Arquivo para fevereiro, 2010

mal necessário

Posted in letra & música with tags on 28/02/2010 by Homofobia Já Era

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Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Sou a mesa e as cadeiras deste cabaré
Sou o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo
Sou a febre que lhe queima mas você não deixa
Sou a sua voz que grita mas você não aceita
O ouvido que lhe escuta quando as vozes se ocultam
Nos bares, nas camas, nos lares, na lama.
Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo
O que sempre esteve vivo, mas nem sempre atento
O que nunca lhe fez falta, o que lhe atormenta e mata
Sou o certo, sou o errado, sou o que divide
O que não tem duas partes, na verdade existe
Oferece a outra face, mas não esquece o que lhe fazem
Nos bares, na lama, nos lares, na cama.

Mauro Kwitko

eu velejava em você

Posted in letra & música with tags on 28/02/2010 by Homofobia Já Era

zizi possi

Eu velejava em você
Não finja
Como coisa que não me vê
E foges de mim

A boca tremia
Os olhos ardiam
Ó doce agonia
Ai dor de viver
De ver sua imagem
Que eu nunca via

Sua boca molhada
Seu olhar assanhado
Convite pra se perder
Minha alma cansada
Não faz cerimônia
Você pode entrar sem bater

pois eu já velejei em você
E foi bom doer
Mas foi como sempre um sonho
Tão longe, risonho
Sinto falta, queria lhe ver.

Eduardo Dusek

cabelos negros

Posted in letra & música with tags on 28/02/2010 by Homofobia Já Era

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Eu quero seus cabelos negros
Nas minhas mãos
Eu quero seus olhinhos ciganos
Nos meus sonhos
Eu quero você minha vida inteira
Como doce mania
Fosse qualquer maneira
Eu queria você assim como é
Sem mentir, nem dizer
O que não quiser
Eu quero você criança
Caída no chão
Eu quero você brilhando
Brincando de mim
Pois eu quis você
Como o sol e as estrelas
Noites de lua
Nostalgia
E vou ter você
Mesmo só pra pensar
Nessas coisas de amar
Na alegria
Eu começo a descobrir
Que em meu coração
Tá nascendo um jardim
Pensando em plantar
Você dentro de mim
Pois preciso lhe ver
Várias vezes florescendo
Nas luas crescentes
Sentir seu perfume
Prá encontrar você

viajante

Posted in uncategorized with tags on 28/02/2010 by Homofobia Já Era

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Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa, pássaro sem asa, rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia
Mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez
Pra ser teu talvez, pra ser teu talvez
Mas o viajante é talvez covarde
Ou talvez seja tarde pra gritar que arde no maior ardor
A paixão contida, retraída e nua
Correndo na sala ao te ver deitada
Ao te ver calada, ao te ver cansada, ao te ver no ar
Talvez esperando desse viajante
Algo que ele espera também receber
E quebrar as cercas com que insistimos em nos defender
Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa, pássaro sem asa, rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia
Mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez
Pra ser teu talvez, pra ser teu talvez

Teresa Tinoco

a single man

Posted in filme with tags , on 26/02/2010 by Homofobia Já Era

gay = sin

Posted in arte, filme with tags , on 26/02/2010 by Homofobia Já Era

Video by Matthew Brown
Music by Sigur Ros

david gilkey

Posted in fotografia, homoerotismo with tags on 25/02/2010 by Homofobia Já Era
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ressaca moral, bbb e afins

Posted in comportamento, diversidade, homofobia, mídia, opinião with tags on 24/02/2010 by petitte

Confesso: Gosto do BBB. Tenho minhas razões:

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Um programa popular. Mede o que interessa ao povo. Com o que as pessoas se identificam, as musicas que vão virar sucesso e os valores de julgamento sobre quem merece ou não o prêmio; Um entretenimento. Um jogo de relações humanas. Aprendemos um pouco mais sobre ‘gente” e situações extremas. O que as pessoas não fazem por 1 milhão de reais? Um programa bobo, mas que explicita como influenciar a população e o poder que a mídia tem para isso. Não raro as edições favorecem um determinado participante.

Ontem eu torci, votei e fiquei  estarrecida com a eliminação de Angélica ( aka Morango). Lésbica assumida, inteligente, educada e com personalidade forte. Problema meu? Nem tanto. Seu adversário era Marcelo Dourado, homofóbico, machista, rude e truculento. O que isso me diz? Que eu tenho os valores errados ou que a população continua conservadora, preconceituosa e se deixa manipular?

