Archive for the mídia Category

Programa "Melhor e Mais Justo": União Estável

Posted in mídia, União Civil Homoafetiva, vídeos with tags , , on 11/08/2011 by Homofobia Já Era

As relações homossexuais sempre foram vistas de forma preconceituosa no Brasil, um país construído culturalmente sobre o moralismo católico.
Apesar da aprovação da união homoafetiva por unanimidade no supremo tribunal federal, a luta para obter a igualdade de direitos ainda promete ser longa.
Programa “Melhor e Mais Justo” exibido em 30/06/2011

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Parte 1

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Parte 2

 

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Parte 3

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"a última homofóbica" do rio de janeiro*

Posted in bullying, ciberativismo, cidadania, mídia, opinião, política, Redes Sociais, web with tags , on 26/01/2011 by Rafael

wanted-rickNo domingo, dia 23 de Janeiro, uma história envolvendo André Fischer, editor do site Mix Brasil, seu namorado, uma amiga e um amigo que está indo pra Berlim fazer um curso de curadoria chocou o Brasil (clique aqui para ler o artigo, intitulado "Caramba, fui vítima de homofobia" ).

Enquanto esperavam na fila para ver uma exposição, foram verbalmente agredidos por uma moça visivelmente perturbada psicologicamente. “Parecia uma pessoa possuída”, segundo o próprio autor do texto. Ligaram para a polícia e para o Brasil Sem Homofobia, não recebendo retorno de nenhum dos dois durante a hora em que ficaram cercando a “homfoboba” (sic) no saguão do CCBB.

O editor do site publicou uma foto e pediu que todos buscassem “a louca” para evitar que ela continuasse agredindo gays. E todos os gays se mobilizaram na busca do que parecia ser a última homofóbica do Brasil. Bastava encontrá-la, que a luta estava encerrada! Uma moça de uns 30 anos, desequilibrada, fora das ruas, vai trazer todos os avanços que a comunidade LGBT almeja. A luta contra o preconceito não começa com as leis, pressionando os governos. Ela começa nas ruas, combatendo indivíduos.

Ok, eu não concordo com isso, e espero que você também não. Mas antes de discordar da solução encontrada por André Fischer, certifique-se de que você é branco, porque, segundo o próprio, chamar alguém de “bicha escrota” equivale a chamar de “preto escroto” qualquer preto escroto que discorde da sua ação (como foi o caso da segurança negra do CCBB).

Já que a comparação foi feita, não precisamos ir longe para ver o quanto a luta negra se diferencia do ato praticado ontem na internet: o sonho de Martin Luther King nunca foi o de publicar em jornais os dados dos racistas. Nelson Mandela também não fez isso. Quem publica fotos de indivíduos com seus endereços, telefones e outros dados é o governo de Uganda, que é declaradamente contra a homossexualidade; prática que é combatida por órgãos contra homofobia em todo o mundo. No caso do editor, seu namorado e seus amigos que vão morar em Berlim, entretanto, fez-se o mesmo. Uma perseguição à bruxa, a última homofóbica do Brasil.

Mandela nunca teria conseguido o que conseguiu publicando fotos de quem não o deixava entrar nos ônibus. Racistas existem ainda hoje e existirão por um longo tempo, infelizmente. O segredo para o fim do preconceito está na lei, e não na cabeça das pessoas. Sendo perseguida, ela, a bruxa do CCBB, não irá parar de odiar gays, mas se a polícia tivesse chegado a tempo, talvez ela não estivesse solta. Ela e tantos outros agressores, assassinos até.

Em nenhum momento do post ou da mobilização na internet, foi-se comentado sobre o engavetamento do PLC 122/2006, projeto de lei que faria deste acontecimento um crime. Poucos homossexuais que sabem o nome, endereço, Facebook e MSN da última homofóbica do Brasil sabem nomear pelo menos um senador que é contra o PLC 122/2006, contra o casamento gay, e por aí vai…

Escolhemos o barraco e a fofoca antes da mobilização e ação política. Agimos como bichas verdadeiramente escrotas. Mais interessante do que divulgar a foto para os internautas, seria levar a foto à delegacia e fazer uma reportagem sobre as investigações. O que importa de verdade são os nossos direitos, que devem ser garantidos pelo Estado. O resto, cada enrustido ou mal-comido que resolva entre as quatro paredes. Ou então atrás das grades!

capuz2 * Essa é a estréia de mais um colaborador do blog: Rafael Puetter é roteirista e videomaker. Acredita que a luta por direitos iguais deve ser parte da vida de todo aquele que é diferente (ou seja, todo mundo). Escreve para o blog http://brinkstv.wordpress.com e no twitter @rafucko.

