Arquivo para janeiro, 2010

como sabemos que somos "do bem"?

Posted in comportamento, direitos GLBTT with tags on 22/01/2010 by Homofobia Já Era

Talvez seja minha idade, talvez seja meu passado ou talvez seja, realmente, que sou um romântico inveterado. Não importa muito, O fato é que, sempre quando sei que vai haver um “beijaço”, me emociono.

Pouco importa, também, o motivo que o originou. Ou a causa que nos arrasta a este ato vândalo. O que me interessa são as consequências. Não as burocráticas e mofadas, baseadas em leis feitas por gente sem amor e que tem medo de carinho a ponto de o tachar de obsceno. Mas a felicidade que conseguimos espalhar.

Não falo daqueles que a tudo coibem, a tudo julgam, a tudo pecaminam, a tudo processam ou a tudo analisam. Como alguém já disse de forma magistral, desconfie de pessoas de botinas, batinas, togas e aventais. Ou que lhe queiram deitado num divã, numa cadeira de réu ou ajoelhado a pedir perdão.

Falo daqueles outros, nós, aqueles que escolheram amar o mais bem próximo, igual ou semelhante. Falo dos homens e mulheres que, diante do caminho mais fácil ou do caminho único, resolvem ir pela contra-mão, pelo margem e pelo lado obtuso.

Esses seres, nós, frequentemente chamados de insensatos, despudorados e de ingratos aos céus e aos santos. Que muitas vezes são expulsos, açoitados e impedidos. Poderia desfilar aqui , quase infindo,  ínumeros motivos para que quiséssemos a vingança, a dor, o mal e a desgraça de quem nos alheia.

Poderíamos sair pelas ruas, praças e avenidas a destruir, incinerar, rabiscar e assustar a todos com nossos gritos de guerra, nossas feições maldosas e nossa euforia coletiva de massa enlouquecida. Poderosos em dia de manada.

Poderíamos sair munidos de estandartes imensos, com tochas e velas amendrontando quem passa. Lamuriando nossa falta de sorte e nossa desgraça de nascer de um jeito contrário.

Poderíamos mais. Acreditando numa vida melhor e que desta terra não se leva nada, amarraríamos bombas em nossos corpos, cobriríamos o rosto de preto e deixaríamos um vídeo gravado em despedida dos mais queridos torcendo para encontrar o paraíso ali em cima ou do outro lado.

Depois, no meio desta gente que nos odeia e nos repele, explodiríamos rápido fazendo tudo se consumir em fogo: excrementos, corpos e peles. Nada restaria, nem eles nem nós. Mas censurar? ahhh, ninguém mais se atreveria…

Mas não.

Por um estranho desejo de ser feliz. Por uma mania pervertida de sempre sorrir. Por uma vontade louca de preferir amar, gozar, dançar, viver e crer até em quem nem nos acredita, escolhemos protestar de outra forma. Preferimos o calor de nosso corpos, nus, suados, vestidos, magros, sarados, eretos ou aleijados. Das nossas mãos desarmadas, abraçadas, enlaçadas, dadas e apertadas. Preferimos o impossível e não o tédio. O sonho e não o ódio. Preferimos o afago a invés do murro.

Um, dois, três mas…sem armas apontadas, sem patíbulos que despencam e sem sangue desperdiçado.

dizemos não, dizemos basta e dizemos chega.

Com um gesto simples: um beijo.

adoção e religião

Posted in política with tags , on 20/01/2010 by Carlinhos

São Sebastião por Guido Reni (séc XVII)

Em dezembro de 2009, a aprovação da lei que autoriza casais gays a adotarem crianças na Cidade do México criou uma enorme polêmica e fez com que instituições conservadoras, como a Igreja Católica, manifestassem a respeito da legislação (um direito que até então não havia sido reconhecido em nenhum país da América Latina).