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Um homem que afirma que bate em mulher, maltrata animais e diz que só os gays se contaminam com HIV. Alguém que eliminou uma mulher que entrou no programa para tentar dar mais visibilidade a causa gay, que falou sobre direitos LGBTTT durante o programa ( embora raramente essas conversas aparecessem nas edições da TV aberta) e que se propôs, sobretudo, a “ensinar’ Dourado sobre o que é “ o movimento gay”.

Um homem que compara o movimento dos direitos GBTTT à “ditadura’ e  ao “nazismo’. Que diz que gays são “recrutados”. Marcelo venceu a disputa de permanecer na casa contra Angélica que acredita que o movimento  gay surgiu em busca de igualdades de direitos, diminuir o preconceito entre as diferenças e em busca de respeito e respaldo legal a uma minoria.

Um homem, que diz que agride uma mulher, eliminou uma mulher que ama outra mulher.

 

b23fa_angelica-bbb10 (1) Marcelo Dourado

Mas deixa desde já eu me corrigir: Não foi ele que eliminou ela. Foi o público que se identifica com os valores de Dourado, que a eliminou e, conseqüentemente, este mesmo publico não aprecia ou não entende os valores que ela defende e acredita.

Hoje, acordei com ressaca moral.

Parece que jogaram tudo o que acredito no lixo. Acho que para sermos cidadãos a alternativa é sair do país. Procurar abrigo  em algum lugar onde os valores sociais sejam mais próximos aos meus, por que claramente os meus não são os valores da população brasileira.

Nasci brasileira e  vou morrer homossexual. Desculpe Brasil, mas não desisto de você.

“Verás que um filho teu não foge à luta” é meu trecho preferido do hino brasileiro. O mesmo trecho que pretendo tatuar e que me dá forças pra combater a discriminação.

E copiando uma outra frase, do filme “V de vingança”: idéias são à prova de bala.

Ontem a violência dourada bateu na elegância angelical.

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heterofobia, o argumento débil.

Posted in comportamento, opinião with tags on 24/02/2010 by Elie Silvério

300

O discurso dos LGBTTTI se desenrola na arena política. O termo arena não é utilizado em vão, pois os debates entre aqueles que conservam posições conflitantes são normalmente acalorados e enérgicos, verdadeiras batalhas, o que gerou a analogia com os gladiadores se enfrentando nas antigos espaços romanos. Dá-se que enquanto os  gladiadores usavam punhos, escudos, espadas e lanças na arena física, na arena política nós, os gladiadores modernos, usamos palavras, argumentações  e estabelecemos diferentes estratagemas para vencer os nossos oponentes ideológicos.

Entre estes estratagemas, um artifício muito comum desde muito era utilzado antes da época dos próprios romanos e seu senado, e nem por isso menos eficaz: ridicularizar o discurso alheio através da desmoralização do orador. Como eu disse: isto é um truque antigo e muito poderoso. Os detratores do Movimento LGBTTTI tem se apropriado deste artifício e agora tentam vencê-los através de retratar os homossexuais como heterofóbicos. Em outras palavras, pintando os homossexuais como hipócritas que se opõe ao preconceito contra os LGBTTTI, mas que possuem preconceito contra os heterossexuais.

Inverte-se o discurso, afirmando que os heterossexuais são vítimas do preconceito dos heterofóbicos e não o exato oposto como os LGBTTTI afirmam.

Cabe a pergunta: afirmar que os homossexuais são heterofóbicos é uma verdade dolorosa para o movimento LGBTTTI ou um ardil leviano alçado para desviar o foco?

Para isso, basta observar o comportamento dos LGBTTTI e responder as questões seguintes:

parade

1- Nas paradas gays são proferidos discursos que rebaixem a heterossexualidade e incentivem a rejeição aos heterossexuais? Não.

2 – Nos ambientes gays as demonstrações de heteroafetividade geram repreensão por parte dos gays ou mesmo violência? Não.

3 – A polícia federal já rastreou e monitora LGBTTTI que formando grupos organizados para atacar violentamente heterossexuais no mais variados ambientes? Não.

4 – Os LGBTTTI se esforçam para impedir que os heterossexuais se casem? Não.

5 – Os LGBTTTI humilham os heterossexuais em ambientes públicos e privados? Não.

6 – Os LGBTTTI ostentam literatura religiosa visando desumanizar os heterossexuais e satanizar sua sexualidade? Não.

