versões*

O curta foi baseado num documentário chamado Olhos Azuis (Blue Eyed)*, que é um experimento feito pela Jane Elliot , uma simpática senhora branquinha, de olhos azuis, daquelas que parecem com a avó de de filme B norte-americano. Ela convoca pessoas de uma cidade dos EUA: metade branca, de olhos azuis, metade negra. Jane então os coloca em um salão, e os dispõe da seguinte forma: os negros ficam sentados em fileiras laterais, olhando para o centro, onde há duas filas indianas de cadeiras, para os brancos. É como um desfile de moda: os negros na plateia, os brancos na passarela. Então, Jane começa a tratar mal os brancos: dizem que, porque são brancos, são burros.

De ínicio, todos riem (um riso meio nervoso), mas percebem aquela situação como sendo surreal. Ela continua a série de ofensas aos brancos, culpando a cor de seus olhos por todos estes defeitos. Os negros da plateia já foram avisados previamente, e riem em conjunto com a simpática velhinha a cada vez que ela chama alguém de “branquelo”. Ao fim do documentário, algo muito impressionante acontece: os brancos, sentados ao meio, estão chorando de verdade, completamente acuados.

É incrível como, mesmo sabendo que aquilo se trata de um experimento (afinal, ninguém parou ali por acaso), o preconceito sofrido abalou os arianos de uma forma como eles nunca imaginaram que poderia abalar. E é isso que um negro sente todo dia, desde o dia em que nasceu.

Como explica Rafael Mattos, o criador de “Versões“:

¨A partir desta idéia, resolvi criar uma ficção que abrangesse outros setores que sofrem preconceitos na sociedade brasileira. Dizemos que não sentimos nada contra o negro, mas não faltam piadas sobre negros que se dão bem em suas carreiras. A mulher negra é o símbolo do país no exterior, mas, até este ano, nenhuma havia protagonizado uma novela das 8, um item tão importante e simbólico na cultura do nosso país. E veja bem que estamos falando de um país onde quase 50% da população tem esta cor.

No Rio de Janeiro, a classe média e alta diz que não quer o mal dos pobres, mas quer que eles vão morar em lugares bem longe. As favelas são fator de enormes discordância para o carioca: uns defendem com unhas e dentes (alguns pelo status político que isso traz), e outros tratam aquilo como o câncer da cidade. O mesmo se dá com os homossexuais. Até aqueles que se dizem mais liberais, quando observados em um bar, por exemplo, estarão rindo de uma piada homofóbica.

Em empresas e outros ambientes dominados pelo machismo, qualquer coisa é motivo de chacota: um homem que bebe coca-cola light é dito “viadinho”,”ihhh, tô te estranhando”. Não que tenham nada contra, mas essa pequena fala mostra o quanto, no fundo, é estranho ser gay. Estas mensagens que recebemos diariamente são não só agressivas, como contribuem para que muitos homens e mulheres que sentem atração por alguém do mesmo sexo se reprimam, muitas vezes de forma que este desejo se torne inconsciente até para eles, e vivam suas vidas de acordo com o que aqueles colegas da empresa (e outras pessoas de menor importância) como se todo viado fosse fútil e obcecado por dietas. Um homem que tem um gesto afeminado pode receber um acham dele.

Se você parar para observar os vícios de linguagem homofóbicos que usamos constantemente, é assustador. Outro dia, na TV, Maitê Proença, que acredito ser realmente alguém sem este preconceito, deixou sair que “Oprah foi acusada de homossexualismo”. Ninguém reparou no absurdo: estão todos tão acostumados com este tipo de linguagem… Em novelas, não havia personagens gays fora do estereótipo até recentemente. Quando um casal gay foi formado, nada de beijo. Os defensores alegam: “já era mais de 22h, a TV poderia passar um beijo gay”. Vamos refletir: por que um beijo gay deve ser transmitido após as 22h, se basta ligar a TV as 19h para ver casais heterossexuais simulando sexo, com direito a nudez parcial e linguagem obscena?

Me atenho bastante as novelas porque acredito que são tanto um reflexo como uma construção da sociedade brasileira. Acredito que, somente invertendo os discursos, como fiz no curta “Versões”, podemos ver quão absurdo e hipócrita é nosso mundo atual para, quem sabe, vermos que o que nos é natural pode, também, ser tratado como uma anomalia.”

* Versões é de autoria de Rafael Mattos. Carioca, 23 anos é formado pela UFRJ em RTV

* assista o documentário na íntegra aqui

saiba mais

Thumbnail via WebSnapr: http://www.janeelliott.com/ Thumbnail via WebSnapr: http://en.wikipedia.org/wiki/Jane_Elliott Thumbnail via WebSnapr: http://www.youtube.com/user/rafaelitobarbacena#play/uploads/3/H5llNK8Zi7s
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Uma resposta to “versões*”

  1. […] Mattos, videomaker carioca criador do curta  “Versões” , já publicado no Blog,  produziu esse novo material sob o impacto e a indignação do episódio […]

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