se eu pudesse escolher não ser gay, eu não seria

A participação de três homossexuais assumidos na décima edição do Big Brother Brasil causou uma grande discussão entre os militantes. Alguns comemoraram com entusiasmo a presença de Dimmy, Dr Orgastic e Angélica no programa da rede Globo. Outros protestaram tendo em vista que a participação no programa não garantiria visibilidade, já que os representantes não teriam capacidade de levar o debate sobre os direitos dos GLBTs à mídia. Alguns chegaram a argumentar que Sérgio e Dicésar, especialmente, contribuiriam para uma maior estereotipização, já que os dois eram demasiadamente afeminados (discurso que esconde consigo uma forte dose de homofobia).

Na primeira edição do BBB muita gente curiosa quis comparar o programa a uma experiência científica, como se os participantes fossem ratinhos de laboratório. A realidade, porém, mostrou que não era nada daquilo. Nada de ciência. Nada de filosofia. Imagem, apenas. Uma boa produção, roteiro e edição, como qualquer novela que se preze. Na décima edição os participantes foram divididos por tribos, uma mais questionável que a outra. A única tribo que parecia ter um significado era a dos coloridos (nome que “pegou” dentro do universo GLBT). A direção do programa (diga-se Boninho) foi enfática ao privilegiar a participação dos coloridos.

Quando Dicésar disse em uma conversa com a parceira Angélica que se pudesse escolher não ser gay, ele não seria, muita gente do movimento caiu em cima da diva das boates e paradas gay. Dimmy Kieer, com todo o seu brilho, não escondeu um dilema existencial que – não sejamos hipócritas – está presente na vida de grande parte dos homossexuais. É claro que é necessário fazer campanha pelo orgulho gay, no entanto, não é preciso esconder os dilemas que essa orientação traz para a vida do sujeito.

Essa semana saiu uma propaganda no site da Folha falando sobre o livro A Experiência Homossexual de Marina Castaneda (A Girafa). Sérgio Ripardo escreveu na resenha:

Nunca estamos preparados para sair do armário. Não sabemos o que dizer para amigos, parentes e colegas de trabalho. Tememos suas reações. Pagamos um preço alto por expor em praça pública nossa orientação sexual, ainda estigmatizada. O roteiro mais frequente desse rosário: alguns amigos fogem de você com medo de serem confundidos ou vistos como “metidos com gays”; as namoradas deles desconfiam de você, que passa a ser encarado como uma “ameaça”; dependendo do seu emprego, não espere entusiasmo, afinal, muitas empresas ainda consideram o assunto um tabu.

Na aula sobre machismo e homofobia que dei aos meus alunos, esta semana, eu tive que falar do Freud. Perguntei a um aluno da sala se ele gostava de bife de fígado, ao que ele respondeu: “não”. Então perguntei-lhe quando foi que ele decidiu não gostar de bife de fígado. Silêncio na sala. Aproveitei a brecha para explicar alguma coisa que eu sei sobre o Id: o campo dos desejos é impulso, é animal e é inconsciente, não faz parte daquelas coisas que a gente escolhe. Se o sujeito heterossexual está no ônibus lotado e pára em sua frente uma menina linda e cheirosa, ele não tem como segurar a ereção. A sala foi ao delírio quando eu disse isso, é claro, o que me proporcionou maior segurança para continuar o debate.

Expliquei à galera que o Superego também é inconsciente e é a parte da nossa personalidade responsável pela moral: aquelas regras básicas de convivência que são construídas ao longo de nossas vivências. Segundo Freud, o homem não seria capaz de viver em sociedade se não fosse regido por leis. Assim, o cara no ônibus logo pensaria: “putz, aqui eu não posso” e procuraria sublimar seu desejo. Essa reflexão é feita pelo Ego (parte consciente da nossa personalidade), contei eu à meninada.

Foi aí que chegamos ao ponto: e quando o menino que está no ônibus lotado, voltando do trabalho, fica excitado quando um rapaz bonito, forte e cheiroso pára em sua frente? O que ele vai pensar? A primeira coisa que vem à cabeça é um NÃO do tamanho do mundo. A mesma coisa diz a autora do referido livro em trecho que foi publicado na propaganda do site da Folha:

Com efeito, todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral. Dar-se conta de que isso, provavelmente, não acontecerá, e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante e, como em qualquer perda, há um trabalho de luto a ser feito.

Assim, não fica difícil entender a honestidade contida no desabafo de Dicésar. Essa edição do BBB foi positiva, sob o meu ponto de vista, por ter trazido à tona alguns debates que não tinham tido espaço até então.  O pessoal do Homomento registrou no seu site o aumento das pesquisas relacionadas ao verbete “homofobia” quando Dicésar acusou pela primeira vez o seu colega de confinamento (Dourado) de homofóbico.

Os que se empolgaram com a participação dos homossexuais no programa tiveram uma grande decepção quando viram Marcelo Dourado comemorando a vitória do jogo. Mas o jogo é importante pra quem? Ao meu ver, a participação de Dimmy, Serginho e Angélica promoveu uma discussão muito importante e fez com que o público pudesse ver aqueles homossexuais como pessoas comuns, não como aberrações nem como estrelas. O desabafo de Dicésar nos permite realizar outras discussões. Até quando vamos continuar comemorando o “orgulho gay” enquanto as pessoas, especialmente os mais pobres (homossexuais trabalhadores, michês e travestis), sofrem com os dilemas existenciais, com a violência e com a cooptação dos movimentos pelos interesses do capital?

Os que achavam que Angélica, Dimmy e Serginho não eram representantes dos homossexuais na televisão talvez tivessem razão. Mas quem disse que precisamos de representantes? Precisamos, isso sim, de promover um debate e pensar mais profundamente sobre nossa condição para poder transformá-la. Pessoalmente, eu acredito que a participação dessa gente naquele programa nos ajudou a criar alguma reflexão. Era só o que eu esperava deles. E, agora, eu espero que possamos usar dos elementos que nos deram para construirmos de forma mais madura e com seriedade um movimento que verdadeiramente represente os anseios da maioria dos homossexuais desse país e do mundo.

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9 Respostas to “se eu pudesse escolher não ser gay, eu não seria”

  1. Devemos continuar festejando o orgulho gay SEMPRE. Acho que a idéia de mostrar o orgulho é para que outros, que de certa forma se sintam oprimidos (seja pelo superego ou pelo que for) possa levantar a cabeça e se olhar no espelho com dignidade. Mesmo que estes não se “assumam” (odeio essa palavra) perante a sociedade, mas terão auto respeito, amor próprio. Eu não sou assumido e tenho mais do que orgulho em ser gay.

  2. Mônica Says:

    Muito bom o texto, adorei!

  3. The dear author, thanks you for a vital topic!

  4. Arthur - HoJE Says:

    Gostei do texto e concordo com praticamente tudo, mas…

    … “Até quando vamos continuar comemorando o “orgulho gay”…?” :0

    Vejo e faço uma diferenciação entre ‘comemorar’ e ‘celebrar’.
    Não vejo as Paradas como comemorações de um orgulho ostensivo, mas como a celebração da manifestação da antítese da vergonha, como um basta à opressão que nos relega à condição de cidadãos de qualidade inferior.

    Há que se compreender que a ‘orgulho’, neste caso, não se aplica o uso pejorativo de “sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba, imodéstia”, mas seu significado primário, “de grande satisfação sobre algo que é visto como alto, honrável, creditável de valor e honra; dignidade pessoal, altivez”.
    (Definições entre aspas colhidas no Dicionário Houaiss)

    É assim desejável e conveniente que seja celebrado este orgulho exatamente para marcar território e reduzir o poder da homofobia que, esta sim, faz com que todas as pessoas (e não só os mais pobres) sofram “com os dilemas existenciais, com a violência”.

    Não é uma questão de ‘luta de classes’ e a discriminação atinge a todos, dos mais pobres aos mais ricos. De formas até diferentes, porém é preconceituoso considerar que o sofrimento de um tenha mais ou menos valor que o do outro.

    Todos sofrem.

  5. eu continuo achando que existem os que sofrem mais. A maioria dos homossexuais, gays e lésbicas trabalhadores, é massacrada diariamente pela opressão. Travestis sofrem com a discriminação e a violência inclusive em seu próprio meio e, sabemos, são os mais pobres. Daqui do meu ponto de vista, quem não pode pagar por pelo conforto e segurança de uma balada GLS sofre, sim, mais dos que os que têm dinheiro pra frequentar certos lugares. ‘tá pensando que banheirão é bagunça?