7 – Os LGBTTTI agridem, coagem e expulsam seus pais heterossexuais de casa? Não.

8 – Os LGBTTTI ignoram estudos científicos dos mais variados e ricos, endossados pelas principais e mais renomadas instituições de saúde do mundo, para defender seu preconceito contra heterossexuais? Não.

9 – Os LGBTTTI ridicularizam heterossexuais na mídia através de personagens esteriotipados dos mesmos, retratando-os como ridículos e baixos? Não.

10 – Logo, as lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e intersexuais são heterofóbicos? Definitivamente não.

Alguns podem ser levados a pensar que os gays são heterofóbicos por muitos não circularem ou se associarem aos homens heterossexuais, estando sempre entre si ou com as mulheres. Será isso a heterofobia dos gays? Bom… Não creio que chamaríamos de racista um negro americano que temesse circular em um bairro de maioria branca e hostil.

exterface_kiss_0 Heterofobia não é se esquivar do convívio com homens heterossexuais pelo receio completamente plausível de estar entre eles ( dado o fato de que uma boa parte dos homens heterossexuais são hostis aos gays que procuram, então, se refugiar entre os “iguais” ou com as mulheres que costumam ser mais receptivas aos homossexuais). Os gays que agem dessa forma não estão segregando os heterossexuais, eles estão segregando a si mesmos. Este comportamento não se apresenta como causa, mas como conseqüência da hostilidade tradicional dos homens heterossexuais contra os gays. Veja, quando expostos a situação inversa, a generalidade dos gays se mostra bastante receptiva aos heterossexuais.

Existe até um comportamento curioso entre os gays que nutrem amizades com homens heterossexuais, um orgulho, como quem diz “eu não vivo no gueto, não tenho somente amigos gays, mas também amigos homens heterossexuais“. Em outros,  a impressão que se tem ainda é mais acentuada, como se dissessem “os héteros em geral não aceitam gays, mas eu fui aceito e isso me confere status”. Em ambos os casos estamos muito, mas muito longe mesmo de qualquer traço de  heterofobia.

Aliás, percebe-se, o comum de muitos gays é se espelhar nos homens heterossexuais, tentar agir e falar como eles para serem aceitos… Em lugar de heterofobia, fica claro que estamos tentando alcançar os héteros não somente nos direitos, mas também na forma. Vocês devem saber sobre gays que se orgulham por serem másculos e que preferem não conviver com afeminados, aqueles que afirmam que ser gay não é ser uma “bichona”, demonstrando desprezo pelos gays delicados e pelos mais chamativos… O que é isso, senão enaltecer o comportamento heterossexual, corroborando-lhes até os preconceitos?
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Como poderíamos ser heterofóbicos quando uma ampla parcela de nós acredita que ser o mais parecido possível com um heterossexual é o melhor e mais bonito comportamento; se uma grande parcela de nós é incapaz de romper com a heteronormatividade. Há uma gama de homossexuais que vivem à sombra dos heterossexuais… O extremo oposto da heterofobia – o endeusamento da heterossexualidade, a nossa falta de identidade e baixa autoestima como homossexuais. Estamos muito longe de ter fobias aos hetrosssexuais. Aliás, pelo contrário, temos algo bizarro entre nós que são os LGBTTTI homofóbicos. Um contrasenso!

Mas você pode se perguntar:

castro9405E as propostas para criação de cidades gays, escolas gays e demais ambientes chamados “exclusivistas” … Não são tais propostas demonstrações de heterofobia?

Quando você ouve falar das propostas de alguns a cerca de cidades para gays, escolas para gays e tantas outras propostas de ambientes exclusivos para LGBTTTI, perceba que você está diante não de heterofóbicos, mas daqueles dentre os LGBTTTI que descrêem que essa imensa e dominante maioria heterossexual a nossa volta  que tanto nos agride vá um dia nos aceitar e tratar com igualdade. Muitos dentre nós estão desesperançosos, céticos quanto a sociedade heterossexual mudar e se tornar amena para os homossexuais ou simplesmente fartos de esperar a tal mudança chegar.

