Feliz dia do amigo!

De repente, eu estava chorando em frente ao computador. Mas eram lágrimas serenas, de felicidade, emoção. O motivo: Um amigo meu me disse, pelo GTalk, que estava cada vez mais fora do armário. Ele relatou que havia saído de mãos dadas com um rapaz em público, primeiro em uma festa “hétero”, e depois caminhando pela praia. Perguntei ao meu amigo o que ele sentiu ao fazê-lo (de praxe, acabo sempre me concentrando nas sensações das pessoas quando me contam as coisas). Ele me falou coisas sobre liberdade, sobre a sensação de estar fazendo algo importante, e sobre a consciência de este ser um direito simples que nos é negado e precisa ser conquistado: o direito de expressar afeto. Ele falou ainda sobre se ver futuramente como algum tipo de militante pela diversidade, como se fosse uma coisa inevitável. O que poderia ser apenas um relato sobre um caso até trivial, de certa forma, ganhou outros contornos quando ele me disse que pensou muito em mim nesse processo. Ele disse que sabia que eu ficaria orgulhoso dele por isso. Como não se emocionar?

O nome desse amigo é Bruno. Nós nos conhecemos em um fórum de RPG, bem antes do advento das redes sociais como local preferencial de interação online. O que a princípio eram conversas (frequentemente hilárias) sobre os jogos, logo se tornou um contato diário (ainda frequentemente hilário, haha) sobre todos os assuntos possíveis, tamanha foi nossa afinidade. Quando nos conhecemos, não sabíamos da sexualidade um do outro, e, de minha parte, confesso que eu não sabia nem da minha direito. Um dia, escrevi um texto em um blog assumindo-me bissexual (porque eu achava que era), ao que o Bruno respondeu com parabéns e contando-me também que era gay. Não foi a sexualidade que nos uniu como amigos, mas ela nos uniu mais quando soubemos que teríamos com quem contar.

De lá pra cá, o que tivemos foi um longo processo de autodescoberta, de ambas as partes, com um ouvindo confissões do outro, oferecendo sempre um alento quando o momento era de dor, dividindo um riso quando o momento era feliz, ou fazendo as duas coisas simultaneamente quando a amizade se sobrepunha às causas externas de felicidade ou tristeza, o que ocorria com frequência, e felizmente ocorre até hoje, cinco anos depois (ou será que errei as contas?). Bem, a amizade é atemporal. Eu me sinto amigo do Bruno há bem mais que cinco anos. Nossa trajetória de vida teve algumas similaridades, então quando ele me conta coisas de sua adolescência ou época da faculdade, é como se contasse coisas sobre mim. Difícil dizer que nossa amizade começou só quando começamos a teclar. Se tivéssemos estudado no mesmo colégio, acho que bem provavelmente seríamos os melhores amigos. Se tivéssemos estudado na mesma faculdade, poderíamos até ter sido namorados (risos)!

E nossa “evolução” ao longo desse tempo foi visível no que diz respeito a consciência sobre sexualidade. Lembro-me que em nossas primeiras conversas, ambos tínhamos até certa cautela em usar a palavra “gay”, como se fosse difícil nos identificarmos com o que entendíamos por isso. Relendo os históricos, vi que até mesmo o discurso dos “discretos” dava as caras em nossas conversas, ainda que com outra roupagem e outros termos. Mas tudo isso mudou. Ele esteve do meu lado quando entendi que eu também era gay, quando saí do armário para minha família, quando tive meu primeiro namorado e os seguintes, quando quis contar dos meus “casos” e “descasos”… Enfim, tudo o que experimentei da vida em cinco anos eu pude dividir com ele, colocando-me também sempre como um amigo incondicional para receber o que ele quisesse dividir comigo.

O resultado foi que minhas posições sobre ativismo, militância, homossexualidade e armário logo entraram nessas conversas, sempre com o apoio dele para mim, ainda que ele permanecesse mais reservado, de certa forma, quanto a aplicar isso prontamente em sua vida pessoal. Eu fiquei muito feliz quando percebi mudanças nele quanto a isso, como se mais uma vez nossos pensamentos estivessem se alinhando a respeito de algo. Principalmente considerando que até hoje ainda sinto um “friozinho na barriga” antes de demonstrar afeto em público. Mas não sei se vou sentir mais. Dois caras tímidos, até um pouco retraídos, cientes de que estão fazendo algo para mudar o mundo, nem que seja a longo prazo, é algo que considero muito belo, principalmente por ocorrer pela via da amizade verdadeira. Não preciso mais hesitar. O Bruno estará de mãos dadas comigo sempre que eu resolver andar de mãos dadas com alguém.

Sei que isso que estou falando por ficar até com cara de “testemunho de fé”, como se eu estivesse usando uma experiência pessoal para fazer propaganda de uma convicção sobre armário, sobre visibilidade LGBT, o que seja. Mas não é isso, ou não é “só” isso. Eu falo de uma amizade verdadeira. Falo da única pessoa com quem eu quis conversar quando minha avó faleceu, e que me confortou naquele momento difícil com palavras que, se eram desajeitadas por não conseguirem confortar com a segurança que gostariam, confortaram ainda mais pela sinceridade do afeto e da dor compartilhada. Há uma gratidão muito grande em meu coração pelo Bruno, que é acompanhada por uma admiração intensa e irrestrita em tudo. Sou uma pessoa melhor por um ter um amigo como ele.

