Uma Festa Virtual

A promessa dos sites de pegação é clara: Facilitar encontros entre homens. Sites como o Manhunt e o Disponível devem receber adesões diárias por parte de um público interessado em encontrar alguém, numa ou noutra medida, para propósitos diversos. Fora o “clássico” Batepapo UOL e outros sites com propostas similares a estes.

Poderia eu alicemente suspirar e dizer “Uau, as novas tecnologias e a internet estão melhorando a vida dos gays”. Tá, confesso: De certa forma, eu penso assim mesmo, mas hoje preciso falar aqui é de uma visão menos idealizada desse ambiente virtual de interação entre homens gays. Não é porque eu adoro a internet que vou deixar de refletir sobre ela, certo? Certo!

Primeiro vamos oferecer algum contexto para quem não sabe como funcionam as coisas. Na maioria desses sites, você pode criar um perfil e colocar uma descrição sua e de quem você está procurando, além de acrescentar fotos e fazer buscas por pessoas com características específicas. Se você mora na Zona Sul de São Paulo e quer encontrar perto da sua casa um urso afim de sadomasoquismo e leather, é só dar uns cliques, e, se alguém preencher as características da busca, logo o perfil aparecerá na tela para que você possa entrar em contato e combinar algo.

É tudo muito prático. O advento desse meio abriu um leque bem interessante de possibilidades nas relações gays, por exemplo. Quando eu morava no interior de MG, era minha única maneira de conhecer outros gays, porque não havia um ambiente friendly por lá, e eu não tinha conhecimento de um “meio” com conhecidos gays em comum, um “canal”. A web surgia como a possibilidade de romper as fronteiras da invisibilidade social gay para poder reunir pessoas.

No entanto, é bem previsível eu dizer que essa possibilidade não é tão plana assim e esses sites apresentam perfis que nem de longe rompem com invisibilidade ou se mostram interessados em contato real, mantendo na rede todos os vícios de homofobia internalizada do armário irredutível. Isso acontece sem surpresa alguma, porque a rede não inventa coisas e não podemos dizer que isso “são coisas da internet”. Tudo o que vai parar lá veio de algum lugar, e se a pegação online tem a cara que tem hoje, é porque uma série de fatores contribuiu para que esse ambiente ficasse assim.

Isso acaba deixando esses sites com uma feição muito peculiar, diferente do armário de antigamente. A exposição do indivíduo é muito mais controlável, e pode ser mínima ou mesmo nula. Não obstante, a vida sexual dentro do armário pode ficar tremendamente mais movimentada. A pessoa encontra satisfação sexual sem qualquer necessidade de “se arriscar” indo a uma boate GLS, por exemplo. Há no “armarionline”, então, uma interatividade muito alta em um departamento, convivendo com uma interatividade praticamente inexistente em outro. Não que os locais de pegação “presencial” não envolvam as mesmas características: No escuro da dark room, todo mundo é apenas um pinto. Mas isso adquire contornos muito curiosos no mundo virtual.

Já pensou se fosse o contrário, e o meio gay presencial é que fosse influenciado pelas práticas da web? Vamos imaginar um tipo diferente de reduto gay, nesses termos. Logo na recepção, o indivíduo faz o seu login, ops, quer dizer, check in, escolhendo direitinho como vai se caracterizar lá dentro. O cara que usa perfil sem qualquer informação pessoal coloca uma roupa toda preta que esconde todas as formas do seu corpo. O que põe fotos de corpo sem mostrar o rosto põe um saco de papel na cabeça pra proteger sua identidade. O que mostra apenas pinto e bunda entra numa caixona móvel com glory holes. O que usa perfil fake pega a fantasia e encarna um personagem. Uns com roupa, outros pelados. Alguns poucos surgem fantasiados de gente comum, mas todos com suas plaquinhas de interesses pra facilitar as coisas. Na plaquinha do João, lê-se seu nick: “empres@rio_dot@d@o” e sua descrição: “Ativo, 40 anos (mesmo que ele tenha 50), 19cm (mesmo que ele tenha 14), procuro caras não afeminados (mesmo ele sendo) para sexo. P.S.: Odeio viadinhos”.

O local é bem parecido com um trepódromo. Tem um barzinho para as pessoas conversarem o mínimo necessário, e algumas cabines para os poucos que resolverem fazer algo além disso.  Lá dentro tudo transcorre na maior normalidade e diversão. De tempos em tempos, um megafone grita coisas como “Passivo quer pinto acaba de entrar na sala!”, ou “Estão procurando um cara magro e pauzudo, tem algum aí?”.

Alguns caras de roupa preta ficam sentados num canto sem fazer nada. Outros conversam entre si tentando arrancar informações dos outros, sem expor as próprias: “Como você é? Você é casado? O que faz?”, “Ah, eu? Eu sou branco, alto, forte, loiro de olhos azuis, casado e discreto, e sou engenheiro! Só não tiro a roupa preta aqui para me preservar!”

O outro, saradíssimo, sai peladão no meio do bar escondendo a cabeça, com um monte de caras correndo atrás dele. Perguntado se ele não ia transar com alguém, ele respondeu que não, pois o divertido era ter o séquito de fãs tratando-o como algo inatingível.