Estas propostas não são mais do que uma “fuga”, um plano b. O pensamento é que, na impossibilidade de sermos aceitos, a melhor saída que temos para viver em paz é vivermos entre nós, não mais tendo que lidar com os olhares maldosos daqueles que nos enxergam como seres indesejados. Os adeptos desse discurso desistiram de bater de frente contra a homofobia e querem tergiversá-la, e eu, que discordo, não me sinto em posição de condená-los.

chelsea1 Não é heterofobia, pois estas pessoas não querem deixar de conviver com os héteros porque os hostilizam e desprezam, porque os odeiam, mas por estarem fatigadas de lidar com a ameaça que uma parcela enorme deles é para nós. Estão cansados de lidar com a hostilidade dos homofóbicos, com o desprezo dos homofóbicos. Elas também desejam a aceitação, porém a conceituam como uma utopia. Mas dos que fazem tais proposições, você não vai ouvir propostas de agressão contra os heterossexuais: eles não subestimam a heterossexualidade e nem fazem propaganda de ódio contra os heterossexuais como os homofóbicos fazem contra nós.

Os homossexuais vêm de famílias compostas por heterossexuais e tem laços com elas. Até mesmo gays exclusivistas se apresentados a uma sociedade que, por um passe de mágica, se tornasse justa e tolerante não titubeariam em se entrosar com ela, adentrá-la, e enfim gozar de plena relação com seus familiares. Há muita diferença entre fugir do preconceito alheio e agir com preconceito.

É importante lembrar que nós, os homossexuais, não estamos agredindo os heterossexuais. Não somos nós que aparecemos na televisão presos por crimes bárbaros de todos os tipos movidos por ódio contra a sexualidade alheia. Nós não nos juntamos em bandos para agredir a chutes heterossexuais. Nós não demitimos pessoas de nossas empresas por serem heterossexuais e não gritamos “heterozinho, vira gay!” quando vemos um heterossexual andando pela rua

E isso faz toda diferença ao responder se somos ou não heterofóbicos.

Salam ‘aleikom!

texto em substituição de autoria (conforme sugestão do autor); “o autor do texto não mais se interessa e nem acredita no movimento gay, tampouco deseja ser associado a tal movimento em quaisquer instâncias, por isso solicitou a completa exclusão de seus dados pessoais “

o menino mais bonito do mundo

Posted in literatura with tags on 23/02/2010 by Homofobia Já Era

francisbacon_mulhersentada Nunca conheci menina tão feia. Tinha uns cabelos escorridos, na altura quase da cinturinha de pilão, caindo pelas espáduas avermelhadas como a da índia de Alencar. Fazia as unhas delicadamente e piscava enormes olhos verdes em todas as direções. Era alta, o que me deixava invejosa. Se tinha algo que me dava vontade era de ser grande, não só para aparecer mais do que todos, mas primeiro para ter lugar no fim da fila da escola, posição sempre mais interessante. No recreio, ser baixo significava estar sempre adiante, com todos os demais nos meus calcanhares. Não tinha graça, exceto para aqueles que chamávamos de "os fominhas".

A menina era feia como uma criatura mitológica. Monstrenga. Alta, morena, roliça, intoleravelmente atraente. Alimentava mais da metade dos sonhos de todos os meninos da escola. Era esbelta como uma porta. Intangível como uma ideia. Bem-vestida, bem-cuidada, mas distante. Não conseguia trocar duas palavras educadas sequer com a professora, aquela autoridade. Imaginávamos que, quando a menina feia crescesse, seria uma dona Magda como aquela: alta, escorregadia e fria. Os cabelos longos se tornariam coques apertados em cima da cabeça e se poderia ver com mais calma a verruga na nuca.

Os meninos da minha turma desejavam a menina feia. Eles queriam brincar com ela, tocar-lhe os dedos e as partes abauladas da bunda, queriam pensar coisas pornográficas e fazer gracinhas eróticas para ver se ela deixaria. A menina avançava com eles e recuava quando a brincadeira parecia incontornável. Ela falava muito de cremes de cabelo e de perfumes, também sabia algo sobre esmaltes e gostava de variar os batons. Ela se produzia, mesmo quando era obrigatório o uso de uniforme. Ela não parecia igual a ninguém. Ela se parecia com todas as protagonistas das novelas. Nem mesmo os uniformes a tornavam mais uma entre tantas outras.