Gays na mídia: qual o “outro” lado?

Posted in imprensa, jornalismo, mídia with tags , on 20/01/2011 by Luiz Henrique

Há pouco mais de oito meses, escrevi em meu blog sobre uma edição do programa Profissão Repórter. Destaco abaixo um trecho daquela reflexão para começar esta outra:

A equipe do Profissão Repórter não conversou com o pastor da igreja que diz ter algo a falar sobre homossexualidade; não perguntou o que a CNBB acha de tudo isso; não contatou a assessoria do Vaticano; não questionou o Poder Judiciário para saber das questões formais e do preto no branco; nem mesmo conversou com aquela psicológica que apregoa a cura da homossexualidade… uma falta de pluralidade imensa nesse programa; tudo monofônico, só gente que aceita gays, que superou o preconceito, que não quer reverter essa sexualidade desviante… Felizmente foi assim.

Manchete comum nos jornais brasileiros na década de 80.

Neste trecho acima falava especificamente de uma questão muito importante dentro do jornalismo: o enfoque, ou recorte que fazemos ao elaborar uma pauta. Esta discussão – eminentemente ética e crucial para a deontologia jornalística – é bem mais ampla do que parece, pois coloca ao jornalista (e ao editor, fotógrafo, editorialista…) diversas ponderações a serem feitas acerca da tematização que se dará a uma pauta, da escolha das fontes (portanto, idem das “não fontes”); depois do que efetivamente o jornalista escreverá, “contaminando” (aspas porque a palavra é feia, não?) profunda, total e irreversivelmente o texto com as escolhas que ele têm em mente – e no inconsciente; há ainda a diagramação, a fotografia e, a cereja, as declarações das fontes que serão utilizadas (portanto, idem as que não serão usadas). Enfim, é um campo de escolhas totalmente afinadas com a ética e com a política editorial do veículo.

Capa do jornal ugandense Rolling Stone: "100 fotos dos principais homossexuais da Uganda vazam". Na tarja vermelha: "Escândalo Nacional". Na tarja amarela: "Enforquem-nos".

Por isso quero recolocar este debate aqui focando na população LGBT e no fato de que as questões que concernem “aos gays” hoje são uma pauta recorrente na mídia – interessa-me no jornalismo especificamente. Lembro-me que em algumas aulas da graduação, quando discutíamos certas pautas, ficava pensando do porquê haver certa sacralidade na ideia de que “devemos ouvir sempre todos os lados”. É um cânone associado à pluralidade de vozes e opiniões no jornalismo que esconde, por sua aparente simplicidade conceitual, algo mais complexo: como definir o que é um dos lados? Quem definiu tal configuração de “lados de uma questão”? Não podemos – não devemos? – questionar este mantra diante de algo que nos incomoda? Todas essas perguntas eu me fazia quando pensava no (suposto) dia em que meu editor solicitasse fazer uma matéria sobre direitos dos gays, aceitação da população LGBT no Brasil, indicadores de violência, homofobia nas escolas, etc. Eu jamais daria espaço, na minha matéria, ao padre, ao pastor, ao assessor de imprensa do Vaticano ou a um pesquisador da Bob Jones University que têm algo a falar sobre “gays são pecadores”. “Eles” não são um lado desta questão para mim. Mas culturalmente são, não?

Decidi fazer esta reflexão hoje porque, nesta semana, encontrei um belíssimo artigo do crítico de mídia Eric Deggans, que escreve no St. Petersburg Times. Ele faz a analogia que sempre me pareceu lógica entre o racismo e a homofobia ao tratar da cobertura midiática (usando a CNN como exemplo pontual). Tomei, então, a liberdade de fazer uma livre tradução de sua coluna publicada em 17 de janeiro. Este dia*, para quem não sabe, é um feriado nacional nos Estados Unidos: foi instituído em 1986 em memória de Martin Luther King Jr.

