As crianças vão bem, obrigado!

Acho que isso é o que diria qualquer casal gay que já tivesse passado pelas várias lutas árduas e diárias em busca dos direitos de amar. Sim, usei plurais: Não bastassem os percalços que cada homossexual enfrenta, numa ou noutra medida, pelo direito de amar um namorado ou companheiro, casais gays que adotam crianças constatam que essa não é a única forma de amor que lhes é proibida pela sociedade e pelas leis que esta cria do alto de suas “verdades imutáveis” tediosas. O direito de amar filhos também encontra o tom de voz da rejeição.

Gay Parents E esse tom é velho conhecido aos ouvidos já ressentidos com ele. Podemos escutá-lo no áspero desamor do “eu não vou deixar” que um pai autoritário diz para o filho que quer sair. Questionado sobre seus motivos, esse ditatorial e amável pai arquetípico (mais aceito socialmente que o pai gay) justifica-se com um “porque eu sou seu pai e te proíbo”. A imagem que podemos fazer da rejeição à adoção homoparental é bem essa: A de um discurso que não tem mais encontrado como se justificar mas mesmo assim tem insistido em apelar para a preguiçosa “ordem natural das coisas”.

Se eu tivesse me deparado alguns anos atrás com o texto “E as crianças?”, publicado na seção “Opinião” de 22/05/2010 do Jornal “Correio Popular” de Campinas, eu bem provavelmente teria uma reação passional de revolta. Mas acho que já superei essa fase. Hoje abro o site do “Family Research Council”, leio que o objetivo deles é “defender a fé” e já me dou por satisfeito e argumentado. Vejo que Jeffrey Satinover é outra conhecida figura religiosa anti-gays dos EUA e também não vejo muito o que comentar.

Pesquisas “científicas” para denunciar que o casamento gay “desestrutura a sociedade” são algo fácil de se obter, principalmente se você conta com um instituto exclusivamente dedicado a esse fim. Mas a neutralidade necessária ao verdadeiro fazer científico passou longe deles e não mandou lembranças. Aliás, isso tudo denuncia uma visão cartesiana e positivista de ciência, segundo a qual poderíamos dizer que as famílias homoparentais são “boas” ou “ruins”, “certas” ou “erradas”. Isso é ciência? De acordo com quem? Com eles, é claro. O nazismo também engendrou uma série de pesquisas para provar a superioridade ariana na época do Holocausto, o que me leva a pensar que deve ser necessário um pouco mais que títulos e dados para fazer estudos desse porte. Ética e método científico são boas pedidas.

Gay Family As negativas à família homoparental, entretanto, têm chegado um pouco atrasadas. Famílias constituídas por casais gays e os filhos biológicos de uma das partes, ou mesmo de crianças adotadas legalmente por apenas um dos cônjuges não são uma novidade que passará a existir apenas a partir de agora. O que se procura é a adaptação da lei a uma realidade já existente há tempos, gostem os conservadores dela ou não. E são famílias muito felizes, que provavelmente não foram ouvidas pelas fontes de pesquisa de Rejane Eagleton, toda temerosa que nós, os desordeiros gays, queiramos em breve instituir até mesmo casamentos entre adultos e crianças. O pedófilo egoista que a homofobia enxerga em mim lamenta não existir para confirmar esses temores…

Bem, a defesa conceitualmente frágil da “família correta” se esquece completamente que há crianças que são criadas por pais solteiros, avós, tios, outras crianças ou até pela TV, que não sofrem a terrível perda de um modelo masculino ou feminino a ser seguido, visto que qualquer pessoa do convívio da criança pode cumprir esse papel, e isso considerando que isso seja mesmo necessário, o que é bem discutível. Muito mais importante que isso é ter modelos de ser humano, que ensinem valores de amor, respeito ao próximo e apreço pela liberdade, tão em falta nessa sociedade que se importa mais com a quantificação de “entidades conjugais” do que com crianças abandonadas em orfanatos. Uma pena mesmo.

Anúncios

13 Respostas to “As crianças vão bem, obrigado!”

  1. Eu li seu artigo e comecei a arrastar a barra de rolagem pra cima e pra baixo buscando alguma coisa na minha cabeça para comentar. Porque afinal, blogs são pra isso. E aí nada me ocorreu… “Ele já disse tudo”, pensei. Mas como o artigo é o urgente, ou pelo menos um dos mais urgentes, apesar de nada ter a comentar sobre o assunto, tive uma luz. É exatamente isso que faz um blog interessante e é como passarei a me dedicar ao meu blog e a observar nos outros. Quero dizer, quando o articulista diz tudo o que se poderia esperar ler, o que fica para o leitor comentar?

