Archive for the diversidade Category

redesenhando e se produzindo

Posted in crossdressing, diversidade with tags on 28/10/2010 by Homofobia Já Era

O cartunista Laerte, que passou a se vestir de mulher, diz que suas despesas agora incluem manicure, depilação, lingeries e sapato

Ver este documento no Scribd

redesenhado

Posted in crossdressing, diversidade with tags on 28/10/2010 by Homofobia Já Era

O cartunista Laerte, com 40 anos de carreira e 59 de idade, lança ‘Muchacha’, coletânea de quadrinhos sobre os bastidores de uma série televisiva. No livro, um dos personagens, Djalma, se veste de mulher – comportamento que o próprio ilustrador vem adotando desde 2009 como reflexo de uma crise pessoal e profissional.

por Armando Antenore*

 

Passava das 14h30 de uma quarta-feira e Laerte Coutinho ainda não chegara à entrevista. Eu o aguardava numa padaria da Vila Madalena, bairro notívago de São Paulo. O cartunista de 59 anos, que está completando quatro décadas de uma carreira elogiadíssima, deveria aparecer 30 minutos antes. Como não dava as caras, resolvi lhe telefonar. "Putz, rapaz! Me esqueci de você!", constatou, aflito. Saiu correndo do Butantã, onde mora num sobrado com dois gatos, e adentrou a padaria às 15h20. Exibia vistosos brincos de pérolas e um corte de cabelo chanel.

Apenas no fim da conversa, que durou quase três horas, esclareceu o motivo do visual peculiar: desde 2009, como resultado de uma profunda crise, mantém o hábito de se vestir de mulher, total ou parcialmente. A prática também pontua o livro Muchacha, que o desenhista paulistano acaba de lançar. A coletânea reúne quadrinhos publicados no jornal Folha de S.Paulo e retrata os bastidores de uma série televisiva dos anos 50. Um dos personagens, o ator gay Djalma, protagoniza espetáculos musicais sob a pele de uma transexual cubana.

Você costuma esquecer compromissos?

Não, não costumo. É verdade que, às vezes, me desligo um pouco da Terra e vou para o mundo da Lua. Mas, em geral, me julgo um camarada bem responsável.

Então por que você se esqueceu do nosso encontro? Tem ideia?

Sinceramente? Freud explica. Freud sempre explica. Na realidade, não queria dar entrevista. Estou me obrigando Atravesso um período nebuloso, sabe? Uma crise gigantesca, tanto pessoal como profissionalmente. Não ando satisfeito com minhas criações e não imagino um modo de torná-las satisfatórias no curto ou no médio prazo. Talvez nem mesmo no longo. Uma sinuca de bico Falar sobre minhas ilustrações, meus cartuns e minhas tiras neste momento me incomoda muito. É reivindicar importância para algo que já não avalio como tão relevante. Hoje não acredito que possa despertar o interesse de alguém. Sinto vergonha de quase tudo o que produzi em 40 anos de carreira. Gostaria de consertar a maioria das coisas.

Vergonha? A palavra me soa forte demais, entre outras razões, porque você ganhou inúmeros prêmios e porque diversos cartunistas, incluindo os jovens, frequentemente o classificam de genial.

O problema é que não me convenço. (risos) Genial? Considerava-me gênio quando adolescente. "Uma hora o mundo vai me descobrir", pensava, enquanto rabiscava carros, barcos, guerreiros. Tremenda bobagem Claro que enxergo qualidades no que fiz e no que faço. Longe de mim bancar o coitadinho ou apelar para a falsa modéstia. Só que tais qualidades não chegam nem perto das que me atribuem. Eu não me contrataria. (risos) Na década de 1980, por exemplo, participei do Festival Internacional de Quadrinhos em Angoulême (sudoeste da França). Fui representar o Brasil com o Ziraldo e mais alguns colegas. Assim que desembarquei na cidade, bateu um desconforto horrível. Tive ímpetos de cavar um buraco e sumir. Os franceses, que publicam HQs sofisticadérrimas, maravilhosas, simplesmente nos desprezaram – ainda que de maneira diplomática. Eles examinavam as nossas produções, arrebitavam o nariz e comentavam: "Curioso, curioso" Aquilo me pareceu uma baita injustiça contra o Ziraldo e o resto da turma, mas não em relação às charges que levei para lá. Confesso que adoraria adorar a minha profissão. Adoraria ser como o Angeli, que desenha com um amor imenso. Ou como o Robert Crumb, que desenha compulsivamente. Ou como o Paulo Caruso, que desenha com uma facilidade assombrosa.

Você não vê mais graça em desenhar?

Praticamente não vejo. Desenhar se tornou penoso, difícil. Mal começo um trabalho, percebo que estou me dedicando àquela tarefa apenas porque necessito cumprir prazos ou pelo simples fato de que já a incorporei no meu cotidiano. Fugir da burocracia virou o xis da questão. Descobrir rumos novos, prazeres diferentes Há tardes em que travo e fico horas sem arriscar um mísero esboço, inteiramente refém da autocrítica. Não me agradam os motes que escolho para as tirinhas, o desenvolvimento das tramas, a redação dos textos, o jeito como lido com as cores, a plasticidade do meu traço. Por outro lado, também não me agrada a perspectiva de largar tudo e me refugiar numa ilha deserta, folgadão. Não pretendo me aposentar. O que desejo é me reinventar.

Quando a crise eclodiu?

