Prezada Srª Angélica Ivo:

Foi com muito estranhamento que lidei com o comentário encontrado em nosso blog, no texto anterior, sob seu nome. Confesso que fiquei perplexo, e até o presente momento não sei dizer se partiu de fato da senhora ou foi obra de mais um dos tantos indivíduos anônimos que nos atacam pela internet. Essa cogitação passou por minha cabeça junto com uma vontade de simplesmente apagar o comentário e seguir adiante, como se uma pessoa simplesmente sem coração algum tivesse se passado pela senhora para desmerecer nosso luto.

Mas resolvi me pronunciar a respeito do comentário assim mesmo, e não sei dizer muito bem pra senhora o porquê, pois eu geralmente sou o mais rude possível contra quaisquer possibilidades de embustes na rede. Acho que o que me tocou no comentário foi que pensei, ao lê-lo, em minha própria mãe, Marli, que hoje está muitos quilômetros longe de mim, mas apenas fisicamente, já que de meu coração ela nunca sai ou sairá.

Até hoje me lembro de como ela me perguntou, ao saber que eu era gay, “como eu poderia ter certeza daquilo”, como se eu não fosse capaz de saber quem eu era. Eu vivi por anos escondendo de minha mãe um segredo que no fundo eu e ela soubemos desde sempre, desde que nasci. Passei por uma adolescência sofrida sem compartilhar isso com ninguém que pudesse me ajudar, e a pessoa que eu mais amava no mundo, minha mãe, simplesmente estava me dizendo não acreditar em mim quando eu estava expondo a ela quem eu era, sem ter escolhido ser (porque ninguém escolhe). Mesmo depois de contar-lhe a verdade, ficamos um bom tempo sem tocar novamente nesse assunto, porque o tabu permaneceu. Eu era reservado demais pra falar sobre minha vida pra ela, e ela me respeitava demais para intrometer-se sem ser chamada.

Mas então eu senti falta de ter uma vida aberta para minha mãe, de poder compartilhar e contar tudo que quisesse, e comentar minhas histórias de amor, desabafar com ela e chorar quando o coração doesse, porque viver em família é isso: dividir tudo. Venci minhas limitações, como muitos dos gays têm que vencer para ir atrás da felicidade que o preconceito tenta nos negar, e a convidei para entrar na minha vida. Assumi minha homossexualidade para o resto de minha família e para o mundo, e passei a querer que meus namorados pudessem vir a minha casa, almoçarem com minha família, para conversar, rir, e fazer tudo aquilo que todas as famílias comuns fazem sem ter que se esconder pra isso. Ela aceitou. Vi, depois, que aquela reação inicial foi apenas um susto de uma mãe que ainda estava aprendendo a lidar com a homossexualidade do filho e as próprias reservas deste quanto a isso, e senti que ela realmente me amava, do jeitinho que eu era, sem qualquer porém, sem qualquer ressalva, sem qualquer vergonha de me assumir para o mundo como eu era.

Nós nos permitimos, e vivemos. Esta era, até então, a fase mais feliz de minha vida familiar até o momento, considerando o que sofri dos desgastes do casamento de 20 anos de meus pais e as eternas brigas entre eles, que culminaram no rompimento de minhas relações com meu pai, que já não havia sido muito presente em minha vida até então. Com minha mãe, no entanto, eu sempre pude contar, e esse foi o momento em que a senti mais próxima de mim. Eu sempre soube também que devia sentir-me muito grato a ela por isso, porque infelizmente nem todos os pais do mundo superam seus preconceitos em nome do sentimento belo que os une a seus filhos. Sei que muitos se escondem de suas famílias com medo de não serem aceitos, compreendidos, guardando para si segredos que não querem guardar.

Quando vi o vídeo da primeira reportagem, vi a senhora fazer um comentário cujas palavras exatas foram: “não interessa se você gosta de vermelho, eu gosto de laranja e ele gosta de branco”. Neste momento, eu, que já estava considerando um fato Alexandre ser gay, enchi-me ainda de admiração por ele ter uma mãe que também estava ciente de que seu filho havia sido agredido por ser diferente, e que, ciente disso, orgulhava-se de seu filho mesmo assim, não escondendo a respeito dele algo que muitos pais prefeririam esconder. Não sei se a senhora sabe, mas o símbolo do movimento gay é o arco-íris e nós usamos justamente a diversidade de cores para simbolizar a diversidade de amores que existem no mundo.

Em respeito ao sentimento que a senhora expressou no comentário deste blog, no entanto, eu gostaria de esclarecer algumas coisas. No texto original, escrevi “com todas as letras” que Alê era gay. Eu o fiz porque supus isso a partir das informações que chegaram a mim, referentes ao manifesto do Grupo Atitude, aos comentários de amigos de Alê no Orkut, e à simples configuração de fatos infelizmente tão similares a outras histórias de violência contra gays no Brasil e no mundo. Infelizmente, esta história se repete por vezes suficientes para que não a tratemos como uma novidade. Mas depois da mensagem da senhora é que constatei que, de fato, a homossexualidade dele não era um fato para mim, era apenas algo que dei como verdadeiro porque havia sido anunciado como fato bem antes de a história me chegar. Foi apenas depois que li na internet que a senhora havia afirmado que Alexandre era heterossexual, ou que a sexualidade dele era um assunto que pertencia apenas a ele, que me dei conta de que a imagem que eu havia feito da relação dele com a senhora e a conjuntura dos fatos podia não ser tão simples quanto tudo que chegou a mim pronto.