    Fica a provocação para ir ainda mais além na reflexão sobre a matéria, não é? Aprofundar-se. Ultrapassar a fronteira.

    E o mote que me chamou a atenção e que vai ocupar o meu cérebro nos próximos dias foi: o direito de amar um filho, ou de ter um filho para amar. Mais do que uma obrigação, do que uma deliciosa caridade, do que um acidente do coração, do que a coincidência de um encontro, mais que tudo isso, o direito de ter alguém para amar como filho.

    Ganhei minha semana, obrigado Adriano.

    • Muito obrigado novamente pela leitura e pelo retorno tão positivo, Benjamin! Muito mais ainda pode ser dito. Tentei ser mais sintético indo diretamente nos pontos em que o texto publicado no jornal precisava ser atacado, mas infelizmente temos um mar de desinformação a enfrentar no que diz respeito a esta questão.

      Como diz o Luiz Cláudio: Sigamos!

      • Pois é Adriano, você sabe que meu foco é católico. E um dos argumentos de que os católicos contrários se valem é que os gays preocupam-se exclusivamente consigo mesmo e deixam de olhar sob a perspectiva das crianças.

        Eles alegam com base na tradição, que as crianças precisam da referência materna e paterna simultâneamente. Dizem que a criança precisa de alguém a quem chamar de “papai” E “mamãe”. Outro argumento que usam para buscar apoio dos incautos é que as crianças serão constrangidas no futuro, que terão que explicar aos coleguinhas porque têm dois papais ou duas mamães. Esses argumentos são de réplicas fáceis.

        O que é curioso, é que esse olhar a adoção pela perspectiva das crianças exclui também, e contraditoriamente, o direito à criança de amar dois pais ou duas mães, o direito de abrir-se à diversidade humana e evoluir com isso no Amor ao outro independentemente da orientação sexual que esse outro possa manifestar.

        A postura é hipócrita e preconceituosa. Querem o nosso olhar para o interesse da criança desde que se permita a ela cresça com a idéia de que a norma heterossexual é a única natural e possível. O que querem na verdade é que as crianças a adotar não tenham acesso à formas de vida diferente.

        A violência, e é violência, nesses casos é contra a família homoparental, ou seja contra pais homossexuais e contra filhos de pais homossexuais. O que configura homofobia. Pior, fobia de Amor.

        Claro que não são todos os católicos homofóbicos. A Igreja Católica também está dividida e ao que se vê, os conservadores vêm perdendo terreno dentro dela mesma.

  2. Arthur 'Ghost' Says:

    BRAVO!!!

    Vale dizer que ‘eu já sabia!’?

    Adriano se firma como o ‘tradutor’ das coisas que a emoção me entala na garganta e, por falta de tempo, por cansaço, por raiva até, não tenho conseguido escrever.

    O instiguei porque sabia que o faria, e muito bem.
    ‘Eu já sabia!’ porque o chamei, convoquei mesmo, para aplacar minha ânsia por uma resposta àquela ‘tradutora’ de objetivos escusos (mas nem tanto).

    O mérito não é meu.
    Só o alertei para o texto publicado.

    • Haha! Pois é, gente, esse texto foi escrito meio que “por encomenda”, rsrs. Quem conhece meu estilo de escrita deve ter percebido que eu fui super breve. É que estamos pensando em mandar para o jornal como direito de resposta a essa afronta, então foi por isso que tentei manter do mesmo tamanho que o dela.

      O Arthur me mostrou o que foi publicado no jornal, e bem provavelmente já sabia mesmo o tipo de coisa que ia me deixar tão indignado quanto ele. Quanto mais a gente adquire “conhecimento de causa”, mais alguns tipos de proto-argumentos ficam fáceis de identificar e combater, e é daí que vem nossa sintonia temática… e a força necessária para não nos deixarmos vencer ou calar.

      Beijos, Arthur.

