emoções sintéticas & coisas reais

Que horas você chega?
– Às nove, como combinado.
– Não pode chegar mais cedo?
– Vou tentar, ainda preciso cortar o cabelo, ir para casa, tomar banho, trocar de roupa.
– Tenta vir depressa…

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009. Uma data especial, era seu aniversário. Fui para casa o mais rápido possível, tomei banho, troquei de roupa, preparei a mochila (que me acompanha todos os dias da semana) e fui para casa dele. Cheguei vinte minutos mais cedo.

A comemoração seria simples, um jantar para nós dois preparado por ele (eu adoro que ele cozinhe para mim). Chegando lá, lhe dei o presente que havia comprado no dia anterior, um livro de decoração intitulado Minimal Style. Mas ele propôs uma mudança de planos.

Hoje é meu aniversário, acho que mereço não ficar com a mãos cheirando alho e cebola.

Assenti e saímos para comer um lanche. No caminho, percebi que me esqueci da câmera fotográfica e eu não saio sem ela. Fizemos o retorno e voltamos. Aguardei no carro. Ele desceu com a minha mochila ao invés de pegar apenas a câmera.

Estávamos comendo. Alguns cliques depois, folheamos o livro que eu lhe dera. Observávamos os conceitos de design minimalista e como aquelas idéias poderiam ser utilizadas. Em conversas anteriores, ele havia me perguntado sobre o que eu achava da decoração de seu apartamento. O livro foi a resposta.

Então, ele disse que tinha uma surpresa. Surpresa? Era seu aniversário e diferente do que se espera, ele quem faria algo inesperado. Deu algumas pistas e brinquei de tentar descobrir o que poderia ser, e apesar de ter bastante habilidade em deduzir coisas, nem desconfiei o que era.

Terminamos de comer e saímos. Ele se distraiu, errou o caminho, corrigiu, chegamos ao destino e a surpresa foi revelada: ele havia reservado uma noite em um desses hotéis de luxo nos arredores da Av. Paulista.

IMG_4198 Chegando naquele hotel de homens de negócios (como é típico daquela região), fomos atendidos com total eficiência desde a recepcionista, até o garçom que disse educadamente “com licença, senhores” ao entrar em nosso quarto para deixar o champanhe previamente reservado. E tínhamos champanhe, bolo, trufas e morangos. E apenas algumas poucas horas até que a manhã seguinte chegasse. Bebemos taças profusas de champanhe. E comemos morangos depois de degustar bolo e trufas. Por acidente, quebrei uma das taças. Recolhi os cacos e passamos a beber numa taça só. E éramos isso.

– O que você achou da surpresa?
– Gostei!

Tive receio que ele se decepcionasse com minha reação um tanto apática diante de sua expectativa em me surpreender. Não deixamos de aproveitar o que aquele playground podia nos oferecer, mas tivemos uma noite ótima porque havia grande sintonia entre nós.

IMG_4225 Na manhã seguinte, pegamos o elevador para tomar café da manhã. No quarto andar, entrou um homem de terno, falando ao celular e a conversa era sobre a escolha do novo vice-presidente da empresa. E entre aqueles homens de gravata como que numa torre de babel, pareciam um pequeno exército de pessoas sérias demais falando sobre coisas sérias demais com seus sotaques variados. Terminamos e partimos.

Na sexta-feira à noite, saí da academia e fui para sua casa. Eu não pretendia vê-lo, pois já tínhamos planejado ficar o final de semana juntos mas, depois de malhar por mais de uma hora, eu estava com fome. E ele cozinha muito bem.

Coloquei para tocar Norah Jones e depois da última faixa, The Nearness of You, pedi que ele colocasse outro disco.

Eu ainda estava sentado à mesa, quando alguns acordes atravessaram a sala de estar e chegaram até a sala de jantar. Logo nos primeiros segundos, reconheci que ele tinha colocado o disco Jazz + Bossa do Delicatessen. E os vocais melífluos de Ana Krüger começaram a entoar os versos de Angel Eyes. Eu não sabia que ele tinha este CD. E é um dos meus discos preferidos.