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elas e seus amigos gays*

Posted in jornalismo, mídia with tags , on 19/10/2010 by Homofobia Já Era

Quase perfeitos: eles são sinceros, antenados com a moda, têm humor afiado, dão conselhos sobre amor e sexo… mas não querem namorar você

capa_revista_destaqueO homem ideal vai ao shopping com você, atura provas intermináveis de roupas e é sincero até as raias da crueldade sobre o resultado. Também repara se você cortou dois dedos de cabelo ou retocou um centímetro de luzes na raiz. Aliás, dá palpites certeiros no visual em geral, pois costuma ter ótimo gosto. E ele te segura quando você vai cair, do salto ou na vida, apoia seus projetos mais doidos ou te chama à razão, empresta o colo pra você chorar, é parceiro insuperável nas risadas. O homem ideal só tem um defeito: não quer namorar você. Porque é seu amigo. E é gay. “É a combinação ideal. Conversamos como duas pessoas que não têm sexo. Nunca competimos e torcemos sempre um pelo outro”, define o light designer Flávio Cossa, de 37 anos. Ele fala da arquiteta Letícia Muzetti, de 37 anos. “O Flávio é meu guru. Sou sua fã”, derrete-se ela. A dupla se conheceu há seis anos, numa parceria profissional que evoluiu para uma relação de respeito e confiança. “Com ele, converso de tudo. Do que pensamos, de planos para o futuro, dos problemas. Ele faz parte da minha vida”, afirma a arquiteta.

“A relação entre mulheres e gays parece dar certo porque acaba existindo entre ambos uma identificação”, analisa a psicóloga Patrícia Gugliotta, mestre em saúde mental pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para Patrícia, muitas mulheres encontram “o seu eu” nessa relação. “É como se o amigo gay a ajudasse ela a se descobrir”, afirma. A administradora de Logística Fabíola de Oliveira, de 29 anos, de Campinas, resume sem meias palavras: “A diferença é que não há a inveja da amizade entre mulheres e você não corre o risco de ouvir do amigo heterossexual que ele quer te pegar.” Ela é unha e carne com o assistente administrativo Vinícius Memória, de 31 anos. “Trocamos confidências sobre tudo. De contas a pagar a relacionamentos”, diz ele. “O Vinícius é sincero até demais, tem bom tino e é sensato. Passou pelo crivo dele, fico tranquila”, arremata Fabíola. Para o maquiador e professor de maquiagem Fabrício Crespo, de 32 anos, o melhor amigo da gerente de marketing Carolina Gargantini, de 26 anos, essa “atração” é bem lógica. “O gay tem uma relação de admiração pela beleza feminina, que se concretiza em conselhos de moda, de make. As mulheres adoram quem consegue levantar sua autoestima”, observa.

Flávio Cossa concorda e mostra que a recíproca é verdadeira. “Todo homem gay quer ter uma amiga bonita de quem se orgulhar. Fico em cima se a Letícia relaxa, adoro quando ela compra uma roupa nova. Quero vê-la brilhar”, entrega. Cossa e Crespo apontam outra vantagem inegável dos gays sobre a melhor amiga e o “espelho, espelho meu”. “Nós conseguimos mostrar o lado masculino da coisa. Sabemos os pontos fracos dos homens e as ensinamos a dominá-los”, garante o maquiador. “A gente acaba sendo uma lente através da qual elas enxergam a natureza dos homens”, completa o light designer.

Uma questão de química

Ressalte-se que as amizades verdadeiras, afirmam os entrevistados pela Metrópole, rejeitam estereótipos. Não entram nesse rol aquelas baseadas na preconceituosa ideia de “bichinha de estimação” e, mesmo que os gays costumem ter apurado senso estético, tampouco se trata de ter (apenas) um assessor pessoal de moda e beleza disponível 24 horas. É uma via de mão dupla, para o bom e para o mau. E também uma questão de química. “Somos muito parecidos, temos uma cumplicidade enorme. Damos gritos um com o outro, se for preciso. É uma amizade além do plano físico. Acredito que temos uma missão a cumprir juntos”, filosofa Fabrício Crespo. Ele e Carolina, umbandistas, entendem que algo os une numa outra dimensão.

