fora de moda

ccAinda não falei na primeira pessoa, aqui, aproveito a oportunidade de hoje para me apresentar: sou Carlos Henrique Caetano, estudei filosofia e trabalho como educador numa instituição que dá assistência a meninos e meninas de rua do Centro de Campinas. Freqüentador assíduo de baladinhas underground na cidade, já sofri várias formas de preconceito por conta da minha orientação sexual. Ontem, no entanto, a coisa foi um pouco além.

Quando saí do trabalho, por volta de 20h30, fui até o ponto de ônibus que fica na Avenida Orozimbo Maia, em frente à Maternidade de Campinas. Ali haviam, pelo menos, vinte pessoas paradas esperando o ônibus. Em menos de cinco minutos, um jovem branco, forte e careca que comprava alguma coisa na banca da calçada abordou-me dizendo que era muito perigoso alguém como eu andar pelo Centro da cidade, todos os dias, com aquela cor de cabelo (meu cabelo é vermelho desde o início desse ano). Eu disse a ele que cor de cabelo não oferece risco. Ele respondeu, fazendo cara de mau, que skinheads tem percorrido a cidade e não costumam dar trégua a pessoas como eu. Depois disso, retirou-se e virou a esquina. As pessoas que estavam no ponto ficaram assustadas com a situação e a moça da banca que vendeu algo ao careca me perguntou se era sempre assim. Eu disse a ela que sabia dos riscos de manifestar minha orientação sexual em público, mas nunca havia sofrido uma ameaça daquele tipo. Uma outra senhora perguntou se só gays pintam cabelo de vermelho. Um senhor me disse: se eu fosse você faria um Boletim de Ocorrência.

A verdade é que fiquei chocado com a maneira como o rapaz se aproximou de mim, mesmo porque eu nunca o havia visto. Não posso dizer que não tive medo, mas me senti protegido pelo número de pessoas que se encontravam no ponto de ônibus e tomaram partido a meu favor. Entretanto, se isso for uma perseguição e a ameaça for verdadeira, pode acontecer de, um dia, quando o ponto estiver vazio, sofrer alguma espécie de violência gratuita. Nem por isso deixarei de usar cabelo vermelho. E, se estiver acompanhado de alguém, não hesitarei em andar de mãos dadas e manifestar, publicamente, meu carinho (como fazem os casais de qualquer orientação sexual). Só acho importante deixar registrado aqui, nesse espaço de debate, esse acontecimento porque nós sabemos que a homofobia está fora de moda, entretanto, muita gente por aí insiste em ser démodé.

Anúncios

7 Respostas to “fora de moda”

  1. muito legal a história. é estimulante ver que as pessoas andam menos indiferentes ao que acontece com o vizinho (seja ele gay ou ht)…

  2. Silvania Fernandes do Nascimento Says:

    Liberdade Comprometida

    Desde que escutei esta frase nada simples, pequena e plena de sentidos; a mesma fica dando voltas em minha cabeça me questionando, me instigando a acreditar que a coerência, a esperança e o grande valor da liberdade, não são somente utopias; mas, sobretudo que tais valores, que legitima o grande e inquestionável valor da vida, são valores reais e possíveis.

    Celebrei e celebro com extrema alegria e gozo, o encontro entre estas palavras contundentes: Liberdade comprometida e as palavras real e possível. Muito mais que as “palavras”, celebro a atitude que a vivencia engajada das mesmas realiza; a extrema coragem da atitude de fazer acontecer em um ponto de ônibus, no trabalho, nas ruas e praças, seja onde for à liberdade comprometida que é real e possível.

    Comento, me posiciono, me implico e me comprometo contra estas forças infelizmente também reais que negam a liberdade da pessoa humana de poder ser.

    E um fato como esse, é extremamente necessário ser falado, relatado, gritado e denunciado de diversas maneiras e meios. Pois se naquele ponto de ônibus muitas pessoas se indignaram, e tiveram uma postura de defesa pela liberdade da vida; muitas outras pessoas podem se indignar e ter uma postura de respeito pela liberdade que cada um tem de fazer suas próprias escolhas, sejam sociais, espirituais, intelectuais, sexuais ou de cor de cabelo.

    Neste momento não é somente a frase do início que dá voltas em minha cabeça a me questionar; mas sim o grande convite que a mesma junto com o vivido pelo Carlos, também autor da referida frase, me instiga a comprometer-me no acreditar em ações que legitimam que “O homem esta condenado a ser livre” (Sartre).

    Silvania Fernandes do Nascimento.

  3. Foi o Luiz Cláudio quem editou meu post? Adoro o Caetano e essa música, em especial.
    Silvania, muito bom ver vc citando Sartre por aqui!
    Pedro, fiquei muito feliz, tb, com as reações da galera do ponto. Isso é um avanço e tanto!