A Igreja Católica do México afirmou que “entre as ‘verdadeiras razões’ para se opor a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo, está a autoridade moral que lhe confere a ‘vergonhosa e dolorosa experiência’ que tem tido com os casos de pederastia de alguns sacerdotes e a ‘grave possibilidade’ de que uma parte dos homossexuais venha adotar menores ‘com o perverso propósito de usa-los para pornografia infantil, abuso sexual, prostituição, etc'”.

A Igreja, em uma carta escrita pelo cardeal Norberto Rivera, afirma, ainda, que “por mais bem intencionados que possam ser alguns papais homossexuais, o seu estilo de vida afetará de muitas maneiras à criança. Se disser: quando grande quero ser como meu papai, a que estará se referindo: a usar saia, maquiar-se, convidar outros homens a dormir com ele?”.

Essa notícia pode ser lida (em espanhol) no site Diario Digital Transexual.

Texto originalmente publicado no blog Página Escondida.

por que eu sou contra a sodomia

Posted in comportamento, conhecimento, direitos GLBTT, diversidade with tags , on 18/01/2010 by espiritualidadelgbt2010

Estava passando os olhos pelas notícias diárias, quando um fato me chamou a atenção. Era um manifestante africano, provavelmente evangélico, erguendo um cartaz onde estava escrito em letras garrafais o seguinte dizer “Africanos contra a Sodomia”. Eu passei o dia pensando naquilo. O que é sodomia? Todos sabemos que se referem ao sexo anal, ou seja, “pau no rabo”. Mas a luta daquele africano não é contra qualquer pau em qualquer rabo, é contra aquilo que ele entende por homossexualidade masculina. Sim, porque o que está em questão é o cú de outros homens.

Não, não vou defender a sodomia e muito menos o direito de as pessoas a darem seus rabos. O que realmente me deixa encafifado é pensar como é que uma pessoa pode sair da casa dela e se dar ao trabalho de escrever um cartaz contra o que o outro faz com a sua bunda e ainda ostentar isso como protesto político. A matemática é simples, se quem dá o rabo é o outro, não sou eu. Ora, se não sou eu, é o outro, se é o outro, não sou eu. Então como é que o cú de outro homem pode ocupar a mente deste cidadão?

Você já reparou uma coisa? Dificilmente estes manifestantes escrevem um cartaz escrito “Africanos contra a colação de velcro”… raramente o protesto contra a homossexualidade se dirige para as mulheres. Isso não é, no mínimo, curioso?

Dizer que a sodomia é anti-natural, é no mínimo, uma incongruência estúpida. Ar-condicionado, asfalto, televisão, água engarrafada, carro, gasolina, tecido sintético, shampoo, sabonete, camisinha, internet, TV a cabo, microfono, CD player, todas essas coisas são anti-naturais. Não obstante, você vê o cidadão lutando contra o uso anti-natural do cú, mas não vê ele lutando para que a humanidade volte a viver em florestas (que seria a coisa mais natural a se fazer).

Porque mesmo se dar o “bumbum” fosse anti-natural ou errado, será que a pessoa que luta contra tal prática abominável tem toda a vida dela pautada pela mais pura perfeição, segundo os ensinamentos cristãos? Por que para exigir do outro uma suposta perfeição, você teria que ser o primeiro a tê-la.

Isso me lembra um fato recente na história brasileira em que alguns evangélicos foram até a porta do congresso nacional protestar contra a lei que pune a discriminação a homossexuais. Ora, com tantos casos de corrupção no país, injustiças sociais, violência policial, falta de educação, hospitais, você já viu algum grupo de evangélicos irem até o congresso nacional protestar contra os escândalos de corrupção da mesma maneira violenta que eles foram protestar contra a tal PLC 122? Por que a energia mental dessa gente se direciona tanto para a homossexualidade?