“Eu divido tudo com ele. Todos os dias nos vemos. O Fabrício é o irmão que eu não tenho”, fala a gerente de marketing. Vinícius Memória e Fabíola de Oliveira já moraram juntos com outros amigos na época da faculdade e agora, ambos solteiros, pensam em dividir um teto novamente. Os laços que os unem se apertaram ainda mais quando ele passou por uma cirurgia bariátrica (de redução do estômago) e ela ficou firme ao seu lado. Com a família morando em Cosmópolis, ele precisou como nunca de apoio. “Ela cuidou de mim como uma enfermeira. Fazia minha comida e até adaptou a alimentação às minhas condições, junto com os outros amigos que moravam com a gente. E o cuidado se mantém até hoje”, comenta.  Já o light-designer Flávio Cossa começou a cursar Arquitetura apoiado pela amiga com quem divide vários projetos profissionais. “A Letícia acompanha minhas transições. Ela e o marido foram grandes incentivadores para eu entrar na faculdade.”

Fica tudo em família

elas-e-seusTermômetro da sinceridade dessas uniões é o entrosamento com as respectivas famílias. “Minha mãe adotou a Fabíola como filha. E os meus pais já conheceram os dela, que moram longe. Estendemos o nosso relacionamento a todos os aspectos das nossas vidas”, diz Vinícius Memória. O mesmo acontece com a arquiteta Letícia Muzetti e o light designer Flávio Cossa. Ele frequenta a casa dela e participa de eventos íntimos. “Meu marido não gostava, era preconceituoso, mas isso mudou. Digo que o Flávio é um marco na minha vida; com ele, veio o conhecimento e a naturalidade”, analisa Letícia. Até a filha do casal, de 12 anos, é fã do amigo da mãe. “Ela adora o Flávio. O humor dele é inteligente, sempre acrescenta.”

Carolina Gargantini faz programas “de casal” junto com Fabrício Crespo e o companheiro dele, sem encanações. De quebra, como fazem aniversário em 18 (ela) e 19 de outubro (ele), as festas e o parabéns costumam ser compartilhados com os amigos. “Além de ser meu maquiador pessoal, o Fabrício maquia a mãe. Eu saio linda e a mulherada ama ele de paixão.” O revendedor de roupas Sérgio Alberto Alves, o Serginho, de 43 anos, tem na casa da dançarina e professora de flamenco Karina Maganha, de 36 anos, seu porto seguro. Todas as vezes que desaba em São Paulo vindo de Florianópolis para abastecer seu estoque, passa por Campinas para vestir em primeira mão a amiga. E ali, onde ela mora com o marido (que confessa certo ciúme dessa cumplicidade) e o filho de 3 anos, ele fica hospedado o tempo que precisar. Como quando passou por uma cirurgia na boca e ficou aos cuidados da amiga. “Ele só tomava sopa de canudinho e não podia rir, o que é muito difícil, pois nossa amizade é como aquelas comédias bem atrapalhadas. As histórias dele são sempre engraçadas, até as trágicas”, fala Karina. “Temos o mesmo timing para piadas, nos entendemos no olhar. Nossa amizade vem se consolidando nos últimos 10 anos e, mesmo longe, sabemos que podemos contar um com o outro”, retribui Alves.

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se eu pudesse escolher não ser gay, eu não seria

Posted in diversidade, homofobia, mídia, opinião, orgulho, vídeos with tags , on 15/06/2010 by carlinhos

A participação de três homossexuais assumidos na décima edição do Big Brother Brasil causou uma grande discussão entre os militantes. Alguns comemoraram com entusiasmo a presença de Dimmy, Dr Orgastic e Angélica no programa da rede Globo. Outros protestaram tendo em vista que a participação no programa não garantiria visibilidade, já que os representantes não teriam capacidade de levar o debate sobre os direitos dos GLBTs à mídia. Alguns chegaram a argumentar que Sérgio e Dicésar, especialmente, contribuiriam para uma maior estereotipização, já que os dois eram demasiadamente afeminados (discurso que esconde consigo uma forte dose de homofobia).

