sob a mesma emoção?

richarlyson Quando vemos a situação do jogador brasileiro de futebol, Richarlyson que, sob suspeita de uma suposta homossexualidade, é vergonhosamente hostilizado pelo torcedores nos estádios por onde passa é que damos conta que a  falta de informação e de conhecimento sobre o mundo atual caminham de mãos dadas e municiam o senso comum a permanecer restrito em sua visão absoluta, machista e homofóbica sobre as questões da diversidade e tolerância.

Mesmo tendo críticas a essa postura dúbia de diversos esportistas brasileiros que,  quer seja por pressões externas, por questões familiares e religiosas ou simplesmente por vergonha, não assumem sua orientação sexual, causa tristeza ver pessoas se submeterem a esse tipo de perseguição que espera o menor deslize para “demascarar” a vítima conotando à homossexualidade um caráter de erro, de comportamento indevido e que merece ser “denunciado” ao público em geral.

 

Por isso e por razões históricas desnecessárias de serem listadas aqui, homossexuais conscientes e engajados sempre procuram resgatar a idéia de “orgulho”. Não no sentido de uma soberba diante do mundo heteronormatizado. Mas de destacar e relevar o comportamento gay como algo construído a partir de valores, crenças e atitudes que nos dignificam e nos garante um status inquestionável de cidadania.

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Nesse sentido, mesmo diante de episódios de homofobia em todas as partes do mundo, dos países mais discriminatórios e criminosos às “ilhas de tolerãncia” nos locais mais avançados, a homossexualidade vem sendo incorporada ao cotidiano das pessoas numa velocidade muito maior  do que as leis e as garantias constitucionais que tanto almejamos.

Num movimento globalizado que envolve interesses de “brandings” multinacionais, ávidas de aumentarem seus mercados de consumo, uma “homossexualização” da estética masculina vai sendo quase inconscientemnte (subliminarmente diria) emulada nos “corações & mentes” dos indivíduos.

De gadjets de consumo, passando pelo culto a um corpo perfeito e chegando a uma antes intolerável preocupação de cuidado com a pele e com o uso de cosméticos, o homem contemporâneo das grandes cidades é pressionado a todo instante para sair de sua postura “troglodita” e se inserir num mundo onde beleza, saúde e bem estar fazem parte da agenda de qualquer um independente de sexo ou gênero.

Metrossexual, úbersexual e qualquer outro apelido criado tentam justificar esse caminhar para  a clonagem de um “homo sensualis”, que mesmo se mantendo dentro de matrizes convencionais masculinas,apresenta-se mais atraente, mais arrojado e preocupado com sua aparência. Uma novidade que os gays, há pelos menos 30 anos, já tinham antecipado e incorporado em seu “way of life” sem alarde e sem o aporte de milhões de dólares de campanhas publicitárias.

 torcida                                                                         

Por conta desse cenário, é lamentável vermos que um suposto machismo latino-americano ainda se mostra impermeável a essas mudanças dos tempos. Continuamos, numa cruzada de conotações fascistas, a tentar manter a imagem do “macho fodedor”.  Aquele que, provedor do sustento (?) e protetor da prole (?) se coloca diametralmente oposto a essaimagem abominável: a bicha ou viado; aqueles que não representam o homem que não faz jus “ao que tem entre as pernas” (lembrem-se que um dos presidentes eleitos, em nossa recente democracia, usou de expressão similar para identificar que tipo de homem ele era…).

 

E é essa idéia pré-concebida e consolidada, ainda que desprovida de qualquer base de sustentação lógica, que se move de geração em geração produzindo desde o medo atávico de pais que seus filhos homens nasçam “defeituosos” até à pior forma de homofobia: do homem que se percebe homossexual e assume uma postura antagônica e violenta a esse desejo como forma a impedir que sua orientação se revele. Dentro desse espectro, não é raro perceber o desconforto quando qualquer acidente homoafetivo surge entre heterossexuais colocando em risco essa frágil e inabalável certeza.

0,,16079551-EX,00 Fica fácil  perceber como o futebol, esporte de cunho predominantemente masculino e com caracterísitcas peculiares de arrebatamento emocional pouco vista em outras manifestações esportivas, se transforma numa arena fascinante e perigosa  para a manuntenção da heteronormatividade.