Além do que, voltando ao tema do assunto, há uma questão crucial… Quem disse que a homossexualidade se resume a “pica no rabo”? A tal “sodomia” não é um elemento chave no sexo entre homens, para quem não sabe. Aliás, é muito comum homens fazerem sexo sem ninguém meter em ninguém. Mas então, como é que essas pessoas que lutam contra a sodomia sabem o que de fato se passa no sexo entre homens? Ou é fruto de experiência, ou é fruto de imaginação… em ambos os casos, isso mostra uma conexão mental direta com o objeto.

Não se trata de dizer que sodomia é certo ou errado, mas se trata de me perguntar: o que calhas d’água eu tenho a ver com o cu de um outro que não sou eu? O número de homens homossexuais que supostamente praticam a sodomia é ínfimo em comparação ao número de homens viris heterossexuais que gostam “de meter” numa vagina. Então por que o indivíduo sai da casa para protestar contra o cú de um outro? Isso absolutamente não deveria ser um problema seu, uma vez que quem ta dando o rabo, não é você. E não só não é você, como isso sequer afeta sua vida em nível nenhum.

Ok, o caso específico é África, mas tais formas mentais não são muito distantes da nossa realidade brasileira, né minha gente? Com tanta coisa mais importante para o cara protestar, como africanos unidos contra a s hipocrisia, a falasidade, o fanatismo, a ignorância, a fome, as guerras,etc, qual é a realidade mental e psicológica subjacente ao protesto contra o cú alheio?

Nas religiões da antiguidade e em religiões atuais como umbanda e candomblé, a sexualidade do indivíduo era assunto privado e ponto final. A preocupação com o ânus de outro homem é uma característica dos filhos de Sem, e das religiões abraâmicas. Pelo menos no caso do islamismo e do cristianismo, as duas religiões mais virulentas e violentas do planeta, essa preocupação é recorrente e isso tem conseqüências psicológicas profundas.

Quando eu ocupo minha mente com a sodomia de um outro que não sou eu, eu simplesmente afasto o olhar de mim mesmo, meus defeitos, minha falta de capacidade de auto-análise e o que eu preciso melhorar. Ocupar-se com o “rabo alheio” a ponto de fazer você sair de casa para protestar, faz com que você desvie a atenção de si mesmo, e passe a cuidar da vida do outro simplesmente porque não tem capacidade de cuidar da sua própria vida. Psicologicamente, preocupar-se em lutar contra a sodomia “do outro”, nos deixa na confortável posição de julgamento do outro e força a desviar o olhar de nós mesmos. O protesto contra a sodomia é uma poderosa defesa contra si mesmo.

Além do que, quando eu digo que o outro é errado, está implícito que eu sou certo, quando digo que o outro é doente, está implícito que eu sou saudável, quando digo que o outro é satânico, está implícito que eu sou divino. Como disse em outro texto, a homofobia também está relacionada a uma questão de Ego pessoal. A inferiorização do outro muitas vezes relaciona-se à capacidade de me fazer sentir melhor.

Quando reafirmo que o outro “dá o rabo”, que isso é errado, e que eu, uma vez que não dou “meu rabo”, sou melhor, mais certo, mais divino e mais saudável que o outro, estou sutilmente favorecendo meu Ego. Mas o que é mais engraçado é se perguntar por que tal movimento mental é feito em torno do ânus.

Ainda há questões profundas aí. Dizem aí alguns psicólogos que a bissexualidade faz parte da constituição profunda do ser-humano. Sabemos que quando reprimimos algo em nós, passamos a viver isso nos outros. Como eu disse anteriormente, você já viu algum evangélico lutar contra a sodomia em casais homem e mulher? Por que a mesma campanha não é feita com os africanos indo de porta em porta nas casas de famílias heterossexuais, com um cartaz escrito: Vocês Praticam a Sodomia? Não deveriam fazer isso! Não obstante, essa campanha é feita com a “suposta” homossexualidade masculina.