  3. Leonice Says:

    O meu tcc foi sobre “o direito patrimonial nas relações homoafetivas”, quando iniciei minha pesquisa, tive varias pessoas me apoiando e outras nem tanto, estas sempre chamando a minha atenção para que eu me atesse ao fato de que as pessoas poderiam me considerar gay também, fato este, que jamais me preocupou, mesmo pq defendo o direito de todos dizerem e se experessarem como quiserem. Enfim, quase direcionei o meu tema para adoção, pois nas minhas pesquisas, encontrei diversas situações com grande dificuldade para adoção, e todas sofrendo muito, com decisões judiciais descaradamente homofobicas, ou com preocupações hipócritas, desumanas, E na grande maioria das vezes a preocupação com o fator “homoafetivo” sempre vindo em 1º lugar do que a preocupação com o descaso com que o Estado cuida de nossas criançãs, é preferivel que fiquem a margem da sociedade do que terem um lar, é preferivel incharem os orfanatos do que terem alguem que as ame, é preferível ficarem com pais bebados, drogados, que os espanquem do que terem um casal gay que os adote, são valores distorcidos, que me faz muito mal. Parabens pelo seu blog!!

    • Concordo, Leonice. O maior erro dessas críticas à adoção homoparental é falhar em olhar o essencial: A família é uma entidade que se caracteriza pelos laços afetivos e de convivência, não por ser um conjunto de homem + mulher + filho (s), como sempre é dito com muita propriedade pela Maria Berenice Dias. Até porque há MUITAS famílias tradicionais que não são famílias no sentido real da palavra, como as que condenam filhos gays a manter segredo sobre seus sentimentos a vida toda, privando-os do amor paterno também. Eles estão se importando com os problemas errados.

      Beijos e obrigado pela leitura e comentário do texto! Bem vinda ao blog da HJE.

  4. Leonice Says:

    Obrigda a vc pela oportunidade!!

  5. Como sempre, arrasou no texto.

    O que mais me intriga é que se as crianças estão para adoção foram entregues por casais héteros e aceitos pela sociedade em geral. Então, constato que esses casais homos que buscam essas crianças para adoção possuem mais responsabilidade, senso crítico e amor para lidarem com essas crianças.

    E aquela historinha: Veem no filho uma forma de multiplicarem o amor.

    :)

    • Bem lembrado, Isley. Os casais que abandonaram essas crianças eram heterossexuais, mas as pessoas não acham razoável atacar a heterossexualidade como se fosse ela a responsável por esses pais serem incapazes de criar filhos. No entanto, muitos acham que se pode colocar a capacidade de casais gays criarem filhos em descrédito com base em seus preconceitos absurdos a respeito da homossexualidade. Não há como disfarçarem sua intrínseca homofobia como única explicação para sua discordância ao direito à adoção por casais gays.

      Beijos!

  6. alexmendes Says:

    Nossa, fiquei feliz de encontrar a opinião correta sobre o tema correto no exato tom que eu acho que ela deve ser para o momento em que estamos vivendo agora. Quero saber mais sobre você, sua atuação e o que você escreve.

    Parabéns.

    • Obrigado pelo elogio, Alex! A meu respeito, não tenho muito o que dizer, rs. Sou graduado em Letras (Licenciatura) e tenho uma Especializaçao em Linguística também, na qual me apaixonei pela Análise do Discurso e as leituras de mundo que ela nos permite fazer. Já trabalhei como auxiliar administrativo-pedagógico e professor de ensino superior em uma faculdade, como revisor de textos em um instituto de educação a distância, mas atualmente sou um desempregado em vias de se tornar teleoperador de SAC mal remunerado (haha). Sempre gostei de escrever, e ultimamente tenho feito isso bastante para expressar “meus” pontos de vista sobre as questões LGBT, aqui no blog. Eventualmente, também escrevo coisas mais “existenciais”, que publico (pretendo publicar mais) no meu blog pessoal: http://adrianismo.wordpress.com.

  7. Escreverei rápido, pois o tempo foge das minhas mãos. “Aliás, isso tudo denuncia uma visão cartesiana e positivista de ciência, segundo a qual poderíamos dizer que as famílias homoparentais são “boas” ou “ruins”, ‘certas’ ou ‘erradas'”. A busca por opiniões científicas sobre o certo e o errado dentro do agir social geram discussões quase religiosas e sem alcance dentro da sociedade. Eu nunca irei adotar, mas defendo imensamente a opinião daqueles que farão esse papel. Gostei do texto, muito bom.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: