espera de uma vida

cliff

 

Carlinhos estava decidido. Aquele seria seu último dia de vida. Nada mais fazia sentido, para ele. O mundo era cruel e as pessoas aproveitadoras.

Mesmo convivendo com uma encantadora família que aceitava sua homossexualidade e apoiava cada um de seus empreendimentos, e tendo um dos empregos mais bem remunerados de sua cidade, não conseguia conviver com o sentimento de solidão que dele se apoderara desde que Roberto o abandonou, há cinco anos atrás.

Como cenário de seu suicídio, havia escolhido uma praia pouco frequentada de Salvador, cidade em que vivia. Subiria ao ponto mais alto da praia e, lá de cima, se lançaria em direção às pedras pontiagudas, contra as quais seu corpo se chocaria com toda força, e ele conseguiria, por fim, repousar definitivamente o seu espírito.

Esperou uma manhã escura do mês corrente, agosto. Fez-se, enfim, uma manhã nublada e de grande ventania, no mês mais desgostoso do ano, tal qual havia desejado. Conhecera aquele local ocasionalmente, em um passeio com amigos, onde foram contemplar o pôr-do-sol.

Caminhou até a mais alta das pedras. E, chegando ao exato local de onde saltaria, surpreendeu-se com um rapaz de cabelos negros e cacheados, ali sentado, como se aguardasse por algo ou alguém.

– O que faz aqui? – pergunta Carlinhos, demonstrando-se ofendido com a presença do (belo) rapaz no local, a atrapalhar seus planos.

– Aguardo por alguém – respondeu, sem sequer olhar para o rosto de Carlinhos. Os olhos do belo rapaz perdiam-se no horizonte. Em seu peito, expectativa e esperança se misturavam.

– Vai demorar?

– Não sei ainda. Por quê?

– Gostaria de fazer algo, mas sua presença me atrapalha…

Fitando agora Carlinhos, o rapaz questiona:

– Tem mesmo que ser aqui? Esta praia é tão grande.

– Vim me suicidar! – grita Carlinhos.

Sem demonstrar muita surpresa, o rapaz responde:

– Então volte amanhã. Estou esperando alguém, e só sairei daqui mais tarde.

“Como é que alguém pode ser assim tão frio, o ponto de não se importar com uma pessoa acaba de lhe dizer que vai se suicidar?”, questiona Carlinhos. E, mesmo achando que ninguém respeitava a sua vida, resolveu respeitar o espaço do rapaz de cachos negros. Afinal, ele havia chegado antes às pedras.

– Tudo bem. Voltarei amanhã mais cedo, pra terminar logo com isso.

Carlinhos então retornou para sua casa.

No dia seguinte, não foi ao trabalho. Saiu bem cedo rumo às pedras na praia. Antes de dar continuidade ao seu plano, contemplou a beleza do mar misturando-se ao azul cinzento que encobre o céu. Quando estava pronto para pular, assustou-se com a voz grave que vinha do seu lado esquerdo:

– Chegou cedo, hein rapaz? Está mesmo disposto a dar cabo da própria vida, não é?

– Que susto… Você aqui novamente?

– Continuo à espera de alguém… O encontro não aconteceu ontem, por isso estou aqui novamente.

– Não aguento mais tanta solidão… – queixou-se Carlinhos ao rapaz.

– Quer se matar por se sentir solitário?

– Sim. Também…

– Se não quiser, não precisa falar sobre o seu problema. A propósito, meu nome é Eduardo.

– O meu é Carlos, prazer… Uma pena nos conhecermos nestas circunstâncias…

Alguns barcos se aproximaram das pedras lá em baixo e, ao percebê-los, Eduardo sorriu sarcasticamente.

– Por que está sorrindo deste jeito?

– Vejo que, mais uma vez, você terá de adiar seu suicídio para amanhã. Os barcos de turistas lá embaixo só sairão ao final da tarde.

– Como sabe?

– Venho aqui já há algum tempo… Você é engraçado, no bom sentido. Mas é uma pena… Seu objetivo terá de ser adiado mesmo por mais um dia…

– Tudo bem, já que não tem outro jeito… Decidi que seria aqui minha despedida desta vida, e aqui será! Voltarei amanhã. E, para conseguir segurar a ansiedade, apelarei para alguns chocolates. Amanhã estarei novamente aqui, bem cedo, para concluir meu ato, sem falta. – decidiu Carlinhos.