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Um dia, vimos a mãe da menina feia vir buscá-la na escola. Abriu-se a porta do carrão e saiu de lá uma imensa peruona. Muito loura e de bastas sobrancelhas negras, de imensos olhos acentuadamente azuis, unhas coloridas e beiços sádicos. Era uma jamanta. Não podia ser apenas uma mulher. Era, ao mesmo tempo, a mãe e a filha, talvez ainda o arremedo da avó espanholona. Travestida de um roupeiro inteiro, quase não se via rosto embaixo de tanta iluminação. Era obrigatório visá-la. Quase uma aparição amedrontadora. Com aquelas unhas, não era possível segurar um bebê. Com aquele cheiro forte, não se podia evitar a alergia. Com aqueles saltos altíssimos, não se podia andar. Era uma marcha que começava no chão e impactava até os cachos formatadinhos do cabelo amarelo. A menina feia nunca deve ter tido tempo de ser menininha. Não ouvi a voz da geringonça humana. A menina feia tinha muito caminho pela frente. Tal mãe, quase a filha. Um quase embaraçoso.

francis_bacon_gallery_4 Mas não era assim o menino. Nunca eu vira gente tão bonita. Parecia um conceito. Liso, esguio, fechado. Inequivocamente, dizia um bom dia e um boa tarde, toda vez que chegava na sala. Mesmo quando ninguém respondia, ele cumprimentava o ar. Não era por ninguém. Era por ele. Alimentava pombos doentes, tinha pena de passarinhos e sabia tocar violão. Não sei ao certo a cor dos cabelos, o tamanho dos pés, a textura das mãos ou a cor dos olhos. Não dava tempo de saber. A laçada dele era antes. O fino do olhar de educado e lisonjeiro. Não sei direito se tinha espinhas e um pé tortinho. Não consegui notar embaixo daquele ar de queda livre que ele tinha. Era o menino mais bonito do mundo. Desses que deixam suspiros no ar, mas só para quem sabe sentir. Entrava na sala e lançava um brevíssimo olhar pelo arredor. Quando eu conseguia pegar a visada dele, mirava meus mais intensos sonhos. Era uma espécie de bênção, debaixo de uns cabelos pretíssimos e penteados para o lado esquerdo.

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Minha angústia era aceitar os diversos em seus ritmos sincopados. A menina feia, com seus jasmins; o menino lindo, com sua hipnose. A peruona espanhola com sua britadeira de partir o dia a dia. As pessoas que valem a pena são assim: têm traços transparentes. Não se medem pelas cores nem pelos apetrechos. Elas nos inquietam sem usar os peitos ou as nádegas. Elas não somem da memória. O menino mais bonito que eu já conheci tinha um olhar tão doce que eu não lhe sabia a cor dos olhos. E ele me fez agrados tão bonitos que não guardei-lhe as medidas. Até hoje, e sempre, o que me faz lembrar dele é um beijo de olhos fechados, no meio da tempestade de vento, e um armário cheio de chocolates.

 

Ilustração: obras de Francis Bacon

 

ana_elisa_ribeiro Ana Elisa Ribeiro (Belo Horizonte-MG, agosto de 1975). Poeta, graduou-se em Letras/Português e fez mestrado em Lingüística. Atua como professora nas universidades Federal e Católica de Minas Gerais. É escritora, editora, revisora e preparadora de texto em grandes editoras mineiras. Publicou Poesinha (Poesia Orbital, 1997) e Perversa (Ciência do Acidente, 2002). Colabora com a agência de notícias Carta Maior e é colunista do Digestivo Cultural. onde este texto foi originalmente publicado

fuck you: hungarian artists against homophobia

Posted in direitos GLBTT, homofobia with tags , on 21/02/2010 by Homofobia Já Era

sergio roveri

Posted in literatura with tags on 21/02/2010 by Homofobia Já Era

adamgarcia

Poucas coisas o irritavam mais nas noites de sábado do que o cheiro de pizza que invadia com igual incômodo os dois elevadores do seu prédio. Ele sempre acreditou que aquele aroma, em que sobressaíam de maneira indisfarçável rastros de cebolas e lingüiças, era a principal prova da existência de vidas monótonas ao seu redor. Vidas que, em sua compreensão contaminada de inquestionável soberba, haviam se atrofiado tanto ao longo dos anos que hoje podiam ser acomodadas nas mesmas caixas de papelão em cujo interior as pizzas trepidavam ao ritmo dos baques do elevador. Em seu íntimo, ele sabia que era uma forma preconceituosa de diagnosticar os seus vizinhos, mas ele nunca acreditou que a melhor tradução da felicidade pudesse ser a imagem de um queijo derretido escapando dos lábios num sábado à noite.

