejando, que o fato vai deixar de existir,muito pelo contrário,além do fato existir,existirá uma agravante maior:haverá no mundo mais um(a)jovem que um dia acreditou ser amado e descobriu que aquele amor era tão fraco que ao menor sinal de tempestade ele já se dissipou e aí vem a procura pela droga,prostituição,como forma de “salvação”.

    João é meu filho,muito querido e amado ,de quem eu tenho muito orgulho!

    Liliane Martha V.Alves

    • Oi amor lindo! Inspirado por sua mãe quero também deixar um comentário. Sua história é maravilhosa e me orgulho de fazer parte dela de alguma forma. Sou muito grato a você por estes anos de convivência e cumplicidade. Grato também por me permitir dividir nossa vida em comum com sua família, que agora é também uma extensão da minha família consanguínea.

      Sua coragem, sua integridade de caráter, são para mim uma fonte de constante ânimo! Te amo muitíssimo! Pra sempre, e além…

  4. Panthro Samah Says:

    Quando eu contei pra minha mãe, ela achava que eu tinha engravidado uma menina. Por isso eu sei bem o que é sentir vontade de rir nessas horas. Depois dizem que mãe sempre sabe o que vai na cabeça dos filhos!

  5. Parabéns a dona Lilian, pelo amor e respeito ao seu filho.

    Infelizmente não é regra para todas as familias, mas sabemos o quantp é importante o apoio delas.

    Parafraseando o outor de uma música, “só nós sabemos a dor de ser o que somos.”
    E dói muito a rejeição, o desprezo e tudo o que um homosexual passa para viver.
    Esero um dia poder contar a minha história da mesma forma que o João.
    Mas por enquanto, só dói.
    E como está doendo.
    Abraços fraternos.
    Jacy

  6. Parabens João,parabens dona Liliane,parabens Augusto,Pena não ser assim com todos nós mas ja estamos caminhando para isso.
    Paz,Luz,saude,e muita mais muita felicidade para voces.
    Bjs

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