Na primeira edição do BBB muita gente curiosa quis comparar o programa a uma experiência científica, como se os participantes fossem ratinhos de laboratório. A realidade, porém, mostrou que não era nada daquilo. Nada de ciência. Nada de filosofia. Imagem, apenas. Uma boa produção, roteiro e edição, como qualquer novela que se preze. Na décima edição os participantes foram divididos por tribos, uma mais questionável que a outra. A única tribo que parecia ter um significado era a dos coloridos (nome que “pegou” dentro do universo GLBT). A direção do programa (diga-se Boninho) foi enfática ao privilegiar a participação dos coloridos.

Quando Dicésar disse em uma conversa com a parceira Angélica que se pudesse escolher não ser gay, ele não seria, muita gente do movimento caiu em cima da diva das boates e paradas gay. Dimmy Kieer, com todo o seu brilho, não escondeu um dilema existencial que – não sejamos hipócritas – está presente na vida de grande parte dos homossexuais. É claro que é necessário fazer campanha pelo orgulho gay, no entanto, não é preciso esconder os dilemas que essa orientação traz para a vida do sujeito.

Essa semana saiu uma propaganda no site da Folha falando sobre o livro A Experiência Homossexual de Marina Castaneda (A Girafa). Sérgio Ripardo escreveu na resenha:

Nunca estamos preparados para sair do armário. Não sabemos o que dizer para amigos, parentes e colegas de trabalho. Tememos suas reações. Pagamos um preço alto por expor em praça pública nossa orientação sexual, ainda estigmatizada. O roteiro mais frequente desse rosário: alguns amigos fogem de você com medo de serem confundidos ou vistos como “metidos com gays”; as namoradas deles desconfiam de você, que passa a ser encarado como uma “ameaça”; dependendo do seu emprego, não espere entusiasmo, afinal, muitas empresas ainda consideram o assunto um tabu.

Na aula sobre machismo e homofobia que dei aos meus alunos, esta semana, eu tive que falar do Freud. Perguntei a um aluno da sala se ele gostava de bife de fígado, ao que ele respondeu: “não”. Então perguntei-lhe quando foi que ele decidiu não gostar de bife de fígado. Silêncio na sala. Aproveitei a brecha para explicar alguma coisa que eu sei sobre o Id: o campo dos desejos é impulso, é animal e é inconsciente, não faz parte daquelas coisas que a gente escolhe. Se o sujeito heterossexual está no ônibus lotado e pára em sua frente uma menina linda e cheirosa, ele não tem como segurar a ereção. A sala foi ao delírio quando eu disse isso, é claro, o que me proporcionou maior segurança para continuar o debate.

Expliquei à galera que o Superego também é inconsciente e é a parte da nossa personalidade responsável pela moral: aquelas regras básicas de convivência que são construídas ao longo de nossas vivências. Segundo Freud, o homem não seria capaz de viver em sociedade se não fosse regido por leis. Assim, o cara no ônibus logo pensaria: “putz, aqui eu não posso” e procuraria sublimar seu desejo. Essa reflexão é feita pelo Ego (parte consciente da nossa personalidade), contei eu à meninada.

Foi aí que chegamos ao ponto: e quando o menino que está no ônibus lotado, voltando do trabalho, fica excitado quando um rapaz bonito, forte e cheiroso pára em sua frente? O que ele vai pensar? A primeira coisa que vem à cabeça é um NÃO do tamanho do mundo. A mesma coisa diz a autora do referido livro em trecho que foi publicado na propaganda do site da Folha:

Com efeito, todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral. Dar-se conta de que isso, provavelmente, não acontecerá, e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante e, como em qualquer perda, há um trabalho de luto a ser feito.

Assim, não fica difícil entender a honestidade contida no desabafo de Dicésar. Essa edição do BBB foi positiva, sob o meu ponto de vista, por ter trazido à tona alguns debates que não tinham tido espaço até então.  O pessoal do Homomento registrou no seu site o aumento das pesquisas relacionadas ao verbete “homofobia” quando Dicésar acusou pela primeira vez o seu colega de confinamento (Dourado) de homofóbico.