Passei a pensar que, no lugar daquela “mãe defensora da diversidade” como a minha, a senhora poderia ser uma das que ainda estavam na fase dos segredos, ou de saber e não comentar, ou de saber e não tornar isso público por ter amigos e parentes incapazes de lidar com o fato, ou mesmo que Alexandre realmente poderia ser um garoto hétero tido como gay simplesmente por ter amigos gays, como frequentemente ocorre. Não quero entrar no mérito desse assunto, porque isso pertence apenas à senhora. Apenas a senhora pode avaliar em seu íntimo o quanto ele era aberto, o quanto a senhora sabia a respeito dele, o quanto era capaz de aceitá-lo e assumi-lo para o mundo como ele era. A verdade para mim que estou “de fora” é que tudo o que eu cogitei sobre ele ser gay se desmanchou e eu não podia mais manter o texto assertivo como estava. Depois de ler sua mensagem, discuti com meus amigos do blog e da comunidade se eu deveria ou não corrigir meu texto em relação às informações dessa suposta heterossexualidade dele e as outras que tínhamos. Foi quando optei por não afirmar nem desmentir que ele era gay, e fazer algumas pequenas alterações no texto – mas apenas por desencargo de consciência, para evitar que eu estivesse afirmando algo de que não tinha certeza – e vir responder ao comentário da senhora.

A verdade, Srª Angélica, é que a essa altura, a sexualidade de Alê é um detalhe irrelevante e é assim que temos que encarar os fatos. A homofobia pode fazer vítimas entre os heterossexuais também, e pouco importa, para quem tem preconceito, se você é gay ou não. A intolerância não tem discernimento suficiente para distinguir uma coisa da outra. Se você não faz parte da agenda excludente deles, você é um inimigo. A simples solidariedade com quem eles odeiam já é motivo para atrair sua fúria irracional. A essa altura, já há características suficientes para concluir que se tratou de um crime de ódio. Não houve roubo, não houve qualquer preocupação com dinheiro e outros vícios dos crimes de interesses impessoais, e a história de que estão alegando terem pensado apenas em assaltá-lo por causa do celular (se verdadeira) parece meramente uma tentativa de diminuir a pena dos agressores, já que “descarta” a premeditação da morte. Houve desavenças com um grupo de auto-proclamados “skinheads” (famosos justamente por seu racismo, homofobia, xenofobia e similares) como plano de fundo, e os requintes de crueldade nas agressões, inclusive com tentativas de confundir a polícia posteriormente, típicas da covardia de quem é inimigo daquilo que é humano. Isso se parece com “roubo de celular” pra senhora? A senhora, que teve a dor de ver a face desfigurada de seu filho, acha que isso foi fruto de uma violência não motivada por um ódio irracional? A senhora acha que três homens usam um carro para roubar um celular de um garoto de 14 anos sendo que qualquer trombadinha de bicicleta faz isso? Não há como ignorar: Gay ou não, Alexandre recebeu o tratamento reservado por eles aos gays, e falhar em denunciar essa violência homofóbica é facilitar que novas desculpas sejam encontradas para visar a impunidade.

Preciso, Srª Angélica, caso o comentário no texto anterior tenha partido da senhora, que compreenda que quando nós, opositores da homofobia, tomamos as dores de Alexandre como nossas, não estamos falando pela senhora, sua família ou por Alexandre, estamos falando por todos os seres humanos que acreditam em um mundo melhor, que não tenha lugar para agressões como a que foi imputada a seu filho. Não houve qualquer intenção de desrespeitar sua dor, o que seria até ilógico, já que é uma dor também nossa, ainda que incomparável à sua. Sei que nossas palavras de solidariedade jamais consolarão seu coração, e penso novamente em minha mãe para ter certeza disso. Sei que se me perdesse, nada a consolaria, bem como nada consolaria em mim a perda dela.

Gostaria, por fim, de direcionar meus mais sinceros sentimentos de solidariedade e empatia, e comunicar que a senhora pode contar conosco para tudo que estiver a nosso alcance para ajudá-la. O que peço é que a senhora não deixe de assumir seu papel na busca pela justiça contra a homofobia, independente de qualquer coisa. Independente até mesmo de Alê ter sido mesmo morto ou não pelos “skinheads”, como poderão comprovar as investigações. A senhora, como mãe dele, mais que ninguém, tem o poder e a responsabilidade de simbolizar, com sua dor, os anseios de todos nós por justiça. Há um papel de protagonismo precisando de alguém que o assuma, e a deixa para isso é agora. Estamos juntos.