Outro, com carinha de anjo, fica timidamente sentado esperando alguém chegar nele. Em sua placa, lê-se: “Sou um cara sensível que só aceita relacionamento sério com caras sérios”. Alguns mocinhos parecidos chegaram perto. Um deles estava pelado, aí o anjinho disse: “Sai pra lá, seu promíscuo!”. Outro estava igual ele, mas aí o anjinho começou a perguntar: “Você está afim de relacionamento sério, sério, sério mesmo, né? Senão não quero!”. Ao ter como resposta um “Hm, não sei, vamos conversar, nos conhecer, ficar sem compromisso pra depois decidir”, ele disse “Não, vaza!”. Uma coisa meio “Dona Baratinha” talvez: “A Barata diz que tem sete saias de filó, é mentira da barata, ela tem é uma só, ah ra ra, oh ro ró, ela tem é uma só!”.

Os fakes são os que se divertem mais. Uns fantasiados de Kaká, outros de Bruno Gagliasso, outros de François Sagat. Saem paquerando e se achando o máximo com a repercussão. Quando os chamam pra ir transar, eles pedem desculpas e dizem que usando a fantasia não dá, mas que se a pessoa quiser correr o risco de encontrar um sujeito mais feio que um demônio, eles podem conversar lá fora. É. Não parece algo muito inteligente. Mas há quem goste de viver grandes surpresas, não é verdade?

Enquanto isso os caras usando o caixotão de glory holes ficam lá parados esperando o primeiro que passar, ou então assediando o povo que mostra um pouquinho mais que pinto e bunda, querendo competir em pé de igualdade com pessoas completas ou quase completas distribuídas ao longo do trepódromo: “Imagina! Minha bunda / meu pau é a coisa mais sensacional, única, individual e personalizada da face da Terra. Qualquer um vai querer transar comigo vendo apenas isso!”

O estabelecimento funciona 24h por dia, sete dias da semana, e tem clientela mesmo em períodos inusitados, como entre as 3h e 5h da madrugada, longe de qualquer violência das ruas ou possibilidade de ser “descoberto”, “denunciado”, “apontado como viado”. Isso deixa seus donos muitos satisfeitos, principalmente considerando que ainda têm receitas dos cartazes que várias empresas pagam para colocar lá.

Com o passar do tempo, alguns acabam se cansando do ambiente, saem e às vezes não voltam mais. Outros acham alguém interessante e resolvem sair pra ver um filme. O anjinho vai sair de lá falando mal do lugar, dizendo que todo mundo ali é “promíscuo” e só ele presta. Conforme o tesão apertar, os fãs do saradão vão acabar desistindo de correr atrás dele para poderem pegar alguém de verdade, e vai sobrar só um caixotão de Glory Holes para o saradão saciar o próprio desejo. Os caras da roupa preta ainda estarão lá empatados querendo saber endereço, telefone, número do CPF, RG e conta bancária uns dos outros, bem como os fakes, com a diferença de serem ainda menos levados a sério no caso de responderem algo.

Mas algumas pessoas são diferentes disso. Algumas pessoas simplesmente entram, procuram o que querem, e se a noite não está boa, simplesmente procuram em outro lugar, fora dali talvez, onde as chances de encontrar gays talvez sejam menores, mas melhores. Nem tudo se resume ou tem que se resumir a essa estranha festa virtual.

Beijos.

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2 Respostas to “Uma Festa Virtual”

  1. Querido, vim ler seus textos. Essa questão do mundo virtal versus (ou complementar ao) mundo real é das mais polêmicas. E ainda veremos muita água rolar sobre o assunto. Eu, que me criei dentro do mundo digital, tenho uma (auto)percepção considerável sobre isso: meu nível de dificuldade em interagir no face a face (dialogismo comum) é maior do que eu desejaria – claro, falo especificamente para fins afetivo-sexuais, pra bater papo eu sou fera, hahaha. Isso, em parte, é fruto da minha “alfabetização sexual” dentro desse mundo virtual de chats e similares. Como bem colocado, uma hora cansa. Dentro e fora do mundo virtual, seguiremos rodeados da fauna humana: gente resolvida, gente má resolvida, gente bem consigo mesma, gente de mal com o mundo… a diferença é que as chances no mundo real são… mais reais. Beijão. =)

  2. bom texto, tenho experiência considerável neste ‘universo’ e, é triste perceber, a maior parte dos usuários deste tipo de serviço cai nestas categorias. eu ainda acrescentaria outras: a dos que não sabem o que querem, mas querem; a dos que se moldam conforme o que o seu ‘alvo’ quer e adoram criar histórias sobre si, desaparecendo depois de uma transa; a dos ‘heteros curiosos’… enfim, infelizmente os estereótipos abundam e as particularidades são vistas como idiossincrasias. porém, como o luiz henrique falou antes de mim, há uma geração que foi criada dentro deste universo e, por bem ou por mal, é a forma pela qual ela se escola. sou de uma geração um pouco anterior, pra quem a internet ainda tinha um clima mais leve, fazia-se amigos no mIRC mas a verdadeira forma de conhecer mesmo um namorado era nos bares e boates e por isso, talvez, eu me canso mais rápido. ponto negativo pra mim e pros meus preconceitos, claro, até porque, como o próprio texto fala, o que está nos sites é nada menos que o retrato de quem está lá fora. mesmo assim, do meu ponto de vista, estes sites têm formatos que incentivam muito os rótulos e são muito voltados para a forma, não para o conteúdo (através de descrições que devem ser breves, por exemplo). no final das contas, pra quem sabe interpretar e tem paciência, a experiência é muito válida e eu, mesmo com todos os meus receios, já conheci pessoas maravilhosas dessa forma. abraços.

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