Mas mesmo assim, é realmente admirável a capacidade que as pessoas têm de fazer do cú uma questão teológica. Ok, sabemos que Deus não fez o cú para dar… Assim como ele não fez a boca para chupar, pois a boca foi feita para comer e falar. Mas não vemos uma campanha de africanos evangélicos com cartaz escrito “Contra o sexo oral do homem na mulher”. Entendem?

Quando Jung disse “o que Pedro diz sobre Paulo nos informa muito mais sobre Pedro do que sobre Paulo”, não foi à toa. Quando eu vejo uma pessoa lutando contra o cú do outro que não é ele próprio, não vejo uma pessoa lutando contra a sodomia, mas sim vejo a mente de uma pessoa atormentada com aquilo que definitivamente não deveria ser um problema dele. Então eu pergunto: o que leva uma pessoa a sair de casa, gerar energia mental e força física em torno do rabo alheio, senão uma profunda incapacidade de se olhar bem dentro de si e ver como se é de fato?

Nossas palavras refletem nossa mente. Lutar contra sodomia é confortável seja por que passamos a direcionar para o outro as imagens mentais que existem dentro de nós, seja por que ela nos permite vivenciar no outro aquilo que temos um desejo imenso de viver em nós. Mesmo se você advoga com toda a pompa da certeza interior que a sodomia é um pecado, na medida em que isso de fato não interfere na sua vida, isso no mínimo deveria ser um problema entre quem dá o bumbum e Deus. Eu imagino a alma deste coitado no céu e Deus perguntando: – Meu filho, você deu sua bunda durante a vida? Agora você vai para o inferno!

É com gargalhadas que recebo frases como “se todo mundo vier a ser homossexual, a humanidade vai acabar”. Ora, se todo mundo vier a ser homossexual, isso inclui que a pessoa que proferiu esta frase, uma vez que ela faz parte do mundo, admite subjetivamente que ela pode se tornar homossexual.

Ah? Já sei! O sexo anal pode trazer várias doenças, né? Sim! Assim como dirigir pode dar dor na coluna, ver televisão causa obesidade, trabalhar em escritório causa lesão por esforço repetitivo e ser professor causa sérios danos à saúde mental do docente. Algum desses africanos ostentam cartazes como “Africanos contra a televisão”?

Portanto, não venho aqui expressar minha indignação com a luta contra a sodomia, venho expressar a minha consternação em ver como as pessoas tem pouca capacidade de olhar para si próprias e vê como o modo como elas enxergam o mundo, diz muito mais sobre elas do que sobre o mundo em si.

elenita rodrigues aka dj lena bahirah

Posted in bioblog with tags , , on 16/01/2010 by Homofobia Já Era

Professora Universitaria, PHD, DJ e criadora da

comunidade Homofobia Já Era do Orkut

(atualmente participando do programa BBB da Rede Globo)

veja:

saiba mais:

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concubinos do poder

Posted in direitos GLBTT, opinião, orgulho, política with tags , , , , , on 13/01/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

 

Estava passeando pelo calçadão de Ribeirão Preto no intervalo diário de 15 minutos que faço no meu trabalho, e, como de costume, fui à banca de revistas dar uma olhada na capa dos jornais do dia. Sempre faço isso para saber do que anda falando a mídia impressa. Infelizmente, não disponho de dinheiro pra comprar jornais todos os dias, e essa foi uma das maneiras que encontrei de não me desligar totalmente daquilo que chega às pessoas por meio dos diversos canais de comunicação em massa (Está certo que, ultimamente, eles só vinham servindo pra me aborrecer, mas tudo bem, é sempre bom saber mesmo assim). Foi quando vi uma matéria de capa mencionando o recuo do governo do PT quanto a algumas questões do Programa Nacional de Direitos Humanos. O que pensei na hora? Só uma coisa:

Que decepção.

