a caça às tias

No meio deste caos, onde a elite intelectual do país incentiva que se atire merda em bichas, onde diversos países no mundo criminalizam a homossexualidade com pena de morte e NÃO HÁ qualquer manifestação eficiente por parte de quem se diz “preocupado com os direitos humanos”, quando você olha tudo isto, estes absurdos, e pensa que não tem como piorar…

Aí vem alguém e diz: “se os gays fossem discretos, isto não teria acontecido. Isto acontece porque ficam se pegando na rua.”

E eu fico P!!! da vida.

Sabe por quê?

Porque esta criatura tem razão. Não pelo motivo que imagina, mas tem razão.

Não, não acho que o povo glbtxyz deva voltar todo pro armário e isto vai acabar com a violência.  Contudo, é inegável que a violência é a manifestação última da revolta pela nossa incapacidade de nos submeter. Insistimos em não existir rebaixados, humilhados e confinados; libertamos-nos do jugo da moral do outro e decidimos ser felizes.

A violência a que somos expostos é a tentativa da sociedade heteronormativa de nos enrustir. “calem-se ou serão atingidos”; “escondam-se ou serão alvos”; “fujam ou serão caçados”.

A violência quer nos subjugar, assumir o controle da nossa vida.

Controle este perdido quando saímos do armário e deixamos de ser controlados pelo poder absoluto da ofensa, do preconceito alheio.  Quando deixamos de viver 24 horas por dia interpretando personagens, inventando histórias, mentindo, queimando fosfato com o objetivo último pior que não dizer de si, para desdizer do que se é.

Quando abrimos a boca para ‘sair do armário’, incomodamos todo mundo muito mais. Porque não se trata apenas de assumir a homossexualidade. Trata-se de negar-se enquanto heterossexual, negar a heterossexualidade presumida, negar a exclusão discursiva de ser quem se é – um ‘não-hetero’, um gay.

Quando saímos do armário, quando trazemos nossa vida privada para a esfera pública, destruímos o poder primevo da repressão heteronormativa – a exclusão do sujeito do discurso – nos assumimos sujeitos e falantes. Deixamos de estar à margem, presos no discurso do outro, submetidos às reduções do preconceito. Somos responsáveis pelo nosso destino, pela nossa vida. Vivemos como queremos e não como querem que não sejamos.

Isto é absurdo. Alguém que tenha autonomia de sua existência e seu discurso a ponto de romper com a rede de ofensas opressoras, a rede de humilhações que restringia a vida satisfatória ao armário? Inadmissível. Coloca em risco toda a capacidade cruel das nossas instituições. Será punido com a violência com a qual ameaçamos TODOS os que são diferentes.

Sim. Nós nos rebelamos, nos revoltamos e conquistamos, quotidianamente, nossa liberdade. Estamos todo dia construindo um ‘out’ que nada mais é que dizer “Eu não aceito este não-lugar que você tem para mim, este julgo, esta acusação, esta pré-punição que você me empurra. Eu sou melhor que isto, eu não caibo nesta pequenez toda. Chega!”

Por tanto, cacem as tias, derrubem as bichas, queimem as sapatas, castrem os travecos!

Rápido, o tempo urge!

Eliminemos todos aqueles que estão felizes a ser quem são, pois sua felicidade hedionda me incomoda em minha mesquinhez miserável, nesta minha vida insossa, cujas alegrias só surgem quando posso transformar a vida dos outros nesta minha vidinha de merda.

Cacem as tias. Detenham a autonomia, o desejo, a liberdade.

Ou tentem.

Porque somos muitos. Cada vez tomamos mais consciência que sair do armário é tomar as rédeas da própria vida. Somos cada vez mais.

A opressão não vai durar para sempre.

Preparem as malas. Com merda, morte e que mais inventarem, vocês vão ter de mudar.

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2 Respostas to “a caça às tias”

  1. flavio nardy filho Says:

    Dois errados não fazem um certo. O ódio e a ignorância são genitôres do preconceito. Fazer-se perceber, sem ser notado,de forma tranqüila é a melhor maneira de combater a homofobia. A persistência e sua ação constante e incisiva vão determinar sua eficácia. De resto tudo é reação ao mesmo estímulo. Ando públicamente por ai e sempre me trago comigo,de maneira cortez, como de fato o sou.Amo a paz,a beleza, o amor.Necessito disto ´para continuar sendo eu mesmo. Não tenho caminho novo, o que tenho de novo é o jeito de caminhar, como convém a mim e aos que vão comigo pois já não ando mais sozinho. Qualquer maneira de amor vale a pena.

  2. Arthur - HoJE Says:

    “Eu não aceito este não-lugar que você tem para mim, este julgo, esta acusação, esta pré-punição que você me empurra. Eu sou melhor que isto, eu não caibo nesta pequenez toda. Chega!”

    Que maravilha poder ler isto!
    Num momento em que a onda relativista do bom mocismo toma as ruas escorada pela ‘revista de maior circulação nacional’ é imprescindível deixar claro que ‘nunca antes na história deste país’ conseguimos chegar, de fato e de direito, a uma conquista efetiva, legal e justa.
    E não apenas ‘nunca antes…’, é NUNCA mesmo!!!

    O pouco que temos foi galgado a sangue e caras dadas a tapas, nada nos foi ‘concedido’ e o mínimo por que lutamos nos é sistematicamente negado em meio a negociatas de apoios políticos.

    Que os deuses, quaisquer que sejam, a ouçam quando diz:

    “Porque somos muitos. Cada vez tomamos mais consciência que sair do armário é tomar as rédeas da própria vida. Somos cada vez mais.

    A opressão não vai durar para sempre.

    Preparem as malas. Com merda, morte e que mais inventarem, vocês vão ter de mudar.”

    Mas a vida me ensinou a não esperar pelos deuses…
    Então, sejamos nós os deuses de nossos destinos e assumamos nossos papéis de formadores de opinião, nem que seja, e será, aos gritos!!!

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