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8 Respostas to “Prezada Srª Angélica Ivo:”

  1. A senhora, que teve a dor de ver a face desfigurada de seu filho, acha que isso foi fruto de uma violência não motivada por um ódio irracional? A senhora acha que três homens usam um carro para roubar um celular de um garoto de 14 anos sendo que qualquer trombadinha de bicicleta faz isso? Não há como ignorar: Gay ou não, Alexandre recebeu o tratamento reservado por eles aos gays, e falhar em denunciar essa violência homofóbica é facilitar que novas desculpas sejam encontradas para visar a impunidade.

    Exatamente aqui. Sendo o rapaz gay ou não, também segui à letra, a declaração desesperada da mãe de Alexandre e agi. Publiquei em meu blog, em inglês, e pedi ajuda para que outros chamassem atenção ao fato da homofobia no Brasil. As estátisticas são contudentes e ilustram o medo sob o qual vivemos. É hora de mudar, é hora de agirmos. Um por um.

  2. Eu como amiga do Alê chuchu a sim carinhosamente chamado por tdos nós amigos, foi duro, no enterro pior ainda,pq os asassinos estavam rondando o velório crueis muito crueis e no jornal de hj o sao gonçalo num vou entrar com nome deles pq ate entaum sao meus conhecidos meus ex vizinhos e um deles meu ex namorado.o (A) jogando a culpa no (E) falando q ele deve ter dado um pau no Alê mais enxagerou na dose cara tenho ate vergonha de falar q conheço e namorei um deles. Justiça Aonde o nosso pais vai parar com toda essa violencia tanto com homexessuais e com heteroxessuais. Aonde? temos q sempre protestar pq morte como essa num pode ficar impune num pode.Estamos sofrendo mais Deus esta consolando e Deus é justo e ee vai fazer Justiça.Mais a nossa justiça deu prisaõ tempóraria de 30 dias e quando eles sairem? ninguem pensou nisso.
    Bjos e sucesso com seu Blog

  3. RENATO AQUINO Says:

    Quando meu corpo se for que deixe algo marcado,como presença de luta e amor,quando minha passagem acontecer que seja pra evolução de muitos,quando minha vida não mais me pertencer que possa eu ser exemplo de amor,que o choro não seja egoista,que o fato seja levantado sim como bandeira pra que a sexualidade não seja motivo de atrocidade,o direito ao amor independe de sexo,não tenho mais minha mãe comigo,faleceu a quase dois anos,e me lembro de quanto ela me amou e de quanto sentia orgulho de me ver sim seguir minha opção sexual de forma digna e verdadeira,sinta se feliz era o que ela dizia,e espero que Ale nessa hora esteja perto e que seu espirito seja reconfortado por minha mãe,acarinhado e aceito.Sera bandeira Ale não de sua familia,mas sim do amor e da liberdade de escolha,teve coragem pra nos ensinar isso !!! Oxalá esteja contigo e não,não,não a homofobia!!!

  4. O blog Gay Católico apoia e admira a coragem do blog Homofobia Já Era na atuação deste caso. Colocamo-nos inteiramente ao dispor do Homofobia Já Era para tudo o que for necessário e estiver ao nosso alcance.

  5. O ser humano possui uma grande tendência a mascarar emoções, contaminado pela dificuldade em lidar com suas críticias ou com críticas alheias.
    Seja qual for o motivo dessa triste perda e também qual for o estímulo desses “dementes assassinos” para prática de algo inconcebível, acho fundamental e premente que a sociedade tome mais uma vez ciência desta ditadura imposta por pessoas conservadoras que desejam fazer valer a todo e qualquer custo seus pontos de vista, ainda que para isso alguém pague com sua vida.
    Meus sinceros sentimentos a essa mãe que está passando por uma dor que somente ela sabe a dimensão e somente sua memória revive os fatos do convívio com seu filho e por eles sabe chorar a perda dessa relação.
    O crescimento e quebra de paradigmas ocorre a partir de reflexões ou vivências, portanto o caminho contra as discriminações sociais passa pelos tópicos abordados neste blog.
    Abraços
    Anna Rizzo
    Psicóloga, Profª Universitária, Consultora de Performances

  6. Que a família do Ivo seja confortada, que ele esteja em paz e que a justiça seja feita, independente de qualquer coisa!

  7. Que a família do Ivo seja confortada, que ele esteja em paz e que a justiça seja feita, independente de qualquer coisa! A mãe do Cazuza está aí, a mçae de Ivo pode ser mais um exemplo!

    http://gaygospelgg.blogspot.com

  8. Jullyana D Says:

    Eu ainda estou muito mal com esta história toda.. como esses caras puderam ser tão cruéis…o Alexandre era praticamente uma criança na frente deles…Três homens que, infelizmente, são seres humanos e que deveriam ficar em jaulas pro resto da vida…Realmente espero que Angélica, mãe desse menino e como toda sua familia, seja confortada e que Deus possa tranquilizar sua dor.

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