Então, aquela reação que eu deveria ter tido no dia anterior com a surpresa do hotel, aconteceu quando percebi que ele tinha e gostava de um disco tão especial quanto aquele.

– Você ficou mais impressionado com o CD que com a noite de ontem?, disse ele em tom de brincadeira.

Eu não sabia explicar porque, mas foi exatamente isso que aconteceu. Então disse a ele que a noite anterior por si só tinha um significado. Mas a noite anterior, acrescida da audição daquele disco, tomava um sentido maior.

Sábado. Tínhamos combinado de sair para dançar com amigos. Cheguei na sua casa, e, de cara, vi que a sala estava diferente. Havia menos objetos. E o apartamento ficou mais bonito. Tive certeza que ele gostou do livro que eu lhe dera.

E aí, era hora do ritual de escolher uma calça bacana, a melhor camiseta, um tênis confortável e uma cueca de grife para exibir o cós depois de altas horas da madrugada.

– O que você acha dessa?, ele perguntou.
– Cueca rosa? Não, isso é muito gay! Parece uma calcinha!

Eu tinha comprado para mim uma camiseta regata, dessas de jogador de basquete. Estava com vontade de experimentar um visual diferente, uma alternativa às camisetinhas curtas e justas que todo mundo gosta de usar. Ele usou uma cueca preta.

IMG_4244 Fizemos uma reunião em sua casa antes da balada, um esquenta. Recebemos amigos, tomamos caipirinha, matei a saudade de um amigo que mora em Nova York, conheci o melhor amigo dele.

A noite seguiu perfeita clube adentro e enquanto mares de homens sem camisa provavam emoções sintéticas, fazíamos parte daquilo tudo, dizendo um para o outro coisas reais.

Eu adoro te fazer feliz!, disse a ele. Eu sou só seu!, foi a vez dele. Confissões na pista de dança. E foi neste clima que a noite seguiu até o dia amanhecer.

Fomos para a área externa do clube, tomamos mais água, descansamos. Ele tirou uma ou duas fotos de mim.

– Me deixa ver!, disse.

Quando eu vi a foto que ele tirou de mim, e notei aquele visual despojado, usando uma camiseta regata larga e grande, como num passe de mágica, algumas coisas passaram a fazer sentido para mim.

Eu não precisava vestir uma camisetinha justa que ressalta meu corpo para me sentir bem e sexy. Nem ele precisava usar uma cueca AussieBum rosa, porque é gay e esta é uma marca da moda. Nós podemos muito bem, sermos autênticos e sacar o que nos faz bem de verdade, sem seguir a multidão, ainda que estejamos imersos nela.

IMG_4303 E a noite de quinta foi especial não porque ele pode gastar centenas de reais para ficar algumas poucas horas em um hotel chique, mas porque ele tem o bom gosto de apreciar coisas sofisticadas da vida, como ouvir um CD de jazz e bossa que só pessoas refinadas são capazes de desfrutar.

No domingo, fomos dormir às 9h30 da manhã, mas acordei antes das 13h com vontade de colocar algumas idéias no papel. O computador estava ao lado de uma máquina de escrever antiga. Aquele contraste de certo modo nos representava.

Achei tão poético! Vai ver eu ainda estava inebriado pelo efeito da… noite anterior que foi mágica.

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Uma resposta to “emoções sintéticas & coisas reais”

  1. Arthur 'Ghost' Says:

    Já perdi as contas de quantas vezes reli.

    Passo pelo Blog, vejo tudo, abro links… quando percebo estou abrindo o player com ‘Angel Eyes’ em uma de minhas versões favoritas… mergulhando no texto.

    Roteiro de um filme, que revejo e acrescentando faces, detalhes, sons incidentais… e nunca fica pronto.

    E volto sempre a ele.

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