As primeiras insatisfações surgiram em 2001 ou 2002, no vácuo de uma tempestade maior que causara o fim do meu terceiro e último casamento. Pouco depois, em 2004, o incômodo cresceu e resolvi abdicar de vários elementos que marcavam minha trajetória. Abandonei personagens famosos, como o Overman, os Gatos e os Piratas do Tietê, certo tipo de humor, menos sutil, e a preocupação com a linearidade das histórias. Iniciei, ali, uma fase mais "filosófica", que muitos intitulam de nonsense e que ainda me caracteriza. Uma parcela dos jornais que divulgavam os meus quadrinhos estranhou a reviravolta e acabou me dispensando – caso do gaúcho Zero Hora e do capixaba A Tribuna. Reclamavam de um hermetismo excessivo, de uma obscuridade que atrapalharia a fruição do público. Evidente que não concordo. Rejeito, inclusive, o adjetivo nonsense para definir o meu trabalho. Nonsense pressupõe o caos, a ausência total de significado. Ocorre que minhas tiras buscam, sim, um sentido – mesmo que seja o de aplicar um golpe na lógica, o de implodir o senso comum. Discussões semânticas à parte, noto que a trilha inaugurada em 2004 vai se fechando. Preciso, no fundo, me reconectar com o adolescente atrevido que, 45 anos atrás, ingressou num curso livre de desenho e pintura doido para se expressar. Preciso reencontrar a chave daquela inquietação, daquele frescor, daquela ousadia.

Envelhecer o deprime?

Não, mas me assusta. Nunca almejei a longevidade e sempre achei que morreria cedo. Por isso, não me angustio quando lembro que completarei 60 anos em 2011. Penso que dei sorte, que estou no lucro.(risos) O que me espanta é a rapidez do tempo – a ligeireza com que os dias voam depois que passamos dos 40. Uma rapidez estonteante, que se associa à falta de produtividade. Para um garoto, 12 meses fazem uma diferença brutal. Quantas coisas se modificam num intervalo tão pequeno! Já para um cinquentão, 12 meses normalmente não representam nada. Tudo permanece idêntico.

Recém-lançada, a coletânea Muchacha leva o nome da cantora e dançarina que o ator gay Djalma interpreta na trama. Ele se traveste. Você, à semelhança de Djalma, está usando brincos e um corte de cabelo bem femininos. Também aprecia o guarda-roupa das mulheres?

Também. É uma descoberta nova, uma predileção que se insinua há séculos, mas que se manifestou com todas as letras apenas em 2009. Cinco anos antes, um dos meus personagens, o Hugo (veja acima), decidiu "se montar". Não sei exatamente por quê. Só sei que, de uma hora para outra, arranjou vestido, batom, salto alto e se jogou no mundo. Desde que nasceu, o Hugo se porta como um alter ego do Laerte. Ele costuma assumir nos quadrinhos grilos e desejos que se confundem com os meus. O fato de imitar o visual das mulheres certamente denunciava algo sobre mim – sobre ambições que eu me negava a explorar às claras. Foi quando recebi o e-mail de uma arquiteta, fã do Hugo. Quer dizer: de um arquiteto que abraçou a identidade feminina. O sujeito me perguntava se ouvira falar dos crossdressers, pessoas que gostam de botar roupas ou adereços do sexo oposto. Na época, não dei muita bola. Mas em 2009, por causa do aguçamento de minhas neuras existenciais, procurei um clube de crossdressers, frequentei reuniões organizadas pelo grupo e li a respeito do assunto. Depois, lentamente, agreguei enfeites femininos à indumentária masculina – brincos, colares, unhas pintadas. Hoje, dependendo da ocasião, me visto como mulher dos pés à cabeça, mesmo em lugares públicos, onde acabo passando despercebido. Outras vezes, ponho somente uma bijuteria, um esmalte. De início, meus filhos, minha namorada e meus amigos chiaram. Agora, já se acostumaram. Ou quase. (risos)

O que você sente quando se traveste?

Um prazer indescritível, que nunca cogitei sentir. Recorrendo à prática, não planejo mudar de gênero definitivamente nem colocar em xeque a minha bissexualidade. O crossdressing, no meu caso, se refere menos à atividade sexual e mais à transposição de limites. É uma necessidade imperiosa de perscrutar e vivenciar os códigos femininos. Há ocidentais que se deleitam em investigar o Oriente. Experimentam comidas exóticas, fazem ioga, visitam a China. Da mesma maneira, por que um homem não pode empreender uma viagem radical pelo planeta insondável das mulheres?

Em 2005, você perdeu um de seus três filhos num acidente de carro. A crise atual tem alguma relação com a morte dele?

Creio que sim. O desaparecimento repentino do Diogo, aos 22 anos, me abalou terrivelmente. Fiquei um mês mergulhado na absoluta incapacidade de desenhar. Quando retomei o trabalho, as dúvidas que me conduziram à guinada conceitual de 2004 recrudesceram. O entendimento de que um ciclo terminara se mostrou claríssimo. Desde então, vivo sem bússola, um tanto desnorteado. Ou melhor: existe um norte, só que é um norte débil, inseguro, mutante. Uma vertigem contínua. A perda do Diogo retirou o véu de tudo. Relativizou ainda mais quaisquer certezas, desnudou as minhas fragilidades e, paradoxalmente, revelou as minhas forças – ha medida em que toda fragilidade demanda uma força como resposta. Mas, na contramão do que parece, não extraí mensagens edificantes do episódio. A morte não nos traz lição nenhuma. É o desconhecimento pleno, um vazio que não se contenta com as justificativas da política, da sociologia, do direito, da psicanálise, da antropologia. Pegue o fim trágico do Glauco… (Glauco Villas Boas, cartunista e amigo de Laerte, assassinado em março junto do filho, Raoni, por um adepto da Igreja Céu de Maria). O que explica uma barbárie daquela? "Ah, como lideravam um culto religioso que ministra o santo-daime, Glauco e Raoni atraíram um punhado de malucos…" Será mesmo? Para mim, não importa! Nada esclarecerá o mistério de por que alguns partem do modo cruel como os dois partiram. Havia realmente necessidade daquilo? Daquele Armagedon doméstico? Do horror imensurável? Um pai presenciar a execução do próprio filho e depois morrer?