Pra quem não chegou a ficar sabendo nem mesmo da apresentação de tal programa, ele se trata de um documento oficial, elaborado a partir de reivindicações da sociedade em diversas conferências, e tem por objetivo orientar os poderes públicos na promoção dos direitos humanos. Este programa, que é o terceiro de seu tipo, incluia questões de grande interesse da comunidade LGBT, tais como o casamento gay, a consideração da autodeclaração de cidadãos LGBT, e a possibilidade de travestis e transsexuais poderem escolher seus nomes em documentos oficiais sem necessidade de decisão judicial.

Minha primeira (logo, mais espontânea) reação, quando soube foi de esperança. Não uma esperança oriunda de fascinação por um gracejo de certa forma tardio por parte do governo, mas uma esperança mais realista, segundo a qual nós já estivéssemos, pelo menos, “seguindo a tendência”, trilhando caminhos antes já trilhados por outros países, até mesmo da América Latina. Nunca achei o Brasil um exemplo de protagonismo político, mas a minha esperança era que estivéssemos, no mínimo, seguindo – ainda que atrás, ainda que timidamente – o fluxo do futuro.

As reações posteriores foram mais ponderadas, e bateu o ceticismo. Também não do tipo de ceticismo mais comum, que seria duvidar da iniciativa pura e simplesmente por ter sido governamental e em ano eleitoral. Para ser bem franco, isso não me incomodaria, e, pelo contrário, significaria até um avanço, em vista de que nunca fomos matéria de discussão em campanhas eleitorais presidenciais. Alguém se lembrar de nós tão expressamente já poderia até ser considerado um avanço. O ceticismo a que me refiro tem mais a ver com o fato de este ser apenas um programa de diretrizes, e que ainda levaria mais uns bons anos para resultar em algo concreto, estando restrito ao plano etéreo das idéias neste momento. Percebam que, mentalmente, não lidei em momento algum com a possibilidade de um recuo…

Dosando esperança e ceticismo com minhas próprias medidas, optei por acompanhar as discussões sobre esse programa com certo distanciamento. Tem sido minha postura para tudo o que diz respeito à política institucionalizada neste país. Refiro-me a “política institucionalizada” como essa que chama a si mesma de “política” o tempo todo, e que, evidentemente, não encerra todo o significado do termo.

Diferentemente de mim, várias vozes se ergueram em protesto quando o programa foi divulgado. Essas vozes de protesto disseram muitas coisas. Destas, as de dentro da comunidade LGBT disseram que se tratava de uma iniciativa eleitoreira, querendo apenas os votos do arco-íris para a candidata do PT à presidência, Dilma Roussef. Outras, de setores reacionários da sociedade, não gostaram muito da possibilidade de finalmente termos esses direitos elementares, e foram às pressões contra o documento. Outras, ainda, influenciadas pelas primeiras certamente, já começaram com os temores da perda de votos e reclamaram dentro do próprio governo, pedindo pela retirada do casamento gay do rol destas propostas.

O resultado: Essas vozes foram ouvidas. E o casamento gay aparentemente não constará no documento que o governo entende como diretrizes de direitos humanos para a nação. Fomos preteridos. Jamais pensei que o referido programa pudesse ter saído do governo sem que os envolvidos em sua ratificação tivessem chegado a um mínimo consenso sobre o que apresentar à sociedade. Jamais esperei, eu, que até então me considerava simpatizante do PT, que as lideranças do partido batessem tanto a cabeça e fossem capazes de papel tão traidor e vexatório.

É sem vergonha alguma que admito aqui que fui enganado, porque os enganados jamais deveriam sentir vergonha pelo mau-caratismo alheio. O governo, ao se posicionar de modo inicialmente favorável para depois voltar atrás, brincou com os meus sonhos, sentimentos, expectativas e esperanças. E eu estou certo de que não falo apenas em nome de Adriano Mascarenhas, mas de todos nós.

