sergio roveri

adamgarcia

Poucas coisas o irritavam mais nas noites de sábado do que o cheiro de pizza que invadia com igual incômodo os dois elevadores do seu prédio. Ele sempre acreditou que aquele aroma, em que sobressaíam de maneira indisfarçável rastros de cebolas e lingüiças, era a principal prova da existência de vidas monótonas ao seu redor. Vidas que, em sua compreensão contaminada de inquestionável soberba, haviam se atrofiado tanto ao longo dos anos que hoje podiam ser acomodadas nas mesmas caixas de papelão em cujo interior as pizzas trepidavam ao ritmo dos baques do elevador. Em seu íntimo, ele sabia que era uma forma preconceituosa de diagnosticar os seus vizinhos, mas ele nunca acreditou que a melhor tradução da felicidade pudesse ser a imagem de um queijo derretido escapando dos lábios num sábado à noite.

Mas naquele sábado ele concordou que precisaria se render. Havia acordado às sete da noite, confuso e enjoado depois de um chill-out em que os copos de vodca e uísque repousavam sobre bandejas nas quais as carreiras de cocaína tinham traçado irresistíveis pegadas. A cabeça pesava e o estômago doía. Devia ser fome. Àquela hora, sabia, seria impossível encontrar companhia para jantar. Lembrou-se, sem muito ânimo, do imã que havia grudado em sua geladeira com o telefone da pizzaria. Resistiu em telefonar porque, se o fizesse, acreditava que em poucos minutos iria se igualar os vizinhos que ele tanto desprezava. Olhos em sua despensa: um vidro pela metade de shoyu, uma lata de ervilha e uma embalagem de Bis com a data vencida. Discou e encomendou uma pizza média, a mais simples do cardápio. Margherita, disseram do outro lado da linha. E três latas de Coca Cola normal.

Cinco minutos antes do previsto, o interfone tocou. O motoboy trazendo a pizza estava à sua espera na calçada.  Desceu com o cheque já preenchido. Nestas horas, pensou, era sempre bom ganhar tempo. O rapaz conferiu o valor, agradeceu os dois reais a mais pela gorjeta e pediu para que ele anotasse o número do celular do verso. À falta de caneta, usou a do motoboy. “O senhor é novo aqui no prédio?”, perguntou o motoboy, então com a viseira do capacete levantada, enquanto ele anotava o telefone. “Nem novo e nem senhor”, respondeu, mal-humorado. “É que pizza o senhor nunca pediu”. Ao levantar a cabeça para devolver a caneta, deparou com dois olhos negros e curiosos, que o observavam entre as grades do portão. Negros como as azeitonas que, pouco mais tarde, ele encontraria decorando sua pizza. “É que”, balbuciou hipnotizado pelo olhar do motoboy, “eu não gosto tanto assim de pizza”. O rapaz o encarou por alguns segundos em silêncio, baixou a viseira do capacete e respondeu que daquela ele gostaria.

Comeu apenas metade da pizza. O que não o impediu de, na sexta-feira seguinte, fazer um novo pedido. E assim na terça, na quinta, e assim no outro sábado. Jogava fora as bordas da pizza, grossas e mal assadas. Às vezes, jogava fora o recheio também. O que o alimentava, a iguaria das suas noites, ainda que o excesso de romantismo e a infantilidade da situação o incomodassem profundamente, eram os olhos negros do motoboy. Os olhos de azeitona. As azeitonas que, ainda que murchas e pequenas, ele se recusasse a jogar fora.

No fim de tarde do terceiro sábado, o interfone tocou. O motoboy havia chegado. “Mas eu não pedi nada”, disse ao porteiro. “Ele mandou dizer que é por isso mesmo que ele veio”. Ele desceu e, pela primeira vez, viu o motoboy sem capacete , seus cabelos que, fossem mais longos, seriam encaracolados. “Tem uma coisa que eu faço todo domingo à tarde”, disse o motoboy, antes mesmo que o portão se abrisse. “Eu faço sempre sozinho, mas fiquei com vontade de te levar desta vez”. Ele olhou para aqueles olhos negros, que à luz da tarde nem tão negros assim eram, e não sentiu medo. Sentou-se na garupa, vestiu o capacete cinza que o motoboy lhe trouxera, e ficou feliz por, depois de muito tempo, se permitir ser conduzido.

Ibira
No sábado de ruas mais desertas, em menos de 15 minutos estavam no Ibirapuera. Caminharam em silêncio até o lago, sentaram-se na grama e, de dentro de sua bolsa, o motoboy retirou um mundo de fatias de pizza assadas e grosseiramente recortadas que jogava aos patos e cisnes com uma alegria infantil. “É só por isso que eu sou feliz de fazer o que eu faço”, disse, com os olhos fixos no lago. “Preferi que você visse. Se eu contasse, não ia ter a mesma graça”. Envergonhado, ele colocou a mão na mochila do motoboy e prendeu entre os dedos uma quantidade de pedaços de massa de pizza que chegou a espantar os gansos mais próximos. Olhou para o motoboy e riu de um jeito quase abobalhado.

“Eu queria te pedir um favor”, disse o motoboy. “Se você for pedir pizza hoje… lá por volta da meia-noite, quando eu já estiver terminando o serviço, eu posso subir para comer junto?”. Ao voltar para casa, no início daquela noite de sábado, rendeu-se diante do aroma que escapava dos elevadores.

 

Sérgio Roveri é jornalista, escritor e dramaturgo. Este texto foi publicado, em versão editada, na Revista Júnior #15 e agora republicado aqui sob autorização exclusiva do autor roveri.jpg45
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4 Respostas to “sergio roveri”

  1. Mônica Says:

    Conto excelente!!

    ADOREI!!!

  2. Muito legal o texto e bem hipnotizante.

  3. Rapaz, muito lindo o texto… Ao final, fiquei com lágrimas nos olhos (ainda bem, pois isso prova que não me transformei, ainda, num daqueles vizinhos do narrador, que se enfurnam em seus apartamentos… nem compro pizza por telefone, pois prefiro ir à pizzaria, circular pela cidade).

    Adorei o texto, muito bem construído… Vou copiar e citar a fonte…

    Abraços e continuem divulgando literatura de altíssimo bom gosto, como este exemplo.

    Valdeck Almeida de Jesus
    Escritor, Poeta e Jornalista
    http://www.galinhapulando.com

  4. Bacana o texto, tinha lido da Júnior.

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