* fonte: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/tenho-vergonha-quase-tudo-desenhei-laerte-600982.shtml

uma aula de diversidade

Posted in diversidade with tags on 19/10/2010 by Homofobia Já Era

jadecloseJade é o nome dessa garota de 10 anos filha de minha amiga Janaína que mora em Barão Geraldo, subdistrito de Campinas, interior de SP. É dela o relato que transcrevo aqui que sua mãe postou na sua página do facebook:

“Minha filha Jade chegou da escola e me contou o seguinte acontecido:

"Mãe, tem um menino na minha classe que é muito legal, ele entende as meninas; é sensível e educado. Então uns meninos começaram a falar mal dele, que
ele era homossexual, bichinha, e ele começou a chorar…

Fui atrás dele e falei :

– Uma pessoa como você é tão difícil de se encontrar neste mundo; Vamos pensar que eu sou a rainha, você é o rei e eles são os bobos da corte fazendo palhaçada pra gente… Seu amiguinho abriu um sorriso e  falou : – É isso, eu sou um rei e saiu para brincar com as meninas …"

Siganos no mesmo caminho de Jade e seu amigo:

king-king

no fim do arco-íris *

Posted in balada, comportamento, diversidade with tags on 22/08/2010 by Homofobia Já Era

Gordinhos, carecas e grisalhos. Longe do hype e da badalação do mundo gay, homossexuais de 30 a 70 anos se encontram semanalmente numa festa no centro de São Paulo. Filhos de uma época em que a discriminação e a repressão eram maiores do que são hoje, eles deixam de lado o culto ao corpo e à juventude, buscam relações estáveis, não têm iPod nem dão muita bola para a São Paulo Fashion Week

Bigodes, bigodes por toda parte. Na pista, a meia-luz, os bigodes dançam e flertam, pedem coquetéis, um gim-tônica, flutuam sobre os copos de hi-fi, puxam papo. Castanhos, brancos, tingidos. Bem aparados, molhados de cerveja, cantam Maria Bethânia, Roberto Carlos. Vibram quando da cabine do DJ saltam os primeiros naipes da orquestra de Ray Conniff. Alguns, tímidos, escondem o sorriso; outros, os mais atirados, se aproximam, falam no ouvido. A música fica lenta e os bigodes, bem juntinhos, deslizam pelo baile. A festa começou. O de bigode prateado é o Ivan Santos. Contador, tem 50 anos e freqüenta o ABC Bailão há oito. Há quatro anos, ele organiza no Bailão uma noite beneficente que arrecada alimentos para uma creche. Ivan já foi casado e tem duas netas; pediu o divórcio porque não queria manter uma vida dupla. É homossexual assumido desde os 25 anos. No momento, Ivan está solteiro. Procura alguém de 25 a 35 anos para um relacionamento sério. “Quero conhecer uma pessoa pra ficar junto, sair pra jantar, bater papo”, explica Ivan. “Um homem sincero, que tenha bom caráter e dance forró direitinho, de preferência de rosto colado.” Ivan (que no Orkut participa de comunidades como “Procuro Namoro Sério entre Gay”, “Timão Bicampeão da Parada Gay” e “Dormir de Conchinha”) namorou cinco anos um companheiro que conheceu no bailão. “É um ótimo lugar para fazer amigos”, diz.

O ABC Bailão, no centro de São Paulo, existe há mais de  dez anos. Abre de quinta a domingo e recebe cerca de 450 pessoas por noite. Amarildo Donizete, 44 anos, bigode preto com fios grisalhos, é um dos dois sócios. Fala que o sucesso da casa se deve ao clima família. “Aqui não temos dark room, é proibido ficar sem camisa e os seguranças fazem rondas periódicas e advertem os mais empolgados para evitarem uma pegação excessiva”, conta. Michês, travestis e drag queens não são habitués do local, e na pista, no lugar dos costumeiros go-go boys, colunas gregas e uma samambaia.

Às quintas-feiras, o ABC (sigla que significa “Amigos Bailam Comigo”) é predominantemente da terceira idade. Quem tem mais de 50 anos paga cinco reais de entrada com direito a uma cerveja. Incluído no preço, um farto buffet de frios, tortas, saladas e frutas. “O que faz mais sucesso é a batata com alecrim e sal grosso”, revela o chef Erasmo Bezerra, 40 anos, responsável pelo buffet. Esfihas, coxinhas e croquetes também estão entre os preferidos da noite, que ficou conhecida como “fome zero”.

Nas pick-ups, os DJs Francisco e Fernando tocam de tudo. De rock a sertanejo. De flashback a bolero. “É o baile do talco, porque olhando de cima só vemos cabeça branca”, brinca o DJ Francisco, de 47 anos, enquanto alisa o bigode e levanta a pista com uma canção da banda Calypso. “Tem cliente que traz CD de casa pra gente tocar”, comenta o DJ Fernando. “Quando  colocamos Madonna no telão, a interação é total.” Fernando, bigode castanho, 40 anos, diz que é comum receber cantadas. “O pessoal paquera, manda telefone, mas tudo no maior respeito”, fala.