O governo agiu como um homem casado que promete a seu amante gay secreto que ele passará a ser seu, para em seguida voltar à segurança de sua família de aparências, que ele jamais teve intenção real de largar. E, assim, como concubinos do poder, seguimos à mercê dos compromissos de nossos políticos para com o conservadorismo e o atraso desumanos que tanto nos assolam e impedem que nosso país entre verdadeiramente no grupo dos países capazes de fazerem a diferença no que diz respeito aos direitos humanos.

Hoje, quando fui pra academia, não consegui tirar esses pensamentos de minha mente, e a frustração até me fez suar mais e quase esmurrar os aparelhos por vezes. Vi vários homens lindos ali dentro, e me perguntei: Será que um dia vou poder me casar com um homem bonito como eles? Será que algum deles é gay também? Será que, se for gay, também tem vontade de se casar um dia? Será que teve essas referências? Será que é fácil um casal gay entender a si mesmo plenamente como casal, em uma sociedade que não dispõe de estrutura ideológica ou legal para lidar com essa realidade e dizer a esse casal que ele “pode” ser? Sinto-me estranho no mundo quando esses pensamentos afloram em situações das mais corriqueiras e percebo que jamais estarei ajustado ao mundo. Agradeço por não sê-lo em alguns quesitos, mas, às vezes, sinto que sentir-se igual a todos seria bom.

Alguns podem dizer que soa disparatado eu mencionar pensamentos e impressões tão pessoais como essas em um texto sobre algo que se pretenderia mais ou menos político, mas peço que não deixem de notar o quanto esses assuntos agem interconectados. A vida de milhões de pessoas é afetada pela política. Neste dia, milhões de pessoas podem ter deixado escapar uma lágrima furtiva mimetizada ao suor. Força e dor me tomaram nesse símbolo da lágrima que não foi só minha.

O que pude foi apenas vir à rede mundial de computadores falar com meus iguais, aqueles entre os quais me sinto compreendido e aceito. E não me restrinjo a me referir a pessoas LGBTTT quando falo de iguais: os meus iguais são todos aqueles que me querem como igual. Sei que deles também é a minha decepção, que não se fia apenas em um programa de diretrizes rejeitado, mas em todo o descaso que segura as cordas dos bonecos de Brasília. A situação é muito mais grave do que faz supor essa pequena vergonha. Sinto-me mais que frustrado, sinto-me idiota perante essa fina teia difusa de lealdades do quadro da política brasileira e sua total falta de identidade, na qual nunca podemos saber com quem contar. E isso porque me considero alguém pelo menos um pouquinho crítico. Vai se lá saber o que acontece com o voto de quem não se importa tanto assim com “política”. Cheguei ao ponto de duvidar até mesmo de quem diz que entende a política no Brasil. Estou farto de quem diz saber tudo, e parte da culpa por isso é dos nossos próprios governantes. São eles que dizem que entendem demais disso, quando o que fazem por lá demonstra algo bem diferente.

Acredito que nossa única saída é mirar novamente a comparação com o concubino. É necessário o amor próprio. É necessário que obriguemos o adúltero a se decidir, e parar de nos iludir: Ou a esposa, ou nós. Ele não poderá continuar com ambos. Se o governo preferir tomar partido da homofobia, vai ter que arcar com as consequências. Se é de perda de votos que o PT tem medo por comprar a nossa briga, será com perda de votos que teremos que puni-lo se ceder a essa pressão, ao mesmo tempo em que temos que apoiar as iniciativas que se mostrarem efetivamente favoráveis a nós (reclamar tanto quando estão a favor quanto quando estão contra não é produtivo). E com pressões de ambos os lados, restará a eles escolher entre o que é ético, político, e afinado à nossa Constituição, ou isso que está fazendo.

É hora do basta final.

jeff palmer

Posted in esporte, filme, imprensa, uncategorized with tags on 12/01/2010 by Homofobia Já Era

 
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