Os que se empolgaram com a participação dos homossexuais no programa tiveram uma grande decepção quando viram Marcelo Dourado comemorando a vitória do jogo. Mas o jogo é importante pra quem? Ao meu ver, a participação de Dimmy, Serginho e Angélica promoveu uma discussão muito importante e fez com que o público pudesse ver aqueles homossexuais como pessoas comuns, não como aberrações nem como estrelas. O desabafo de Dicésar nos permite realizar outras discussões. Até quando vamos continuar comemorando o “orgulho gay” enquanto as pessoas, especialmente os mais pobres (homossexuais trabalhadores, michês e travestis), sofrem com os dilemas existenciais, com a violência e com a cooptação dos movimentos pelos interesses do capital?

Os que achavam que Angélica, Dimmy e Serginho não eram representantes dos homossexuais na televisão talvez tivessem razão. Mas quem disse que precisamos de representantes? Precisamos, isso sim, de promover um debate e pensar mais profundamente sobre nossa condição para poder transformá-la. Pessoalmente, eu acredito que a participação dessa gente naquele programa nos ajudou a criar alguma reflexão. Era só o que eu esperava deles. E, agora, eu espero que possamos usar dos elementos que nos deram para construirmos de forma mais madura e com seriedade um movimento que verdadeiramente represente os anseios da maioria dos homossexuais desse país e do mundo.

ressaca moral, bbb e afins

Posted in comportamento, diversidade, homofobia, mídia, opinião with tags on 24/02/2010 by petitte

Confesso: Gosto do BBB. Tenho minhas razões:

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Um programa popular. Mede o que interessa ao povo. Com o que as pessoas se identificam, as musicas que vão virar sucesso e os valores de julgamento sobre quem merece ou não o prêmio; Um entretenimento. Um jogo de relações humanas. Aprendemos um pouco mais sobre ‘gente” e situações extremas. O que as pessoas não fazem por 1 milhão de reais? Um programa bobo, mas que explicita como influenciar a população e o poder que a mídia tem para isso. Não raro as edições favorecem um determinado participante.

Ontem eu torci, votei e fiquei  estarrecida com a eliminação de Angélica ( aka Morango). Lésbica assumida, inteligente, educada e com personalidade forte. Problema meu? Nem tanto. Seu adversário era Marcelo Dourado, homofóbico, machista, rude e truculento. O que isso me diz? Que eu tenho os valores errados ou que a população continua conservadora, preconceituosa e se deixa manipular?

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Um homem que afirma que bate em mulher, maltrata animais e diz que só os gays se contaminam com HIV. Alguém que eliminou uma mulher que entrou no programa para tentar dar mais visibilidade a causa gay, que falou sobre direitos LGBTTT durante o programa ( embora raramente essas conversas aparecessem nas edições da TV aberta) e que se propôs, sobretudo, a “ensinar’ Dourado sobre o que é “ o movimento gay”.

Um homem que compara o movimento dos direitos GBTTT à “ditadura’ e  ao “nazismo’. Que diz que gays são “recrutados”. Marcelo venceu a disputa de permanecer na casa contra Angélica que acredita que o movimento  gay surgiu em busca de igualdades de direitos, diminuir o preconceito entre as diferenças e em busca de respeito e respaldo legal a uma minoria.

Um homem, que diz que agride uma mulher, eliminou uma mulher que ama outra mulher.

 

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Mas deixa desde já eu me corrigir: Não foi ele que eliminou ela. Foi o público que se identifica com os valores de Dourado, que a eliminou e, conseqüentemente, este mesmo publico não aprecia ou não entende os valores que ela defende e acredita.

Hoje, acordei com ressaca moral.

Parece que jogaram tudo o que acredito no lixo. Acho que para sermos cidadãos a alternativa é sair do país. Procurar abrigo  em algum lugar onde os valores sociais sejam mais próximos aos meus, por que claramente os meus não são os valores da população brasileira.

Nasci brasileira e  vou morrer homossexual. Desculpe Brasil, mas não desisto de você.

“Verás que um filho teu não foge à luta” é meu trecho preferido do hino brasileiro. O mesmo trecho que pretendo tatuar e que me dá forças pra combater a discriminação.

E copiando uma outra frase, do filme “V de vingança”: idéias são à prova de bala.

Ontem a violência dourada bateu na elegância angelical.

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spartacus: blood and sand

Posted in homoerotismo, mídia with tags on 04/02/2010 by Homofobia Já Era

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