carlos henrique caetano em dose dupla

Menino Muito Amado

Ele sempre quis ser tocado. A primeira vez, quando um menino muito amado que o amava também o acariciou, sentiu algo que o fez querer dizer ao mundo todo o que sentia. Foi o que fez. Apanhou, até. Dali pra frente não teve mais um menino que fosse muito amado que o amasse também, mas não desistiu. Ia para todas as baladas e procurava quem o tocasse com carinho. Era estranho. Uma vez percebeu que os lugares onde era tocado com carinho ficavam marcados com uma cor mais forte que a de sua pele. Quando saiu da boate, todos apontavam para ele dando risadas maliciosas.

Resolveu que, sempre que saísse procurando carinho, iria cobrir-se. Pedia para não lhe tocarem o rosto, o que era quase impossível. Calça comprida, blusa cacharrel e capuz eram sua armadura. Saía da balada e estava todo marcado. Havia uma mancha de cor forte em cada lugar onde lhe haviam encostado a mão de forma carinhosa. Então cobria-se com todas aquelas roupas, mesmo em dia de calor, para poder entrar no ônibus sem sofrer violência.

Um dia sua mãe perguntou porque sua pele estava toda marcada e ele respondeu que era alergia. Não sabia o que fazer. Não tinha visto aquilo acontecer com nenhuma outra pessoa. Cada vez menos procurava baladas, mas a vontade de ser tocado permanecia. Queria um menino que fosse muito amado e o amasse também, talvez isso parasse de acontecer. Mas não encontrava mais um menino assim. Acreditava que era uma espécie de maldição, coisa do tipo. Contou para uma amiga que não acreditou na história. Contou para outra amiga que quis fazer uma experiência: tocar nele, de forma carinhosa, para testar se as manchas apareceriam. Ele hesitou, num primeiro momento, mas consentiu num segundo. As manchas não apareceram.

Ele ficou assustado. Voltou a pensar naquelas histórias que lhe contavam quando ia à igreja: demônios, castigos, inferno, coisa e tal. Estava amaldiçoado, mesmo, só podia ser isso. Qual outra explicação? Tornou-se silencioso. Não dizia mais nenhuma palavra. Não ria, não chorava, só ficava quieto. Achou que deveria pôr um fim naquilo. Pensou em três opções: morrer, casar-se com uma moça formosa ou encontrar um menino que fosse muito amado e o amasse também.

Já se passaram alguns anos, depois disso. Ele não encontrou, ainda, um menino que fosse muito amado e o amasse também. Encontrei-o numa balada na madrugada de ontem. Beijamo-nos e nos acariciamos um ao outro. Onde ele me encostou de forma carinhosa surgiram algumas manchas estranhas, mais escuras que a cor da minha pele.

Depressão pós-show

"Rádio ligado, troco estações porque não sei o som que você pode odiar, No supermercado, eu tento escolher o mesmo sabor que você , deve gostar…"(Pato Fu)


Naquele show do Pato Fu que se conheceram. No bar do teatro, antes de entrar, começaram a dizer o que cada um pensava sobre a banda. Guilherme disse que havia visto um show da turnê Televisão de Cachorro. William disse que conheceu a banda nesse período, mas só foi ver um show na turnê de Toda Cura Para Todo Mal. Aquela noite a apresentação seria de cadeiras marcadas. William pegou um lugar do lado direito do palco, Guilherme do lado esquerdo. Sempre que as luzes se acendiam, no intervalo entre uma canção e outra, um acenava para o outro. Estavam bastante empolgados, afinal era a banda preferida de cada um deles.

Quando terminou o show, ficaram juntos na fila de autógrafos, conversaram alguns minutos com John e Fernanda, tiraram fotos e tudo mais. Resolveram estender a noite num bar ali perto mesmo, afinal era cedo para ir embora e o final de semana prolongado estava só começando. Conversaram sobre o Pato Fu, é claro, mas uma cerveja vai, outra cerveja vem e os temas se variaram. Guilherme gostava muito de futebol e falava sobre suas impressões acerca do sucesso que o Santos havia conquistado entre os mais jovens. William gostava muito de cultura pop e falava sobre a influência da Lady Gaga tanto no mainstream como no underground. Havia uma sintonia entre eles e uma amizade estava à vista.

Em casa, Guilherme lembrou do novo amigo e chegou a comentar com a namorada sobre William. William, por sua vez, não tinha namorada e só conseguia pensar em Guilherme o tempo todo (sentimento que ele chamou de “ressaca pós-show”). Era Guilherme no café da manhã, Guilherme no almoço, Guilherme no filme da televisão, Guilherme na página noventa e sete daquele livro de Tenessee Williams que ele estava lendo. Resolveu ligar para o Guilherme antes mesmo de o feriado terminar. Não custava nada marcar uma cerveja e tal, mas Guilherme iria descer para o litoral com a namorada. Namorada? William sentiu uma coisa esquisita e a ficha caiu: estava apaixonado.

Putz, cara, não era possível que isso lhe fosse acontecer de novo. Naquela idade? Já não era mais adolescente. Desesperou-se com o fato de estar apaixonado e mais ainda com o fato de o amado ter namorada. Com certeza é heterossexual. Que bosta, de novo! Isso já lhe havia acontecido duas vezes na vida, sempre com muito prejuízo, dor de cabeça e finais sem começo.

Dessa vez William resolveu fazer diferente. Iria contar para o amigo o sentimento que tinha por ele. Resolveu convidar Guilherme para um bar no final de semana seguinte. Guilherme aceitou. Mas a namorada foi junto. E a namorada era linda. E legal. Lisandra ficou amiga de William também. Depois de algumas cervejas ele contou para o casal sobre a sua homossexualidade, mas nada falou sobre a paixão que sentia. Os novos amigos receberam muito bem a novidade e até parabenizaram William pela coragem e a sinceridade.

Mas ele tinha que contar o que sentia pelo Guilherme para o Guilherme. Chegou em casa e, ainda sob efeito do álcool daquela noite, escreveu um longo e-mail para o amigo falando sobre seus sentimentos. A resposta veio no dia seguinte e era a que ele esperava, mesmo: em poucas linhas Guilherme disse que era heterossexual e a única possibilidade que tinham de relação era aquela amizade que já estavam construindo.

William foi até a estante de CDs, pegou o disco Toda Cura Para Todo Mal, de sua banda predileta, deu uma olhada na foto em que estavam ele, John, Fernanda Takai e Guilherme, pôs o disco no aparelho de som e saiu cantarolando pela casa: “a gente se acostuma com tudo, a tudo a gente se habitua, e até não ter um lugar, dormir na rua, a tudo a gente se habitua”.

ilustração 2º texto: Sara Rayman

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