Mas naquele sábado ele concordou que precisaria se render. Havia acordado às sete da noite, confuso e enjoado depois de um chill-out em que os copos de vodca e uísque repousavam sobre bandejas nas quais as carreiras de cocaína tinham traçado irresistíveis pegadas. A cabeça pesava e o estômago doía. Devia ser fome. Àquela hora, sabia, seria impossível encontrar companhia para jantar. Lembrou-se, sem muito ânimo, do imã que havia grudado em sua geladeira com o telefone da pizzaria. Resistiu em telefonar porque, se o fizesse, acreditava que em poucos minutos iria se igualar os vizinhos que ele tanto desprezava. Olhos em sua despensa: um vidro pela metade de shoyu, uma lata de ervilha e uma embalagem de Bis com a data vencida. Discou e encomendou uma pizza média, a mais simples do cardápio. Margherita, disseram do outro lado da linha. E três latas de Coca Cola normal.

Cinco minutos antes do previsto, o interfone tocou. O motoboy trazendo a pizza estava à sua espera na calçada.  Desceu com o cheque já preenchido. Nestas horas, pensou, era sempre bom ganhar tempo. O rapaz conferiu o valor, agradeceu os dois reais a mais pela gorjeta e pediu para que ele anotasse o número do celular do verso. À falta de caneta, usou a do motoboy. “O senhor é novo aqui no prédio?”, perguntou o motoboy, então com a viseira do capacete levantada, enquanto ele anotava o telefone. “Nem novo e nem senhor”, respondeu, mal-humorado. “É que pizza o senhor nunca pediu”. Ao levantar a cabeça para devolver a caneta, deparou com dois olhos negros e curiosos, que o observavam entre as grades do portão. Negros como as azeitonas que, pouco mais tarde, ele encontraria decorando sua pizza. “É que”, balbuciou hipnotizado pelo olhar do motoboy, “eu não gosto tanto assim de pizza”. O rapaz o encarou por alguns segundos em silêncio, baixou a viseira do capacete e respondeu que daquela ele gostaria.

Comeu apenas metade da pizza. O que não o impediu de, na sexta-feira seguinte, fazer um novo pedido. E assim na terça, na quinta, e assim no outro sábado. Jogava fora as bordas da pizza, grossas e mal assadas. Às vezes, jogava fora o recheio também. O que o alimentava, a iguaria das suas noites, ainda que o excesso de romantismo e a infantilidade da situação o incomodassem profundamente, eram os olhos negros do motoboy. Os olhos de azeitona. As azeitonas que, ainda que murchas e pequenas, ele se recusasse a jogar fora.

No fim de tarde do terceiro sábado, o interfone tocou. O motoboy havia chegado. “Mas eu não pedi nada”, disse ao porteiro. “Ele mandou dizer que é por isso mesmo que ele veio”. Ele desceu e, pela primeira vez, viu o motoboy sem capacete , seus cabelos que, fossem mais longos, seriam encaracolados. “Tem uma coisa que eu faço todo domingo à tarde”, disse o motoboy, antes mesmo que o portão se abrisse. “Eu faço sempre sozinho, mas fiquei com vontade de te levar desta vez”. Ele olhou para aqueles olhos negros, que à luz da tarde nem tão negros assim eram, e não sentiu medo. Sentou-se na garupa, vestiu o capacete cinza que o motoboy lhe trouxera, e ficou feliz por, depois de muito tempo, se permitir ser conduzido.

Ibira
No sábado de ruas mais desertas, em menos de 15 minutos estavam no Ibirapuera. Caminharam em silêncio até o lago, sentaram-se na grama e, de dentro de sua bolsa, o motoboy retirou um mundo de fatias de pizza assadas e grosseiramente recortadas que jogava aos patos e cisnes com uma alegria infantil. “É só por isso que eu sou feliz de fazer o que eu faço”, disse, com os olhos fixos no lago. “Preferi que você visse. Se eu contasse, não ia ter a mesma graça”. Envergonhado, ele colocou a mão na mochila do motoboy e prendeu entre os dedos uma quantidade de pedaços de massa de pizza que chegou a espantar os gansos mais próximos. Olhou para o motoboy e riu de um jeito quase abobalhado.

“Eu queria te pedir um favor”, disse o motoboy. “Se você for pedir pizza hoje… lá por volta da meia-noite, quando eu já estiver terminando o serviço, eu posso subir para comer junto?”. Ao voltar para casa, no início daquela noite de sábado, rendeu-se diante do aroma que escapava dos elevadores.

 

Sérgio Roveri é jornalista, escritor e dramaturgo. Este texto foi publicado, em versão editada, na Revista Júnior #15 e agora republicado aqui sob autorização exclusiva do autor roveri.jpg45
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