por que eu sou contra a sodomia

Estava passando os olhos pelas notícias diárias, quando um fato me chamou a atenção. Era um manifestante africano, provavelmente evangélico, erguendo um cartaz onde estava escrito em letras garrafais o seguinte dizer “Africanos contra a Sodomia”. Eu passei o dia pensando naquilo. O que é sodomia? Todos sabemos que se referem ao sexo anal, ou seja, “pau no rabo”. Mas a luta daquele africano não é contra qualquer pau em qualquer rabo, é contra aquilo que ele entende por homossexualidade masculina. Sim, porque o que está em questão é o cú de outros homens.

Não, não vou defender a sodomia e muito menos o direito de as pessoas a darem seus rabos. O que realmente me deixa encafifado é pensar como é que uma pessoa pode sair da casa dela e se dar ao trabalho de escrever um cartaz contra o que o outro faz com a sua bunda e ainda ostentar isso como protesto político. A matemática é simples, se quem dá o rabo é o outro, não sou eu. Ora, se não sou eu, é o outro, se é o outro, não sou eu. Então como é que o cú de outro homem pode ocupar a mente deste cidadão?

Você já reparou uma coisa? Dificilmente estes manifestantes escrevem um cartaz escrito “Africanos contra a colação de velcro”… raramente o protesto contra a homossexualidade se dirige para as mulheres. Isso não é, no mínimo, curioso?

Dizer que a sodomia é anti-natural, é no mínimo, uma incongruência estúpida. Ar-condicionado, asfalto, televisão, água engarrafada, carro, gasolina, tecido sintético, shampoo, sabonete, camisinha, internet, TV a cabo, microfono, CD player, todas essas coisas são anti-naturais. Não obstante, você vê o cidadão lutando contra o uso anti-natural do cú, mas não vê ele lutando para que a humanidade volte a viver em florestas (que seria a coisa mais natural a se fazer).

Porque mesmo se dar o “bumbum” fosse anti-natural ou errado, será que a pessoa que luta contra tal prática abominável tem toda a vida dela pautada pela mais pura perfeição, segundo os ensinamentos cristãos? Por que para exigir do outro uma suposta perfeição, você teria que ser o primeiro a tê-la.

Isso me lembra um fato recente na história brasileira em que alguns evangélicos foram até a porta do congresso nacional protestar contra a lei que pune a discriminação a homossexuais. Ora, com tantos casos de corrupção no país, injustiças sociais, violência policial, falta de educação, hospitais, você já viu algum grupo de evangélicos irem até o congresso nacional protestar contra os escândalos de corrupção da mesma maneira violenta que eles foram protestar contra a tal PLC 122? Por que a energia mental dessa gente se direciona tanto para a homossexualidade?

Além do que, voltando ao tema do assunto, há uma questão crucial… Quem disse que a homossexualidade se resume a “pica no rabo”? A tal “sodomia” não é um elemento chave no sexo entre homens, para quem não sabe. Aliás, é muito comum homens fazerem sexo sem ninguém meter em ninguém. Mas então, como é que essas pessoas que lutam contra a sodomia sabem o que de fato se passa no sexo entre homens? Ou é fruto de experiência, ou é fruto de imaginação… em ambos os casos, isso mostra uma conexão mental direta com o objeto.

Não se trata de dizer que sodomia é certo ou errado, mas se trata de me perguntar: o que calhas d’água eu tenho a ver com o cu de um outro que não sou eu? O número de homens homossexuais que supostamente praticam a sodomia é ínfimo em comparação ao número de homens viris heterossexuais que gostam “de meter” numa vagina. Então por que o indivíduo sai da casa para protestar contra o cú de um outro? Isso absolutamente não deveria ser um problema seu, uma vez que quem ta dando o rabo, não é você. E não só não é você, como isso sequer afeta sua vida em nível nenhum.

Ok, o caso específico é África, mas tais formas mentais não são muito distantes da nossa realidade brasileira, né minha gente? Com tanta coisa mais importante para o cara protestar, como africanos unidos contra a s hipocrisia, a falasidade, o fanatismo, a ignorância, a fome, as guerras,etc, qual é a realidade mental e psicológica subjacente ao protesto contra o cú alheio?

Nas religiões da antiguidade e em religiões atuais como umbanda e candomblé, a sexualidade do indivíduo era assunto privado e ponto final. A preocupação com o ânus de outro homem é uma característica dos filhos de Sem, e das religiões abraâmicas. Pelo menos no caso do islamismo e do cristianismo, as duas religiões mais virulentas e violentas do planeta, essa preocupação é recorrente e isso tem conseqüências psicológicas profundas.

Quando eu ocupo minha mente com a sodomia de um outro que não sou eu, eu simplesmente afasto o olhar de mim mesmo, meus defeitos, minha falta de capacidade de auto-análise e o que eu preciso melhorar. Ocupar-se com o “rabo alheio” a ponto de fazer você sair de casa para protestar, faz com que você desvie a atenção de si mesmo, e passe a cuidar da vida do outro simplesmente porque não tem capacidade de cuidar da sua própria vida. Psicologicamente, preocupar-se em lutar contra a sodomia “do outro”, nos deixa na confortável posição de julgamento do outro e força a desviar o olhar de nós mesmos. O protesto contra a sodomia é uma poderosa defesa contra si mesmo.