Eduardo o acompanhou com o olhar, até vê-lo se misturar ao horizonte. Em seguida, sorrindo, voltou novamente os olhos para o oceano. Desta vez, porém, havia algo novo, que nem mesmo ele sabia do que se tratava.

Já Carlinhos caminhava de volta para casa, intrigado com a ‘petulância’ de Eduardo, que há dois dias atrapalhava seus planos.

A manhã daquele dia já não era mais nebulosa. O sol começava a despontar do outro lado da praia, por trás de Carlinhos, que se postava ali parado, contemplando a infinidade do mar à sua frente. Olhou para os lados à procura de Eduardo. Deveria se sentir alegre, sabendo que não mais seria interrompido, mas o desconforto tomou conta de sua alma. Passou a noite inteira pensando em chegar às pedras. Pressentia, no entanto, que algo o impediria de suicidar-se novamente. O que seria desta vez? O que Eduardo poderia dizer-lhe naquela manhã? Pensava em Eduardo.

Lembrou-se da imagem do rapaz sentado ali nas pedras aguardando pacientemente por algo que poderia nunca chegar. Afinal, quem ele aguardava tão esperançoso?

Ele acreditava em algo, mesmo sem saber exatamente em quê. Olhou para trás e percebeu o dourado do sol a se expandir pelo céu e envolver a areia, as pedras, o mar. O cenário agora era outro. Pensava consigo mesmo, não tinha mais a manhã fria e escura, mas também não tinha mais a coragem necessária para concluir seu objetivo. Por alguns segundos, chegou a sentir falta de Eduardo. Aliás, era para vê-lo que iria às pedras naquela manhã. Saiu de casa pensando: “O que ele me dirá hoje?”

Baixou a cabeça e falou em voz alta, como se questionasse a si próprio: “Será que ele encontrou o que tanto esperava?” Uma voz grave, já conhecida, surge por trás de Carlinhos e lhe responde:

– Sim encontrei.

– Desculpe, não o tinha visto aí.

– Estava lhe observando de longe.

– Mas me fale de sua conquista, do que encontrou…

– Pois é. Encontrei quem eu tanto esperava, e estou feliz por isso.

– Que bom. No meu caso, acho que perdi um pouco da coragem que tinha. Apesar de ter mais um motivo agora.

– Pensei que já tivesse desistido.

– Por que pensou isso?

– Você disse que se sentia solitário…

– Ainda me sinto…

– Mas não está… Não mais. – Eduardo toca o ombro de Carlinhos e, olhando dentro de seus olhos, conclui:

– Já pensei em muitas bobagens, e percebi que nada daquilo resolveria efetivamente a minha vida. Um dia, assim como você, decidi pular destas pedras e enterrar de vez os problemas de toda a minha existência. Após refletir, resolvi dar um tempo em minhas amarguras e permitir que as pessoas se aproximassem de mim. Quando vi você chegando às pedras, percebi sua beleza natural, apesar do desespero em seus olhos. No segundo dia, vi que sua determinação tentava lhe abandonar. Por isso agi assim. Hoje percebo a esperança acenando para você, implorando-lhe que dê a si próprio mais uma oportunidade. Fique comigo, você é a pessoa que eu tanto esperei.

Carlinhos surpreende-se com aquela declaração de Eduardo. O sol dourado de uma bela manhã espalha-se por todo o horizonte, assim como a luz que emana dos olhos de ambos. O mar sorri feliz, assim como é o sorriso que se abre nos lábios dos dois rapazes. Um abraço forte é uma promessa de que ambos iriam tentar a felicidade. Um beijo apaixonado sela o pacto de vida nascido ali.

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Thumbnail via WebSnapr: http://www.aramistododia.blogspot.com

José Ricardo Oliveira é estudante de jornalismo e artista plástico. Em suas exposições, para cada tela, o artista escreve um texto (poema ou poesia) que é exposto paralelamente. Mesmo tendo realizado somente três exposições dentro do estado da Bahia, José Ricardo já tem seu trabalho divulgado no Rio de Janeiro, São Paulo e Dinamarca. Como jornalista, é responsável pelo blog Aramis, Todo Dia 

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Uma resposta to “espera de uma vida”

  1. Mônica Says:

    Simplesmente MARAVILHOSO!!!

    Amei!

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