Envolvidos muitas vezes quase numa catarse emocional, em que a simples disputa de uma partida é maximizada no seu significado tranformando-se em solução ou desgraça para esperanças e sonhos pessoais, homens reunidos nessas gigantescas concentrações (tal qual prisões, exércitos ou internatos) são impelidos a compartilhar afeto e carinho.

Mesmo que dirigidos supostamente a um alvo externo, o time de sua preferência, é no companheiro sentado ao lado na arquimbacada, irmanado e identificado por escolhas afins ( a idéia de “torcida uniformizada”) que esse homem, avesso ao que é considerado abjeto entre dois seres do mesmo sexo, sente desejo e satisfação de abraçar e até beijar para comemorar a vitória ou o gol.

Obviamente tudo isso será justificado e considerado “normal” uma vez que faz parte de uma “olla” emocional que a todos contagia e que faz parte da tradição dos jogos de futebol desde seus primórdios. Pessoas extremamente felizes tendem a expressar entusiasticamente essa felicidade. Da mesma forma que se justifica outras situações parecidas nos eventos como o carnaval ou as festas de turmas escolares. Nessa hora, o contato físico entre pessoas do mesmo sexo, comumente vista como depravação e com reprovação moral, ganha um áilibi de pureza e de aceitação tácita.

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      Nada mais nada menos do que, para os homossexuais, são efetivamente suas manifestações emotivas mais comuns. Independente dos encontros íntimos, realizados consensualmente por dois indivíduos em busca de satisfação de seus desejos, o que homems e mulheres gays buscam e se mobilizam cada vez mais é justamente ter o mesmo direito que heteros, quando envolvidos em suas comoções coletivas, se permitem : externarem seus afetos sem se sentirem julgados ou ameaçados ao abraçar e beijar o amigo demonstrando alegria e contentamento.

Não cabe a nós julgar se esse contato, episódico ou não, possui outros interesses ou significados escusos. São momentos que a emoção transbordada une pessoas de uma forma calorosa e afável. O que, acho que todos concordam, é muito mais valioso do que ver as situações deprimentes e deploráveis de torcidas se degladiando de forma sanguinária e violenta.

 

Essas massas masculinas que, semanalmente, acorrem aos estádios em busca de manifestar e extravasar suas ansiedades vão em busca (salvo os agrupamentos psicoticamente já comprometidos) de sentirem prazer. Pela vitória, pela habildade de seus ídolos e pela beleza que o futebol lhes proporciona. Ou seja, homens vão em busca de verem outros homens e sentirem prazer e desejo de estarem juntos.

Nenhuma diferença,visível, do mesmo impulso que levam dois homens a se encontrarem e torcer um pelo outro no seu estádio particular.

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4 Respostas to “sob a mesma emoção?”

  1. Luiz, querido, belíssima reflexão. Este caminho reflexivo é dos mais importantes atualmente, na minha opinião: pensar sobre como as fronteiras entre gênero, heteronormatividade e afeto são tênues, muitas vezes difusas, permeáveis a pequenas variações de conceito, como é o caso de um jogo de futebol ou o confinamento em um presídio. Adorei o texto.

  2. Belo texto, Luiz! E o sorriso de felicidade do Richarlyson na foto? “o que homems e mulheres gays buscam e se mobilizam cada vez mais é justamente ter o mesmo direito que heteros, quando envolvidos em suas comoções coletivas se permitem : externarem seus afetos sem se sentirem julgados ou ameaçados ao abraçar e beijar o amigo demonstrando alegria e contentamento”, Trecho lindo!

  3. Jisuis Says:

    Eu ja falei… eu so não caso pq não me dá bola. [moço comprometido!]
    rsrsrsrs
    Um texto maravilhoso, concatenando os dados, as perspectivas históricas e as premissas ideológicas… questionando, fomentando e incitando.

  4. Mônica Says:

    Texto belíssimo!!

    Amei cada palavra.

    Luiz, vc me surpreende a cada dia.

    As frases, as fotos, tudo perfeito!

    Parabéns!!

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