  6. R. Garcia Says:

    Realmente essa idéia que vem abaixo quando pensamos, em tudo que já veio desenhado pelas sociedades do que é considerado pela grande maioria ser uma instituição família. Tipo, se pararmos para pensar no que e considerado família, daí já se tem o primeiro choque de transição que um gay tem, que por mais que ele consiga casar e ter filhos, não vai ser considerado por uma familia, ser considerado à anormalidade.
    Ser gay e mais do que “o não” quando vemos um cara bonito num coletivo urbano, e sofrer como o taxado diferente, o anormal pelo maldito etnocentrismo que a sociedade prega como ela sendo a certa, e que em tudo que ela acredita e faz seja parâmetro de comparação. Comparação? E um tema que realmente deve ser discutido, comparação de que? De perfeição? Nem vou entrar nesse assunto.
    E ter que esconder seus sentimentos de todos, e ser privado de ter um amigo hetero por causa da sua orientação sexual já é excluido por ele.
    Eu sou estudante de direito, e hoje mais do que nunca me sinto privado de várias coisas, todos os dias me pergunto se a carreira qua almejo tanto em ter vale mais do que eu realmente sou. Fico puto quando ouço que é difícil seguir carreira juridica sendo gay. E relamente dificil ser gay. Não só nesses sentidos, mas em todos. Muitos gays que conheço dizem se sentirem sozinhos.

  7. Adorei o post

    bjo

  8. Oi amigo! Ótimo post!

    Essa questão do orgulho gay é mesmo complicada.
    Eu não tenho orgulho em ser gay pela mesma razão que não tenho orgulho de ter olhos castanhos, ou cabelo preto ou 1,75m de altura ou calçar 41. Isso é o que eu sou, faz parte de mim, não é motivo de orgulho nem vergonha, simplesmente sou eu. Tem coisa mais patética do que um hetero com orgulho de ser hetero? Do tipo: “sou espada” ou “eu gosto é de mulher”?
    Usando a sua comparação é a mesma coisa que sentir orgulho por gostar de bife de fígado!
    Graças a Deus, do alto dos meus mais de quarenta anos, hoje se o “gênio da lampada” me oferecesse a chance de não ser gay eu seria muito educado, diria: “Não obrigado, estou bem assim”.

    Quando eu tinha 20 anos não pensava ou sentia desta forma, naquela época tudo era muito confuso, mas há vários anos, pelo menos uns 15, estou completamente ciente de que se eu fosse hetero seria outra pessoa, com gostos difrentes (e eu gosto do que gosto), postura de vida diferente (e gosto de minha postura), e viveria outra vida (gosto de minha vida como é). Ou seja, eu não seria eu, e eu gosto de ser eu. Longe de me achar o máximo, um erro que coloca você na posição de burro potencial porque se fecha ao novo por achar que sabe tudo, eu me “aprecio com moderação”, por assim dizer, me vejo imperfeito, incompleto, aprendiz eterno e falho, mas também amoroso, dedicado, fiel à minha ética e amigo, enfim, humano.
    E acho que é por aí que devemos começar o nosso discurso por igualdade de direitos, porque antes de semos gays somos humanos, e merecemos todos os direitos e todo o respeito e visibilidade que as pessoas que não são gays tem.
    Não se trata aqui de ser igual, mas sim (algo muito melhor) EQUIVALENTES, diferentes sim mas sem valer menos por issso.

    Penso que nossa luta começa por aí e continua no eterno trabalho de educarmos família, amigos e colegas de trabalho. No trabalho eu nem me imponho nem me escondo, eu SOU, e isso tem funcionado muito bem. Nenhum hetero se apresenta para alguém dizendo “oi, eu sou hetero”, por isso penso que não tenho a obrigação de colocar minha intimidade para estranhos, ninguém tem. Mas falo da minha vida como ela é, me lembro de uma vez em uma mesa de restaurante num almoço com colegas, uma colega me perguntou: “você mora sozinho?”, repondi,:”não, moro com meu parceiro”, sem dramas, sem esconder, naturalmente. Ninguém se espantou, não houve silêncio constrangedor e a conversa seguiu tranquila.
    É assim, muitas vezes o preconceito é interno, e é contra esse preconceito (nosso primeiro e maior inimigo) que temos que lutar em primeiro lugar.
    Meu blog, não por acaso, se chama: É Bom Ser Gay e minha primeira postagem explica este título. Passe lá para ver, amigo.
    Obrigado por promover a discussão, o que é sempre saudável!

    Grande abraço!

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