o primeiro japa a gente nunca esquece

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Era o começo da tarde quando cheguei na academia. Estava vazia. Troquei de roupa. Guardei a mochila. Lavava minhas mãos quando observei um cara adentrando o vestiário e teria sido apenas uma cena comum, dessas que se repetem vinte e quatro horas por dia lá, o movimento de gente entrando e saindo. Não o vi muito bem, mas fiquei curioso.
Terminei de lavar minhas mãos. Sequei-as. E de forma quase inconveniente, eu continuava a observá-lo; queria ver como era, quem era. E continuei  a olhá-lo indiscretamente. E ele me olhou. Estávamos sós.

Quando o vi de fato, de frente, pensei em desistir do flerte: era um japonês. “Orientais não me atraem”. E esta frase continuou recorrente em minha mente, mesmo depois que eu disse “sim” quando ele perguntou “vamos em casa?”.

Chegando em sua casa, me esforcei para parecer natural. Acho que convenci. Nos aproximamos. E a frase continuava ressoando em minha mente “orientais não me atraem, orientais não me atraem”. Nos beijamos. E a frase continuava presente em minha mente, mas em volume mais baixo. “Orientais não me atraem, orientais…” E a frase que ia ecoando cada vez mais baixo na minha cabeça, foi interrompida quando ele perguntou “está com fome, quer comer alguma coisa, antes?”. Apesar da dúvida disse “não estou com muita fome, podemos comer alguma coisa, depois”.

Voltamos a nos beijar e a evolução natural daquele gesto revelou alguém muito habilidoso. Enquanto sua boca percorria em declínio as curvas do meu abdômen, uma nova frase percorria meus pensamentos lânguidos “não pode ser um japonês, não pode ser um japonês”. E eu abria os olhos e ele estava ali, de baixo para cima me olhando com seus olhos puxados. Eu fechava os olhos e passava por entre seus cabelos meus dedos. Negros. E continuava a passar meus dedos por entre seus cabelos. Lisos. E minhas mãos iam percorrendo demoradamente desde sua testa até sua nuca a medida que a frase “não pode ser um japonês” foi desaparecendo.

Então, já não havia mais espaço para frase alguma e nem pensamento algum.

Adormecemos levemente.

Acordamos.

649px-Gay_Couple_togetherness_in_bed_01 “Vou fazer algo para comermos… gosta de shitake?”, perguntou. “É um cogumelo? Gosto…” Ele começou a preparar um molho para o espaguete. Azeite, shitake, vinho branco, especiarias. Ele foi misturando os ingredientes enquanto conversávamos. Tive a impressão de que ficou pronto em dez minutos, mas deve ter sido bem mais tempo que isso. Enquanto comia, uma nova frase se misturava ao prazer da degustação “eu adoro homens que cozinham bem“. Conversávamos. E eu degustava e pensava “adoro homens que cozinham bem, adoro homens que cozinham bem…” Era domingo.

Na sexta-feira seguinte, depois de um dia de quase dez horas de trabalho e depois da academia, estava voltando para casa. O celular toca. Era o japa. Fui até sua casa. Ele sugeriu preparar algo para comermos, antes. “Espaguete ou pene?”.

Ele preparou um molho de camarão com tomates cortados em pedaços grandes. “Eu sempre uso vinho para cozinhar”, disse. E comemos pene com camarão e vinho. Copiei do meu celular para seu laptop músicas e ritmos que ele não conhecia. Acho que gostou. Bebemos e ouvimos Marc Moulin . Música e vinho. Ficamos ligeiramente embriagados. Acid jazz e vinho. Passamos a noite juntos. Fomos para a academia de manhã, me despedi e fui para casa.

Sugestionados pelo tema da exposição “Cuide de você” de Sophie Calle, que fomos no final daquela tarde , conversamos sobre relacionamentos. Discorremos sobre conceitos e teorias, essas coisas que achamos que acreditamos até surgir uma paixão. Comemos um lanche, fomos para sua casa e passamos mais algumas horas juntos.

“Embora você não tenha me convidado (ainda?), hoje não vou poder ficar contigo. Tem uns amigos do Rio em casa e preciso voltar” disse a ele. “Posso te levar em casa?” Agradeci e disse que não era preciso. Era sábado.

wet-2 Na volta para casa, percebi que não se tratava de um japa diferente. Se tratava de uma pessoa diferente. É alguém que tem prazer em compartilhar seu espaço de forma generosa. Que sabe tratar o tempo sem pressa. Que observa e compreende. Que entende piadas sutis. Que faz macarrão com shitake em minutos. Que é bom de cama. É alguém que eu quero ter por perto.

Fiquei pensando até que ponto nossas preferências são de fato preferências, ou simplesmente preconceitos velados. Me permiti conhecer alguém que parecia diferente do que me atraía fisicamente. E fui surpreendido por uma pessoa excitante e especial. Eu pude enxergar além de seus olhos puxados. Diante de tantas qualidades, o fato dele ser nissei, sansei (ou seria yonsei?) é irrelevante.

O 1º japa, a gente nunca esquece.

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4 Respostas to “o primeiro japa a gente nunca esquece”

  1. gerisbaldo Says:

    fantastico não é posivel tirar do cerebro o que esta no coração

  2. […] 22 de Outubro de 2009. Uma data especial, era seu aniversário. Fui para casa o mais rápido possível, tomei banho, troquei de roupa, preparei a […]

  3. Emerson Lima Says:

    Na realidade a história bacana do “japa” só faz levar a quem a lê sobre a importância, digo mais, a necessidade, de se perceber, de levar até aquela parte da cabeça onde todos os “paradigmas” estão, que o”diferente” é um igual, na realidade; e, pra grata surpresa, uma caixinha linda, cheia de possibilidades(ou qualidades reais, como queira…)

  4. […] atrás, depois de assistir Direito de Amar (A single man, 2009), resolvemos dar uma volta nos arredores da Paulista. Passamos no Tostex, chegamos a subir, dar uma olhada e o […]

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