As pessoas que frequentam o Bailão são discretas. João (nome fictício), por exemplo. Ele tem 57 anos, usa sapatos, cinto e bigode caramelo. É de Bauru e, funcionário de uma estatal, costuma vir a trabalho para São Paulo. Ninguém de Bauru — nem família, nem amigos — sabe que ele é gay. “O preconceito é muito grande, não mudou nada”, assegura. João já teve namoradas, mas só para disfarçar sua opção sexual. Quando vem a São Paulo se hospeda em um hotel na avenida Vieira de Carvalho, na Praça da República, perto de boates como a recém-inaugurada Cantho e de bares como o Caneca de Prata e o Lord Byron, pontos de encontro do pessoal mais velho. João, como a maioria dos frequentadores do ABC Bailão, não gosta de homens afeminados. “Prefiro machos, homens de verdade”, diz.

Continue lendo

eu não quero voltar sozinho*

Posted in diversidade, filme with tags on 29/07/2010 by Homofobia Já Era

E se você tivesse um filho? E se seu filho fosse cego? E se seu filho fosse cego e gay? Daniel Ribeiro, o diretor da delicadeza da diversidade, tenta ajudar a responder e nos entender com seu novo curta-metragem.


* Prêmio de público, crítica e júri no III Festival Paulínia de Cinema

assim avançamos

Posted in direitos GLBTT, diversidade with tags on 23/07/2010 by Homofobia Já Era

pink nique

assim melhoramos

Posted in direitos GLBTT, diversidade, esporte, homofobia with tags on 22/07/2010 by Homofobia Já Era

transurfer

Posted in comportamento, diversidade, gênero with tags , , on 14/07/2010 by Homofobia Já Era

(publicado originalmente na revista Trip nº 184  por Jamie Brisick)

 

Transurf

O australiano Peter Drouyn foi um dois mais importantes nomes do surf mundial por duas décadas. Agora, às vésperas de completar 60 anos, ressurgiu após longo sumiço. Virou Westerly Windina, senhora elegante e atrevida. E nunca foi tão feliz

Não conhecia Peter Drouyn, mas certamente tinha ouvido falar dele. Peter foi o campeão australiano de surf em 1970, inventou o formato de competição em baterias homem a homem, foi o primeiro surfista profissional a posar nu em uma revista e também o primeiro a aparecer em uma propaganda com a cueca lambuzada de ketchup, enquanto desafiava Mark Richards, quatro vezes campeão mundial. Ao longo dos anos 70 e 80, Peter foi um dos maiores visionários do esporte, mas, por uma série de razões interessantes, desapareceu da cena. E, então, em setembro de 2008, ressurgiu, em um programa popular da TV australiana, vestido de minissaia, salto alto e peruca loira. Anunciou que estava vivendo como uma mulher e que sempre acreditara ser uma mulher presa em um corpo de homem. “Meu novo nome”, disse em um suspiro, “é Westerly Windina”.

A história foi uma explosão. Espalhou-se por toda a Austrália e depois para Europa e Estados Unidos. Surfistas conservadores acharam a atitude ofensiva. Velhos fãs de Peter Drouyn se sentiram traídos. Pessoalmente, achei fascinante. Como é nascer no corpo errado? Como Westerly emergiu exatamente? Ela é feliz? Foi operada? O que acham os amigos e a família de Peter? E, talvez mais importante, se ela agora é Westerly Windina, o que aconteceu a Peter Drouyn?

Nascido em 1950 e crescido na Gold Coast australiana, Peter foi uma criança sensível e sonhadora. Amava filmes de caubóis e índios e costumava ir para um canto isolado de seu jardim reencenar algumas seqüências. Mas, em vez de interpretar o caubói, colocava batom e minissaia e representava a jovem índia. Adorava flores e “fingia depilar” as pernas. Antes que nascesse, o médico garantiu a sua mãe que ela estava grávida de uma garota.

Peter surfou sua primeira onda aos 11 anos e participou do primeiro campeonato aos 15. Pouco depois, em 1965, ganhou o Queensland Titles, que lhe rendeu um convite e passagem de ida e volta a Sydney para surfar no famoso Australian National Titles. Na noite antes do evento, participou de um banquete para os competidores no Manly Hotel. A certa hora, um trio de surfistas hostis passou a provocá-lo, dizendo que ele não tinha chance nas competitivas divisões júnior. Depois do banquete, Peter andou até a beira da praia para checar as ondas. De repente, os três surfistas pularam em cima dele. Dois seguravam seus braços, enquanto o terceiro socava seu rosto. Foi levado até o hospital, onde recebeu 12 pontos na cabeça e quatro nos lábios. Os médicos imploraram para que ele ficasse longe da água. Mas ele não seguiu o conselho e venceu a primeira bateria na manhã seguinte – e todas as outras depois. Na final, surfou de forma impressionante, à frente do seu tempo. De pé no pódio em frente aos aplausos da multidão e aos flashes dos fotógrafos, com seu troféu erguido bem alto, o rosto coberto de faixas, o adolescente Peter sentiu-se um campeão de boxe, um Cassius Clay.

“No momento em que comecei a acreditar que era uma garota, meu corpo começou a se transformar. Fui de um gorila quadrado para uma mulher delgada”

Pênis-sanguessuga

Estou sentado em frente à senhorita Westerly Windina, em um restaurante italiano de Queensland, Austrália. Ela veste uma blusa branca, jaquetinha vermelha, saia preta, sandália de bailarina branca e preta, estilo Chanel, e jóias pesadas. Lembra a avó de alguém, mas na moda e ousada. Os modos são delicados, de coquete. Trago uma longa lista de perguntas íntimas que pareciam legítimas quando as ensaiei no caminho para cá, mas, agora, na presença desse ser vulnerável e de fala macia, parecem totalmente inadequadas. Westerly, porém, vai direto ao ponto.