  4. cara morei em campinas e vi que ai realmente existe uma população alta de homossexuais que são sim alvo de homofobia e muitas vezes gratuita, como no seu caso, e como estudante de direito aconselho procure uma dp faça um b.o e vá ao ministério público pois eles tem a obrigação de protege-lo de um babaca homofobico como esse, que na verdade te ameaçou e te ofendeu, e tipifico aqui o crime de ameaça e discriminação, e como ele citou os skins nao gostam disso vai tb crime de formação de quadrilha para prática de violência contra homossexuais, e digo todos temos o direito de ir e vir dentro do território brasileiro, independente de opção sexual, cor, religião e tal. somos cidadãos brasileiros, trabalhamos e pagamos nossos impostos dai exigir um direito seu nada mais é que garantia fundamental sua.
    um big beijaum e adorei teu blog.

  5. Mônica Says:

    A copa do mundo vem aí…

    Tua história meu amigo, me incomodou muito, fez-me pensar em diversas questões e ir em busca do entendimento de algumas coisas… entendendo sempre que elas não acontecem de forma isolada, ou por ações espontânea de alguém/algum grupo…
    Escrevo de uma forma mais chata, mas necessária para compreensão/consideração de alguns fatos.
    A gente vive num mundo hoje em que a gente só se ferra… trabalha, trabalha, e só nos resta o fds pra dar as nossas saidinhas (sem muito exagero) pq se não a grana não dá! E trabalhar e receber a nossa grana no final do mês nos leva a uma mínima satisfação por conseguirmos manter nossa sobrevivência.
    Acontece que isso de trabalhar, e sair, e manter a sobrevivência acontece só para poucos no nosso país… sim… 51% da população vive do trabalho informal; 50% da população mais pobre, vive com 25% da renda e 1% da mais rica fica com a mesma quantidade.
    O capitalismo precisa de formas pra esconder tanta miséria, pra esconder a morte por fome, a ausência de atendimento médico, o caos da escola… então faz novelas que reproduzem uma vida que não vivemos… etc
    Mas não é só nas novelas que ele procura esconder a desgraça que faz… afinal quando saímos as ruas, ainda que nem sempre percebemos, os moradores de rua estão lá deitados, o rodinhos estão nos sinais, os pedintes a pedir, as crianças à trabalhar, os drogados a se drogar, os travestis e as mulheres a se prostituir… todos estão presente indicando e gritando a desigualdade… qual o tratamento à ela?
    Moral, claro! (visto q a “solução” de fato seria econômica)
    Os vagabundos, os pervertidos, as biscastes, os perdidos…
    To falando td isso pra dizer que além da exploração do trabalho o sistema se estabelece não só por ações estatais ou de filantropia, mas também por ações de violência institucionalizadas ou não.
    De novo: o capital se utiliza da ideologia para manter sua exploração. as idéias virão a partir do chão que se pisa, e não há chão mais perverso para se criar idéias de extermínio!
    Falo dos jovens brancos, criados na liberdade liberal do reino do indivíduo, com acessos a tecnologia, a educação ( tb mantida por esta ideologia) na religião ou não.
    Na segunda guerra mundial, matar judeus e homossexuais também foi funcional ao capital
    E já fizemos isso antes com os negros, e os libertamos pq precisávamos de operários para o novo modelo de desenvolvimento
    A copa do mundo vem aí! E o Capital não vai querer mostrar ao mundo sua desgraça… ta só começando… todos serão varridos dos centros…
    Se prepare, os skinheads só representam uma parcela do problema que ainda virá pelos PMS, GMs, políticas sociais de higienização do centro e etc.

  6. Sou transexual FTM, antes me considerava homossexual, mas com uma personalidade extritamente masculina. Só gostaria que não tivessem preconceito só por alguém ser branco, ou loiro como eu, e ter a cabeça raspada, há mais anos do que os skinheads amo a máquina 2, imagine numa cabeça loira, porém nem sempre a aparência significa algo. Sou loiro, de cabeça com máquina 2, mas sou transexual, apóio totalmente todos os direitos lgbtt, como o de qualquer diversidade, também sou descendente de negro e de índio. Acho que sei o que é sofrer quase todos os tipos de preconceito. Então imploro que não achem que é alguém perigoso só por gostar de cabelo curtíssimo. Obrigado

  7. Renato! Eu só teria medo de uma pessoa com essas características (ou quaisquer outras características) se ela me ameaçasse e, de forma alguma, eu generalizaria as pessoas com a aparência parecida com aquela outra que me ameaçou. Eu só descrevi a pessoa que me abordou porque não sei o seu nome e achei necessário divulgar o que tem acontecido no centro de Campinas. Um abração!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: