Um chamado às armas que fez-me rir

Um artigo publicado pelo site “A Capa” reclama da pouca adesão de gays na aglomeração que ocorreu no dia dos “protestos” a favor de Bolsonaro. O autor, Beto Sato, queria que gays se metessem na rixa antiga entre:

  • Carecas
  • White powers
  • Integralistas
  • Proto-nazistas em geral

VS.

  • Esquerdistas
  • Integrantes do Movimento Passe Livre
  • Integrantes da Marcha da Maconha
  • Sindicalistas do SintUsp
  • Integrantes da Liga Estratégica Revolucionária
  • Anarquistas Independentes
  • Punks
  • Anarcopunks

Ele disse romanticamente ter sentido vontade de lutar (inclua sob a palavra “lutar”: punhos, dentes quebrados, gás lacrimogênio, etc.) contra “o inimigo”, e, no início das manifestações, a polícia foi de fato obrigada a separar os dois lados, antes que o pior e o inútil acontecessem. Também reclamou de “sarados”, “poc-pocs” e “ursinhos” não terem dado as caras, como se isso fosse um atestado inconteste de desinteresse político por parte dos gays.

Liberdade Guiando o Povo - DelacroixPelo visto, há uma noção de rebeldia e revolução pairando aqui, que bem poderia ter saído de um hino nacional lá do século XVIII, de um filme hollywoodiano sobre revolução francesa, um clipe de uma banda de rock, ou de uma novela global sobre os anos da ditadura. Quem não partilha dessa visão “está por fora”.

Dá licença, mas eu posso, por gentileza, vomitar diante de tanta puerilidade? Não se choquem, estou pedindo com educação!

Não estamos nos anos 60/70! Eu jamais iria a uma manifestação dessas “trocar tapas” com gente desse tipo, e, francamente, acho que desmerecer quem teve essa mesma opção é de uma infantilidade ideológica tremenda, como se nossas causas tivessem alguma coisa a ver com o quebra pau que esse povo de bandinhas underground faz nas ruas em nome de seus “ideais” (e achando que está fazendo muita coisa, mesmo que a quantidade de pessoas levadas a pensar diferente com essa atitude seja zero).

Que alguns punks e nazis adoram uma contenda física, não é novidade para ninguém, mas… o que temos a ver com isso? A causa LGBT não é nem nunca será item no “formulário de adesão” a esses grupos. O provérbio “inimigos dos meus inimigos são meus amigos” não se aplica aqui.

As palavras certas é que são a arma do diaEntendo que seja mesmo lamentável que poucos gays tenham comparecido (Será? Quem pode dizer com certeza?), porque num momento desses seria importante marcar uma maciça presença contrária a toda essa merda. Reconheço também que consciência política não é mesmo o forte do coletivo gay (Ou seria do brasileiro como um todo? Não gosto que “acusem” uma suposta má-vontade intrínseca exclusivamente nossa aqui, porque ela não existe), mas daí pra achar que temos que nos prestar a esse tipo de enfrentamento… eu dispenso. A violência já foi necessária, especialmente no período em que o próprio Estado estava contra aqueles que deveria proteger, mas hoje, isso – felizmente – é PASSADO. Hoje a “guerra” se luta com outras armas. Há outras saídas. Fazer outra manifestação no mesmo lugar e ignorar completamente a presença deles seria uma alternativa, por exemplo.

Nós realmente não estamos interessados em guerras, e muito menos as vazias de sentido e de espólios. O que ganharíamos partindo as fuças deles? Uma medalha de condecoração? Status perante o grupo? Memórias para contar para os netos? Quem gosta desses souvenires de babaquice são eles.

Não faça guerra, faça amor.Nossas paradas são cheias de dança, beijos e cores. Nossa inspiração tem muito mais afinidade com os hippies. O que precisamos, só os governantes e nós mesmos podemos nos dar: leis e respeito. Não nos interessa esmurrar a cambada que apoia Bolsonaros da vida. Ela é composta por zeros à esquerda que precisam ser colocados à responsabilidade da polícia, e só. Não quero que eles mudem seu jeito idiota de pensar. Quero apenas que eles guardem isso pra si mesmos e me poupem de ter contato com essa matéria infectada por idiotices.

Longe de querer pessoalizar uma crítica ao autor do artigo (que desconheço), resolvi postar esta crítica porque esse pensamento sobre a despolitização gay é recorrente e definitivamente não se resume a esse texto. Vemos esse discurso dar as caras toda vez que alguém inventa de fazer aquelas críticas mofadas às paradas gays dizendo que não passam de oba-oba. Essa postura raramente dosa de maneira plausível a proporção das coisas antes de abrir o fogo amigo, e, pelo visto, a saída que ela propõe não é nada melhor. Receio que seja pior.

Se sou um alienado porque acho que tudo é festa e que “lutar” é vão? Ok, pode ser. É uma opinião (furada, é claro), mas se faltar capacidade intelectual a quem se dispor a julgar, não me importo que nivelem nossas demandas por baixo reduzindo-as justamente a uma busca pelo direito à celebração.

Rotulando o que buscamos dessa maneira, acho que essas pessoas não complicarão muito suas noções maniqueístas de “nós VS. eles” e poderão deixar-nos em paz para ir atrás do que importa. Enquanto isso, os “revolucionários” podem continuar sua troca de tapas com a ralé do mundo, sem problemas. Isso não nos afeta. Apenas não metam a gente nisso, ok? O que buscamos é outra coisa.

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10 Respostas to “Um chamado às armas que fez-me rir”

  1. Parabéns pelo blog, muito bom.

  2. “Que punks e nazis adoram uma contenda física, não é novidade para ninguém …”

    Ummm .

    Bem, sou Bi, Punk, odeio brigas e não sou anarquista .

    Como lidar ?-

  3. Felipe Says:

    Mas fora isso .

    Concordo que a “guerra” hoje se luta com outras armas .

  4. Meu deus! Que “luta” terrível! Se por um lado é triste o movimento ter tido pouca adesão, não se pode negar o… MEDO que aqueles que teriam motivos pra aderir sentem por todos os lados, sobretudo num momento em que “algozes” estariam perambulando por lá, pirigando “marcar” as próximas vítimas…

    http://soymanjerona.wordpress.com

  5. Luca Melo Says:

    Assim como postei no Blog do autor, posto aqui tmb.

    Divulgar o comentário sem antes apresentar o texto original, demonstra má fé ou incapacidade do blogueiro.

    Por favor, cole o link do texto original, para que assim possamos ter nossa própia opinião.

    • Se você se der o trabalho de ler o texto novamente com mais atenção, verá que a expressão “artigo publicado pelo site A Capa” é um hiperlink. Ou seja, se você clicar, verá o texto original.

      Quem tem má fé ou incapacidade aqui é você que não prestou atenção. Pense e seja mais esperto da próxima vez que inventar de criticar alguém.

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