“Esta é a revelação de alguém experimentando uma nova existência”, diz. “Fui colocado em uma nova dimensão. Parece esquisito, eu sei. Vivo dizendo para as pessoas: ‘Não é intencional’. Esta garota está solta, mas é real. E, quanto mais entro nisso, menos provável que eu queira sair.” Explica que Peter nunca foi homossexual, nem Westerly é lésbica. Ela é temporariamente assexuada. Acredita que, para uma “transição” apropriada, é essencial um período de abstinência sexual.

Westerly refere-se a si mesma na terceira pessoa, e a Peter na terceira pessoa no pretérito. Lembra uma atriz falando de seu personagem em um filme. Pergunto se fez a operação. Westerly responde que não importa. “Não importa se você ainda anda por aí com testículos e um pênis. É como se os testículos e o pênis fossem estrangeiros. Não deveriam estar lá! E você tem que se livrar deles assim que possível. É como uma sanguessuga que se infiltrou no seu corpo, você tenta arrancá-la, mas metade dela está presa. Mas se você sabe que é uma garota, e a operação está por vir, o que importa?”

Depressão e teatro

Peter Drouyn escalou rankings rapidamente. Venceu o Makaha Pro em 1970 e foi às finais do famoso Bells Beach em 71, 74 e 77. Foi pioneiro de um estilo agressivo que influenciaria a “revolução das pranchinhas” no fim dos anos 60. Surfou ondas gigantes, assustadoras, em Sunset Beach e Waimea Bay, apareceu em revistas e filmes de surf e transou com belas mulheres em países estrangeiros. Foi uma das maiores estrelas do surf de sua era, conhecido pelo estilo exibicionista dentro e fora das águas.

Mas, apesar de seu sucesso, havia uma profunda desconexão entre sua persona pública e privada. Por fora, era carismático, mas internamente se sentia pouco apreciado. Para Peter, o mundo do surf nunca o levou a sério, nunca reconheceu suas contribuições. Sofreu terríveis crises de depressão. Tinha o que os médicos hoje diagnosticam como transtorno obsessivo-compulsivo. Receitaram vários remédios, nenhum funcionou.

Em 1971, se matriculou no Instituto Nacional de Artes Dramáticas, em Sydney. Estudou o método Stanislavski, em que os atores mergulham em emoções e memórias para compor os personagens. Peter era um ator nato. Participou de peças e comerciais de TV e chegou a conceber um Método do Surf, fusão da técnica Stanislavski com seu estilo no esporte. Esse conceito foi documentado em Drouyn… and Friends, filme de 1973 em que surfa em Bali, França, Japão e ilhas Maurício e corre pelado pelo deserto de Angola.

“É como se os testículos e o pênis fossem estrangeiros. Mas, se você sabe que é uma garota, e uma operação está por vir, o que importa?”

LSD e Muhammad Ali

Westerly lembra-se da carreira de Peter com tristeza. Acredita que os colegas nunca o entenderam ou apoiaram. Se sentia terrivelmente sozinho. “Peter era extremamente sensível.” “Peter tinha emoções de uma garota.” “Peter passou por tanta dor.” Ela diz que surfar ajudou a salvar Peter, mas o manteve à distância de seu verdadeiro eu, que só iria emergir quando tinha 50 e poucos anos.

Pergunto quais eram os heróis de Peter quando jovem, e ela menciona Muhammad Ali, Juan Belmonte (o famoso toureiro espanhol) e… “você não vai acreditar nisso, mas também Marilyn Monroe de O rio das almas perdidas, O pecado mora ao lado e Nunca fui santa; mas me decepcionei com ela em Os desajustados”. Westerly se ilumina com a menção a Marilyn. Diz sentir uma afinidade enorme com a estrela. Lembra que ambas sofreram ataques de pânico, foram internadas em instituições psiquiátricas e tomaram LSD na mesma época, entre outras “coincidências Marilyn” de uma lista. “Se você virar minhas iniciais de ponta cabeça, W.W., o que vira?”

Nesse momento, volto a conversa para Peter. “Se Westerly Windina está viva, então o que aconteceu a Peter Drouyn?” Ela toma um gole de água. “Ele se foi…”, faz uma pausa para se aprumar, “acho que ele está lá em cima com mamãe e papai”, diz, apontando para o céu.

Teatro, Método do Surf, bateria homem a homem e ideias excêntricas e futuristas se fundiram em 1984, quando Peter Drouyn desafiou o campeão Mark Richards. As propagandas nas revistas de surf eram lendárias: Peter de cueca, lambuzado de ketchup, posando de gladiador, com provocações estilo Muhammad Ali pela página. O desafio foi um desastre. Peter reuniu o primeiro sistema de computadores de contagem de pontos, juízes do Instituto Nacional de Artes Dramáticas, uma coleção de diferentes pranchas para determinar “o surfista mais versátil” e cobertura de mídia de todos os cantos da Austrália. Mas, no dia do evento, uma tempestade fez o circo literalmente voar para fora da praia.

A parada seguinte foi o Extremo Oriente. Matriculado em cursos de mandarim e cheio dos australianos, Peter decidiu que iria levar o surf à China. Redigiu uma proposta formal, apresentou-a ao governo chinês e, em 1985, tornou-se o primeiro professor de surf oficial do país. Foi recebido como membro da realeza e se sentiu “um Lawrence da Arábia” no primeiro mês. Mas depois as coisas foram de mal a pior, e ele voltou para casa.

