a filosofia é g(ay)rega

greek16A filosofia é grega? Sim. Aquilo que entendemos no Ocidente como filosofia é um produto grego e de mais ninguém. Isso todo estudante de primeiro ano de filosofia logo aprende.

A investigação filosófica pode focalizar o cosmos, as cidades e os homens, a comunicação, a linguagem e o conhecimento, querendo encontrar elementos perenes ou indícios deles nos pontos de chegada investigativos. Caso não veja nada perene, ainda assim não desiste, pois imagina ao menos poder, sempre, fazer uma descrição racionaldesses elementos e as relações que eles mostram ou abrigam. No limite, tudo isso tem a ver, direta ou indiretamente, com o bem viver e com a prosperidade – a eudaimonia. Esse tipo de tarefa, assim descrita, é alguma coisa que, no século VI e V a.C. não se desenvolveu em outro lugar senão na Grécia antiga e suas colônias.

Em geral, as pessoas aceitam isso. O que elas não aceitam, em boa parte não só por preconceito, mas por incapacidade investigativa, é que se admitimos que a filosofia é grega temos de admitir que ela é gay. Não estou dizendo que é gay de modo universal. Ela é gay na sua origem, de uma maneira específica e fecunda. Ou seja, a filosofia nasceu gay e, do modo como ela cresceu e se desenvolveu, enquanto esteve articulada à Grécia Clássica, ela sempre foi gay. O modo de pensar da filosofia é gay.

A filosofia atualmente, ao menos para uma boa parte de filósofos, é tão outra coisa que aquilo que se chamou filosofia na sua vida grega, que mesmos os mais inteligentes não conseguem entender esse segredo de Polichinelo que estou revelando, que a filosofia é grega e gay. Vivemos em um mundo completamente deserotizado e, especificamente, des-homoerotizado. Por isso imaginamos que a atividade filosófica grega, nas suas origens, pudesse ser feita como a nossa. Ora, ela nem teria nascido se não fosse gay.

Talvez o único pensador moderno que tenha sabido dizer isso sem medo foi Frederich Nietzsche. Como nós, ele já vivia em um mundo, ao menos entre os cultos, que a atividade gay podia ser bem entendida sem que isso significasse deixar de poder fazer piada de tal coisa. Saber rir da atividade gay é um mérito gay, por isso os homossexuais acabaram por adotar a palavra “gay” para eles. Isso foi assim na Grécia Antiga. Isso é assim hoje, ao menos aos não estúpidos. Isso foi assim no tempo de Nietzsche, ao menos nos círculos dos que tinham capacidade próxima aos dotes do próprio Nietzsche.

Quando Nietzsche escreveu que Sócrates era “Platão atrás e Platão na frente”, ele estava querendo ser jocoso, é claro. Mas ele estava lembrando, também, que Sócrates não era apenas um filósofo que, na mão de Platão, aparecia como um personagem, mas sim como um personagem de vários lados, com múltiplas facetas – ou talvez mais de um personagem. Mas, nesse caso de análise de Sócrates, Nietzsche usou da condição gay como um elemento ad hoc. Agora, para falar da origem da filosofia de Sócrates, Nietzsche estabeleceu uma ligação mais umbilical entre vida gay e filosofia. Ele lembrou que Sócrates foi filósofo porque teve de sair às ruas, já que o seu lar tornou-se insuportável, uma vez que Xantipa era, para dizer o mínimo, uma mulher geniosa. Assim, posto o maior tempo nas ruas, nos ginásios, praças e mercados, Sócrates viveu não só a pederastia de modo completo, mas envolveu-se no mundo homoerótico, característica essencial vida pública grega (e não da vida privada!), de um modo que nenhum outro cidadão grego o fez. Assim, ampliou suas chances de exercer aquilo que era sua vocação, a filosofia.

A filosofia nunca foi uma atividade privada no mundo grego. Ela estava associada à política e, portanto, não era do âmbito de gabinetes, e sim do debate público. Os melhores cidadãos gregos nunca deixaram de ser, de algum modo, com nossos adolescentes, sempre aptos à vida em grupo, na rua. A investigação não se dava por meio de um homem, no recanto de um mosteiro ou escondido numa sala universitária, pensando solitariamente em religião ou marxismo. Ela se dava por meio de uma investigação dialética, oral, que só se desenvolvia por meio da conversação entre iguais. Só a rua, os ginásios, o mercado e os banquetes entre amigos podiam gerar conversas filosóficas e conclusões investigativas. Mesmo a Academia e o Liceu que, enfim, eram algo mais aproximado do que chamamos de escolas, não eram senão espaços abertos, que imitavam a rua e os ginásios, a Ágora e o teatro. Quem lê Platão sabe disso.

Nesse mundo homoerótico necessariamente público, em que a pederastia era o que é, ou seja, uma atividade educativa, a filosofia nasceu pública e gay. Ninguém imagina que pensar ou investigar podia ser feito em casa, em um escritório, solitário. Pois não era mesmo possível. Há os que tentam isso, no mundo atual, por isso não conseguem ser filósofos!

Caso Xantipa fosse uma mulher razoável, Sócrates poderia até ter sido um bom filósofo, mas não seria o Sócrates famoso. Ele não viveria o mundo da rua como viveu. E só o mundo da rua – essencialmente forjado pela idéia daparrhesia, o discurso e o comportamento maximamente franco – poderia gerar a filosofia. O raciocínio filosófico era da ordem da comunicação dialética ou dialógica – claro que aberta, honesta, franca. O elenkhós, o método da refutação usado por Sócrates, ou a atividade sofística da erística, de outros pensadores, eram formas de produção de conhecimento filosóficos que só aconteciam sob o clima de alguma forma de parrhesia. Ora, tais eram as características próprias do clima de homoerotismo que primava pela vida não dissimulada, necessariamente pública, e não da parte privada grega e tomada como afastada do pensamento.

Tudo isso que digo é documentado. Em Nietzsche, se distribui pela suas obras. E mesmo que alguém, erradamente, acuse Diógenes Laércio de ser criador apenas de anedotas, ainda assim tudo permanece como eu disse. Basta compreender o helenos clássicos, na sua forma de raciocínio, na sua prática daparrhesia, que se poderá ver como que a filosofia só poderia nascer como nasceu como grega, sim, mas a vida grega só foi como foi porque foi gay.

A maior dificuldade nos estudantes e filósofos atuais de entenderem a filosofia em sua origem é de não conseguirem compreender sua origem grega. Isso se dá por eles não conseguirem levar a sério aquilo que, por definição, é o não sério, ou seja, o gay. Eles não percebem que uma Grécia não homoerótica não criaria técnicas de parrhesia e, então, geraria outra coisa, menos a filosofia. Eles estão presos ao mundo filosófico de uma sociedade deserotizada em geral – em grande parte por sermos todos oriundos de uma “sociedade do trabalho” – e que, por isso, faz outra filosofia, bem outra. Aliás, Sócrates, Platão e mesmo Aristóteles veriam a atividade filosófica nossa, atual, como algo que eles não identificariam com filosofia. De modo algum.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e prof. da UFRRJ

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