Além do que, quando eu digo que o outro é errado, está implícito que eu sou certo, quando digo que o outro é doente, está implícito que eu sou saudável, quando digo que o outro é satânico, está implícito que eu sou divino. Como disse em outro texto, a homofobia também está relacionada a uma questão de Ego pessoal. A inferiorização do outro muitas vezes relaciona-se à capacidade de me fazer sentir melhor.

Quando reafirmo que o outro “dá o rabo”, que isso é errado, e que eu, uma vez que não dou “meu rabo”, sou melhor, mais certo, mais divino e mais saudável que o outro, estou sutilmente favorecendo meu Ego. Mas o que é mais engraçado é se perguntar por que tal movimento mental é feito em torno do ânus.

Ainda há questões profundas aí. Dizem aí alguns psicólogos que a bissexualidade faz parte da constituição profunda do ser-humano. Sabemos que quando reprimimos algo em nós, passamos a viver isso nos outros. Como eu disse anteriormente, você já viu algum evangélico lutar contra a sodomia em casais homem e mulher? Por que a mesma campanha não é feita com os africanos indo de porta em porta nas casas de famílias heterossexuais, com um cartaz escrito: Vocês Praticam a Sodomia? Não deveriam fazer isso! Não obstante, essa campanha é feita com a “suposta” homossexualidade masculina.

Mas mesmo assim, é realmente admirável a capacidade que as pessoas têm de fazer do cú uma questão teológica. Ok, sabemos que Deus não fez o cú para dar… Assim como ele não fez a boca para chupar, pois a boca foi feita para comer e falar. Mas não vemos uma campanha de africanos evangélicos com cartaz escrito “Contra o sexo oral do homem na mulher”. Entendem?

Quando Jung disse “o que Pedro diz sobre Paulo nos informa muito mais sobre Pedro do que sobre Paulo”, não foi à toa. Quando eu vejo uma pessoa lutando contra o cú do outro que não é ele próprio, não vejo uma pessoa lutando contra a sodomia, mas sim vejo a mente de uma pessoa atormentada com aquilo que definitivamente não deveria ser um problema dele. Então eu pergunto: o que leva uma pessoa a sair de casa, gerar energia mental e força física em torno do rabo alheio, senão uma profunda incapacidade de se olhar bem dentro de si e ver como se é de fato?

Nossas palavras refletem nossa mente. Lutar contra sodomia é confortável seja por que passamos a direcionar para o outro as imagens mentais que existem dentro de nós, seja por que ela nos permite vivenciar no outro aquilo que temos um desejo imenso de viver em nós. Mesmo se você advoga com toda a pompa da certeza interior que a sodomia é um pecado, na medida em que isso de fato não interfere na sua vida, isso no mínimo deveria ser um problema entre quem dá o bumbum e Deus. Eu imagino a alma deste coitado no céu e Deus perguntando: – Meu filho, você deu sua bunda durante a vida? Agora você vai para o inferno!

É com gargalhadas que recebo frases como “se todo mundo vier a ser homossexual, a humanidade vai acabar”. Ora, se todo mundo vier a ser homossexual, isso inclui que a pessoa que proferiu esta frase, uma vez que ela faz parte do mundo, admite subjetivamente que ela pode se tornar homossexual.

Ah? Já sei! O sexo anal pode trazer várias doenças, né? Sim! Assim como dirigir pode dar dor na coluna, ver televisão causa obesidade, trabalhar em escritório causa lesão por esforço repetitivo e ser professor causa sérios danos à saúde mental do docente. Algum desses africanos ostentam cartazes como “Africanos contra a televisão”?

Portanto, não venho aqui expressar minha indignação com a luta contra a sodomia, venho expressar a minha consternação em ver como as pessoas tem pouca capacidade de olhar para si próprias e vê como o modo como elas enxergam o mundo, diz muito mais sobre elas do que sobre o mundo em si.

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5 Respostas to “por que eu sou contra a sodomia”

  1. REBECA Says:

    Espetacular !!!

    • Querida Rebeca, espetacular é encontrar apoio na diuvlgação, como essa dada pelo site Homofobia Já Era e leitoras como você, para incentivar este trabalho essencial na promoção da cultura LGBTS.
      Abração.
      Valdeck Almeida de Jesus

  2. André Says:

    Falou e disse! o/

  3. cavaleiro templário Says:

    Gostei da sua argumentação em defesa dos direitos da comunidade GLBT.
    Lutam para que possam ter o direito à felicidade garantida pela Constituição.
    Parece justa a luta embora entenda que nenhum texto de lei possa garantir a felicidade.
    Com os votos de elevada estima e consideração.

  4. Seguindo o seu raciocínio, acho interessante pensar: O que leva um africano “provavelmente” evangélico a sair de casa para protestar com aquele cartaz deve ser a mesma intolerância que leva uma pessoa aparentemente letrada a tecer todo esse arrazoado sobre a possível religiosidade do fotografado acima. Ora, se o ânus alheio é interesse exclusivo do respectivo dono, a religiosidade alheia é assunto público?
    E a tal homofobia? É doença ou má conduta? E a homossexualidade? Seria um terceiro gênero? Seria doença? Seria mau procedimento também?

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