O final dos anos 80 e todos os 90 foram duros para Peter. Quebrou financeiramente e teve crises de depressão. E, então, em 2005 foi surfar em Burleigh Heads, perto de casa, e teve uma experiência que transformou sua vida. As ondas passavam pouco da altura da cabeças mas, em uma vaca rotineira, ficou debaixo d’água por um tempo anormal. “Nunca vou esquecer a sensação”, lembra Westerly. “Peter se sentiu terrivelmente desorientado, não sabia diferenciar o que era o raso e o fundo.” Depois do que pareceu uma eternidade, Peter emergiu com um jorro de sangue saindo da orelha esquerda. Se agarrou à prancha e boiou até a praia. Por um longo tempo, ficou deitado na areia, o mundo girando à sua volta.

Pantera de andar gracioso

Pouco depois disso começou a mudar. Saindo da praia um dia, Peter encontrou um shortinho na areia. A peça era rosa e branca, de garota. Serviu perfeitamente. Rodou então os brechós locais atrás de roupas femininas. De noite, sozinho em seu apartamento, colocou música clássica, experimentou as roupas novas e dançou pela sala. Depois ele faria o mesmo na praia. Em pouco tempo, já usava mais roupas femininas do que masculinas.

“No momento em que comecei a acreditar que era uma garota”, conta Westerly, “meu corpo começou a se transformar. Fui de um gorila quadrado para uma mulher delgada. A cintura está mais alta, a bunda ficou empinada. Os médicos não conseguem acreditar!” Westerly toma seu café latte com três colheres de açúcar. Suas emoções parecem estar sempre à flor da pele. Pode ir da risada à lágrima numa mesma frase. Lamenta os infinitos maus-tratos a Peter e, de repente, anima-se para falar da recente transformação. “Foi como uma intervenção divina. Como se Westerly brotasse de mim.”

Quando pergunto se poderia imaginar voltar a ser Peter Drouyn, ela diz que absolutamente não, que a vida de Peter foi um desastre, que sempre quis ser uma garota. Perguntada sobre o que sua família e amigos pensam a respeito, responde que seus pais estão mortos e que não tem tantos amigos assim. Ao irmos para um gramado em frente, ela me pergunta se quero vê-la andar à minha frente. É um caminhar feminino, gracioso, como o de uma pantera. Com seus lábios vermelhos, cabelo loiro brilhando ao sol e saltos altos fazendo barulho no cimento, é fácil imaginar um vento malandro levantando sua saia e revelando as coxas, como Marilyn.

Nos meses seguintes, passamos a conversar quase diariamente. Westerly estava radiante e otimista em um dia, derrotada e deprimida no seguinte. Em um telefonema, diz: “Meus peitos estão ficando maiores. Minha voz subiu uma oitava. A cada hora fico mais feminina”. Ela conta que vai me enviar auto-retratos e menciona “a operação”, que pretende fazer o mais rápido possível.

A história de Westerly me mostrou que, de um lado, nossos corpos são prisões às quais estamos confinados por toda a vida; e que, por outro, sempre podemos nos reinventar e reconstruir.

um sábado no bar do netão, no baixo augusta

Posted in comportamento, cotidiano, diversidade, opinião with tags on 12/07/2010 by Me

Meses atrás, depois de assistir Direito de Amar (A single man, 2009), resolvemos dar uma volta nos arredores da Paulista. Passamos no Tostex, chegamos a subir, dar uma olhada e o clima de encontro de amigos não soou muito convidativo. Estávamos com fome, mas não queríamos jantar. Então, optei por comer um lanche simples no café do Ícone Espaço Cultural. Apesar do atendimento um tanto deficiente (um pedido de três itens chegaram separados), o lanchinho tostado de pão de forma com queijo estava gostoso e segurou a onda. Depois, a idéia era ir para um bar e tomar uns gorós antes de ir pra casa. O Volt, que fica na Haddock Lobo, era uma opção. Mas optamos por dar uma olhada na movimentação do Baixo Augusta.

Não sou afeito a tomar cerveja na calçada de botecos, mas ver aquela galera toda na rua, na Rua Augusta, é muito bacana. Reafirma a vocação noturna do lugar, que na década de 60 era point, mas que passou longos anos entregue aos inferninhos o que reduzia o potencial noturno de lá. Hoje os inferninhos continuam lá (ainda bem!) mas se misturam com lugares para outras tribos. Pode ser um barzinho que apaga a luz e liga o som para virar uma baladinha ou botecos de luz acesa servindo cerveja – e é o que importa: gente e cerveja. Dá um clima de liberdade e prazer poder andar na rua, no Centro de São Paulo, sem medo ser assaltado.

E foi descendo a Augusta, um pouco depois da esquina com a Peixoto Gomide, que vimos uma (mais uma) muvuca. Paramos. Havia um clima diferente, de tipos heterogêneos, não dava para definir um estilo. Chegando na porta do bar, parecia que era tão pequeno que poderia ser medido com poucos passos. Mas uma movimentação, um entra e sai e música eletrônica, deixava a dúvida: de onde vem e vai tanta gente? Entramos. Como que andando no escuro, fomos dando passos curtos rumo ao fundo do pequeno bar. E surpreendentemente, no fundo, dois ou três degraus abaixo do nível da rua, tinha uma micro pista de dança, tiras de plástico brilhante grudadas no teto que refletiam as poucas luzes coloridas. Ahn? Uma pista de dança onde se entra e sai livremente? Sim, era isso. E aquilo pareceu fascinante. Diferente de outros lugares e países, em São Paulo, não é comum poder estar numa pista de dança, sem antes passar por uma fila e pagar pela entrada. No Bar do Netão (R. Augusta, 822 B, São Paulo, SP) as pessoas entram e saem livremente, vão até a calçada, se misturam com todo o trânsito de pessoas, tomam uma cerveja e voltam para pista de dança, num movimento de revezamento que parece ensaiado já que o espaço é diminuto.