Acho que, no fim, essa história toda é sobre o poder de nossas convicções e o poder de mudar as pessoas ao nosso redor e nos deixarmos mudar por elas, para melhor sempre, quer isso se reflita em assuntos de consciência LGBT ou não. Muitas vezes, olho a realidade a meu redor e me desiludo. Acho que o mundo jamais irá mudar, porque o preconceito das pessoas está muito arraigado, os problemas sociais são severos, e que o que está em meu alcance para ser feito é pouco, de forma que eu sequer deveria me considerar ativista. Mas hoje uma pessoa muito querida me relatou uma vitória pessoal significativa, e me disse que eu tive parte nisso.

A impotência, assim, cede perante a vontade de continuar. Nada é em vão. Dá vontade de dizer: “Veja que cara legal, veja que pessoa linda, é alguém querendo viver, alguém querendo igualdade, e que merece isso. Essa pessoa fantástica merece a vida muito mais que hipócritas, homofóbicos, machistas, racistas e toda essa escória careta conservadora que oprime quem só quer ser feliz”.

É possível sermos diferentes, possível sermos melhores, mais corajosos, menos frágeis, menos sujeitos à homofobia e mais sujeitos de nossa própria vida. Vamos atrás disso?

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Uma resposta to “Feliz dia do amigo!”

  1. Uau.
    Eu sou o Bruno supracitado.
    Lendo esse post, meus olhos também se encheram dágua. Sorte que aqui, no serviço, àquela hora, não tinha quase ninguém. Mas se tivesse também, não me importaria. As coisas que me importavam até algum tempo atrás não me importam tanto, e vice-versa. Me faltam palavras pra descrever o que eu sinto por ti, Adri, e demorei pra responder porque não sabia o que escrever nem como “falar bonito”. Mas vou dizer o que vier na minha cabeça, agora.

    Noite dessas eu andei de mãos dadas com um cara num bar “hetero”, do lado dos meus colegas de serviço e de outras pessoas. Aquilo que qualquer casal hetero pode fazer desde a adolescência, sem a mínima consciência do quanto é importante, aquele gesto tão repetido, que às vezes até se torna banal, pra mim foi uma puta conquista. Eu tive a sensação maravilhosa de poder execercer um direito básico que até então tinha me sido negado (ou talvez eu tenha negado a mim mesmo… ou, melhor ainda: eu tenha deixado me negarem). E, nessa hora, eu pensei: “queria que o Adri estivesse aqui pra me ver, ele estaria orgulhoso disso”.

    Eu moro numa cidade muito “mais ou menos”… grande demais para ser uma cidade pequena, pequena demais pra ser uma cidade grande. A geração que hoje é adolescente já consegue por aqui andar de mãos dadas na praça central às 4 da tarde (meninos e meninas, ao lado de meninos e meninos e de meninas e meninas), mas um conhecido meu levou uma tijolada noite dessas por andar de mãos dadas com o seu namorado. O casal correu e fugiu, não sofreram ferimentos graves, foi “só” o susto e a humilhação. Mas qual a linha que separa uma tijolada e um espancamento seguido de morte, como aconteceu com o Alê? E por que cargas dágua andar de mão dadas justifica apedrejamento ou assassinato?

    Tenho mais de 30 anos e só agora estou conseguindo tirar o peso de mais de cerca de 10 mil anos de ódio das minhas costas. Passei pela fase de ser “enrustido” e falar mal dos “assumidos” (sim, já fiz isso). Pela fase de não falar mal de ninguém, e não fazer coisa alguma. Pela fase de me abrir só com algumas pessoas de confiança e de começar a cogitar se eu poderia fazer algo. E agora, eu sou quem eu sou, me expresso quando eu quero me expressar e acho que o simples fato de fazer isso já é um grande feito. As pessoas ao redor estão vendo que eu sou gay e não tenho antenas, patas, tentáculos nem sangue radioativo. E já começo a pensar que poderia estar fazendo algo mais em relação ao respeito e à diversidade. Dia desses entrei em contato com um grupo LGBT da minha cidade, não duvido que logo logo eu comece a trabalhar com eles. Primeiro de um modo mais sutil, mais tarde de modo mais aberto. Um passo de cada vez, no meu ritmo. Mas antes tarde do que ainda mais tarde.

    Devo agradecer à algumas pessoas por terem me ajudado a chegar aqui. Uma delas é ao Adriano. Cara, tu estavas comigo naquele momento no bar e tu vais estar comigo sempre que eu for feliz, compartilhando essa felicidade e sempre que eu estiver triste, me ajudando a superar. Assim como eu sei que sempre estarei contigo. Um grande muito obrigado, meu grande amigo.

    E desejo toda a felicidade do mundo a todos vocês, amigos do HJE.
    ;)

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