E na pista, havia uma rica fauna humana composta por hetero comportado, lésbica, modernete de óculos fundo de garrafa, gay, andrógino de moicano, tio freak, roqueiro, skatista, gente feia, gente bonita, tudo isso num espaço bem apertado, teto baixo ao som misturadão que passou, entre outras coisas, por Miss Kittin e Michael Jackson. E aquela falta de uniformidade na música me pareceu adequada ao clima de diversidade que é a cara daquele lugar.

Às vezes, não estamos a fim de ficar dentro de um quadrado fechado ouvindo um som tão alto que nem conseguimos conversar. É bom poder ir até a calçada, respirar, ver gente subindo e descendo, ver um cenário diferente das baladas que costumamos ir. Espero que lugares assim, se tornem uma tendência.

Quem sabe é uma forma efetiva das pessoas saírem de suas caixas para ganhar as ruas livremente, exercendo o direito de ir e vir sem ter que dar satisfações a hostess, ao segurança, nem ninguém. Sem ter que ficarem fechadas dentro de um cubo que só se abre com o nascer do sol, sem medo de se misturar. Exercendo a liberdade de ser ou não ser diferente.

se eu pudesse escolher não ser gay, eu não seria

Posted in diversidade, homofobia, mídia, opinião, orgulho, vídeos with tags , on 15/06/2010 by Professor Carlinhos

A participação de três homossexuais assumidos na décima edição do Big Brother Brasil causou uma grande discussão entre os militantes. Alguns comemoraram com entusiasmo a presença de Dimmy, Dr Orgastic e Angélica no programa da rede Globo. Outros protestaram tendo em vista que a participação no programa não garantiria visibilidade, já que os representantes não teriam capacidade de levar o debate sobre os direitos dos GLBTs à mídia. Alguns chegaram a argumentar que Sérgio e Dicésar, especialmente, contribuiriam para uma maior estereotipização, já que os dois eram demasiadamente afeminados (discurso que esconde consigo uma forte dose de homofobia).

Na primeira edição do BBB muita gente curiosa quis comparar o programa a uma experiência científica, como se os participantes fossem ratinhos de laboratório. A realidade, porém, mostrou que não era nada daquilo. Nada de ciência. Nada de filosofia. Imagem, apenas. Uma boa produção, roteiro e edição, como qualquer novela que se preze. Na décima edição os participantes foram divididos por tribos, uma mais questionável que a outra. A única tribo que parecia ter um significado era a dos coloridos (nome que “pegou” dentro do universo GLBT). A direção do programa (diga-se Boninho) foi enfática ao privilegiar a participação dos coloridos.

Quando Dicésar disse em uma conversa com a parceira Angélica que se pudesse escolher não ser gay, ele não seria, muita gente do movimento caiu em cima da diva das boates e paradas gay. Dimmy Kieer, com todo o seu brilho, não escondeu um dilema existencial que – não sejamos hipócritas – está presente na vida de grande parte dos homossexuais. É claro que é necessário fazer campanha pelo orgulho gay, no entanto, não é preciso esconder os dilemas que essa orientação traz para a vida do sujeito.

Essa semana saiu uma propaganda no site da Folha falando sobre o livro A Experiência Homossexual de Marina Castaneda (A Girafa). Sérgio Ripardo escreveu na resenha:

Nunca estamos preparados para sair do armário. Não sabemos o que dizer para amigos, parentes e colegas de trabalho. Tememos suas reações. Pagamos um preço alto por expor em praça pública nossa orientação sexual, ainda estigmatizada. O roteiro mais frequente desse rosário: alguns amigos fogem de você com medo de serem confundidos ou vistos como “metidos com gays”; as namoradas deles desconfiam de você, que passa a ser encarado como uma “ameaça”; dependendo do seu emprego, não espere entusiasmo, afinal, muitas empresas ainda consideram o assunto um tabu.

Na aula sobre machismo e homofobia que dei aos meus alunos, esta semana, eu tive que falar do Freud. Perguntei a um aluno da sala se ele gostava de bife de fígado, ao que ele respondeu: “não”. Então perguntei-lhe quando foi que ele decidiu não gostar de bife de fígado. Silêncio na sala. Aproveitei a brecha para explicar alguma coisa que eu sei sobre o Id: o campo dos desejos é impulso, é animal e é inconsciente, não faz parte daquelas coisas que a gente escolhe. Se o sujeito heterossexual está no ônibus lotado e pára em sua frente uma menina linda e cheirosa, ele não tem como segurar a ereção. A sala foi ao delírio quando eu disse isso, é claro, o que me proporcionou maior segurança para continuar o debate.

Expliquei à galera que o Superego também é inconsciente e é a parte da nossa personalidade responsável pela moral: aquelas regras básicas de convivência que são construídas ao longo de nossas vivências. Segundo Freud, o homem não seria capaz de viver em sociedade se não fosse regido por leis. Assim, o cara no ônibus logo pensaria: “putz, aqui eu não posso” e procuraria sublimar seu desejo. Essa reflexão é feita pelo Ego (parte consciente da nossa personalidade), contei eu à meninada.

Foi aí que chegamos ao ponto: e quando o menino que está no ônibus lotado, voltando do trabalho, fica excitado quando um rapaz bonito, forte e cheiroso pára em sua frente? O que ele vai pensar? A primeira coisa que vem à cabeça é um NÃO do tamanho do mundo. A mesma coisa diz a autora do referido livro em trecho que foi publicado na propaganda do site da Folha:

Com efeito, todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral. Dar-se conta de que isso, provavelmente, não acontecerá, e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante e, como em qualquer perda, há um trabalho de luto a ser feito.

Assim, não fica difícil entender a honestidade contida no desabafo de Dicésar. Essa edição do BBB foi positiva, sob o meu ponto de vista, por ter trazido à tona alguns debates que não tinham tido espaço até então.  O pessoal do Homomento registrou no seu site o aumento das pesquisas relacionadas ao verbete “homofobia” quando Dicésar acusou pela primeira vez o seu colega de confinamento (Dourado) de homofóbico.

Os que se empolgaram com a participação dos homossexuais no programa tiveram uma grande decepção quando viram Marcelo Dourado comemorando a vitória do jogo. Mas o jogo é importante pra quem? Ao meu ver, a participação de Dimmy, Serginho e Angélica promoveu uma discussão muito importante e fez com que o público pudesse ver aqueles homossexuais como pessoas comuns, não como aberrações nem como estrelas. O desabafo de Dicésar nos permite realizar outras discussões. Até quando vamos continuar comemorando o “orgulho gay” enquanto as pessoas, especialmente os mais pobres (homossexuais trabalhadores, michês e travestis), sofrem com os dilemas existenciais, com a violência e com a cooptação dos movimentos pelos interesses do capital?

Os que achavam que Angélica, Dimmy e Serginho não eram representantes dos homossexuais na televisão talvez tivessem razão. Mas quem disse que precisamos de representantes? Precisamos, isso sim, de promover um debate e pensar mais profundamente sobre nossa condição para poder transformá-la. Pessoalmente, eu acredito que a participação dessa gente naquele programa nos ajudou a criar alguma reflexão. Era só o que eu esperava deles. E, agora, eu espero que possamos usar dos elementos que nos deram para construirmos de forma mais madura e com seriedade um movimento que verdadeiramente represente os anseios da maioria dos homossexuais desse país e do mundo.

Veja além das aparências

Posted in comportamento, diversidade, editorial, homofobia, imprensa, opinião, orgulho, revistas with tags , , , , , , , on 11/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

Adriano Mascarenhas Adoro ingenuidades. Eu mesmo sou um ingênuo confesso. Acho que a palavra é o bem / dom mais precioso que temos, e se uma pessoa me diz algo verossímil – especialmente quando referindo-se a si mesma ou a algo que cuja única fonte necessária seja sua palavra – não fico duvidando não, acredito de primeira.

Imagine só: Você poderá me dizer “Eu estudei na França e falo fluentemente a língua de lá”, e pra mim estará tudo bem, porque vou acreditar na sua palavra. Também espero que acreditem em mim quando eu falar. Mas transparência é tudo. Esses ditos precisam encontrar respaldo na realidade objetiva, ou, do contrário, acabarão sendo desmascarados, colocando em franco descrédito aquele que tiver emitido tais “falsas verdades”. Se eu te perguntasse, na hipótese sugerida, como dizer “A Veja é mentirosa” em francês e você não soubesse me responder, eu poderia te chamar de mentiroso, não poderia? Le magazine Veja est un menteur!

A Veja Mente Este é um texto sobre a reportagem de capa da Veja de 12 de maio de 2010, chamada “A geração tolerância”. A matéria trata da naturalidade com que alguns grupos de adolescentes têm vivenciado sua homossexualidade. Se você é dos meus, você viu “Veja” nessa frase e já ficou com os dois pés atrás. Pois é. Fez bem. Eu poderia deixar de lado minhas animosidades em relação a essa revista e escrever um texto neutro, deixando para expressar meu ponto de vista apenas no final, mas acho que podemos pular essas formalidades, uma vez que não é de hoje que essa revista se mostra inimiga dos movimentos sociais. Em todo caso, vou pedir que leia primeiramente o texto original antes de continuar. Não quero te influenciar demais.

Já foi? Ótimo. Porque se você está lendo este texto, quero crer que você é alguém com pelo menos um mínimo de consciência a respeito da causa LGBT, a ponto de já ter sentido as entrelinhas da matéria e o que nós podemos falar sobre ela.

Continue lendo

Uma Festa Virtual

Posted in comportamento, cotidiano, diversidade, eles, homoerotismo, tecnologia with tags , , , , on 05/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

A promessa dos sites de pegação é clara: Facilitar encontros entre homens. Sites como o Manhunt e o Disponível devem receber adesões diárias por parte de um público interessado em encontrar alguém, numa ou noutra medida, para propósitos diversos. Fora o “clássico” Batepapo UOL e outros sites com propostas similares a estes.

Poderia eu alicemente suspirar e dizer “Uau, as novas tecnologias e a internet estão melhorando a vida dos gays”. Tá, confesso: De certa forma, eu penso assim mesmo, mas hoje preciso falar aqui é de uma visão menos idealizada desse ambiente virtual de interação entre homens gays. Não é porque eu adoro a internet que vou deixar de refletir sobre ela, certo? Certo!

Primeiro vamos oferecer algum contexto para quem não sabe como funcionam as coisas. Na maioria desses sites, você pode criar um perfil e colocar uma descrição sua e de quem você está procurando, além de acrescentar fotos e fazer buscas por pessoas com características específicas. Se você mora na Zona Sul de São Paulo e quer encontrar perto da sua casa um urso afim de sadomasoquismo e leather, é só dar uns cliques, e, se alguém preencher as características da busca, logo o perfil aparecerá na tela para que você possa entrar em contato e combinar algo.

Continue lendo

%d blogueiros gostam disto: