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chega de meios termos: homofobia é crime, sim.

Posted in cidadania, opinião with tags on 24/07/2011 by Homofobia Já Era

Se não está previsto em lei ainda é porque nós somos atrasados em tudo ou quase. Se ainda não existe um movimento consistente, maduro e efetivo contra as barbaridades que se cometem em nome do “eu não gosto do jeito que você leva sua vida” é porque somos acomodados, para não dizer acovardados, na ideia arcaica de que afinal este é o velho e bom país da cordialidade. Balela.

Vivemos num tempo de retrocesso e assistimos calados ou apenas manifestando nosso pasmo a uma inédita escalada da violência. Violência típica da idade média. Ou haveria época mais sinistra em que um pai tem a orelha decepada (deve estar em alguma prateleira de troféus…) porque estava abraçado ao filho e foi “confundido” com um gay? Progredimos tanto para chegar a isso?

Este episódio foi tratado pela imprensa em geral com rara insensibilidade, como uma banalidade do dia-a-dia, ou, no linguajar dos boletins de ocorrência de antigamente, como uma “desinteligência”. Não, foi barbárie mesmo! Ah, os caras antes de descer o cacete perguntaram a pai e filhos se eles eram gays. E os coitados nem eram!
Ou seja, se fossem, tudo bem?

Mesmo que os animais tenham partido para cima desses dois infelizes porque não gostaram da cor da camisa que eles estavam usando, ou por causa do corte do cabelo, o “grito de guerra” foi anti-gay e certamente partiu da velha máxima de que “viado tem mais é que tomar porrada”.Um garoto quase fica cego na avenida Paulista agredido com uma lâmpada fluorescente, um rapaz perde os dentes na porta de uma boate por causa de um soco inglês, outro é esfaqueado sem nem saber de onde nem porque, agora aparece este “caçador de orelhas”.

O que mais?

Eis onde nos encontramos, senhoras e senhores, em plena idade das trevas, acessível pelo seu smart-phone, Ipad ou por sua televisão de led 3G. Aproveitem!

Luiz Caversan, 55 anos, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha.com.

Um chamado às armas que fez-me rir

Posted in homofobia, opinião, violência with tags , , , , , , , , , , , on 12/04/2011 by Adriano Mascarenhas Lima

Um artigo publicado pelo site “A Capa” reclama da pouca adesão de gays na aglomeração que ocorreu no dia dos “protestos” a favor de Bolsonaro. O autor, Beto Sato, queria que gays se metessem na rixa antiga entre:

  • Carecas
  • White powers
  • Integralistas
  • Proto-nazistas em geral

VS.

  • Esquerdistas
  • Integrantes do Movimento Passe Livre
  • Integrantes da Marcha da Maconha
  • Sindicalistas do SintUsp
  • Integrantes da Liga Estratégica Revolucionária
  • Anarquistas Independentes
  • Punks
  • Anarcopunks

Ele disse romanticamente ter sentido vontade de lutar (inclua sob a palavra “lutar”: punhos, dentes quebrados, gás lacrimogênio, etc.) contra “o inimigo”, e, no início das manifestações, a polícia foi de fato obrigada a separar os dois lados, antes que o pior e o inútil acontecessem. Também reclamou de “sarados”, “poc-pocs” e “ursinhos” não terem dado as caras, como se isso fosse um atestado inconteste de desinteresse político por parte dos gays.

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"a última homofóbica" do rio de janeiro*

Posted in bullying, ciberativismo, cidadania, mídia, opinião, política, Redes Sociais, web with tags , on 26/01/2011 by Rafael

wanted-rickNo domingo, dia 23 de Janeiro, uma história envolvendo André Fischer, editor do site Mix Brasil, seu namorado, uma amiga e um amigo que está indo pra Berlim fazer um curso de curadoria chocou o Brasil (clique aqui para ler o artigo, intitulado "Caramba, fui vítima de homofobia" ).

Enquanto esperavam na fila para ver uma exposição, foram verbalmente agredidos por uma moça visivelmente perturbada psicologicamente. “Parecia uma pessoa possuída”, segundo o próprio autor do texto. Ligaram para a polícia e para o Brasil Sem Homofobia, não recebendo retorno de nenhum dos dois durante a hora em que ficaram cercando a “homfoboba” (sic) no saguão do CCBB.

O editor do site publicou uma foto e pediu que todos buscassem “a louca” para evitar que ela continuasse agredindo gays. E todos os gays se mobilizaram na busca do que parecia ser a última homofóbica do Brasil. Bastava encontrá-la, que a luta estava encerrada! Uma moça de uns 30 anos, desequilibrada, fora das ruas, vai trazer todos os avanços que a comunidade LGBT almeja. A luta contra o preconceito não começa com as leis, pressionando os governos. Ela começa nas ruas, combatendo indivíduos.

Ok, eu não concordo com isso, e espero que você também não. Mas antes de discordar da solução encontrada por André Fischer, certifique-se de que você é branco, porque, segundo o próprio, chamar alguém de “bicha escrota” equivale a chamar de “preto escroto” qualquer preto escroto que discorde da sua ação (como foi o caso da segurança negra do CCBB).

Já que a comparação foi feita, não precisamos ir longe para ver o quanto a luta negra se diferencia do ato praticado ontem na internet: o sonho de Martin Luther King nunca foi o de publicar em jornais os dados dos racistas. Nelson Mandela também não fez isso. Quem publica fotos de indivíduos com seus endereços, telefones e outros dados é o governo de Uganda, que é declaradamente contra a homossexualidade; prática que é combatida por órgãos contra homofobia em todo o mundo. No caso do editor, seu namorado e seus amigos que vão morar em Berlim, entretanto, fez-se o mesmo. Uma perseguição à bruxa, a última homofóbica do Brasil.

Mandela nunca teria conseguido o que conseguiu publicando fotos de quem não o deixava entrar nos ônibus. Racistas existem ainda hoje e existirão por um longo tempo, infelizmente. O segredo para o fim do preconceito está na lei, e não na cabeça das pessoas. Sendo perseguida, ela, a bruxa do CCBB, não irá parar de odiar gays, mas se a polícia tivesse chegado a tempo, talvez ela não estivesse solta. Ela e tantos outros agressores, assassinos até.

Em nenhum momento do post ou da mobilização na internet, foi-se comentado sobre o engavetamento do PLC 122/2006, projeto de lei que faria deste acontecimento um crime. Poucos homossexuais que sabem o nome, endereço, Facebook e MSN da última homofóbica do Brasil sabem nomear pelo menos um senador que é contra o PLC 122/2006, contra o casamento gay, e por aí vai…

Escolhemos o barraco e a fofoca antes da mobilização e ação política. Agimos como bichas verdadeiramente escrotas. Mais interessante do que divulgar a foto para os internautas, seria levar a foto à delegacia e fazer uma reportagem sobre as investigações. O que importa de verdade são os nossos direitos, que devem ser garantidos pelo Estado. O resto, cada enrustido ou mal-comido que resolva entre as quatro paredes. Ou então atrás das grades!

capuz2 * Essa é a estréia de mais um colaborador do blog: Rafael Puetter é roteirista e videomaker. Acredita que a luta por direitos iguais deve ser parte da vida de todo aquele que é diferente (ou seja, todo mundo). Escreve para o blog http://brinkstv.wordpress.com e no twitter @rafucko.

“negar direitos a casais do mesmo sexo é imposição que vai contra princípios elementares de justiça”

Posted in cidadania, direitos GLBTT, opinião on 04/12/2010 by Homofobia Já Era

A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare. Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural. Os que assim o julgam, partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou ele). Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras? Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos. Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação. Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva. A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes. Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos. Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas. Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira. Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade. Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social. Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos. Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? 

Dr. Drauzio Varella no caderno Ilustrada da Folha de SP de 02.12.2010

leilão da causa homossexual*

Posted in opinião with tags on 31/10/2010 by Homofobia Já Era

GayEleitorContribuinteÉ no mínimo deprimente ver e rever, bem como ouvir – e, pior ainda, sentir -, a maneira como a homossexualidade ou mesmo a vivência sexual das pessoas foi (des)tratada nessas eleições. Uma parcela de 10% da população brasileira (mais de 19 milhões de homens e mulheres desse país) teve suas vidas “leiloadas” e negociadas, como se não significasse absolutamente nada mais do que a atração ou repulsão de votos de uma outra parcela também minoritária da nação, a comunidade extremista-religiosa-conservadora.

O candidato tucano esqueceu tudo o que ele já havia feito na garantia de direitos em relação à população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) desse país e usou a homossexualidade para instigar uma campanha de ódio e ataques contra a sua adversária. Já a candidata do Partido dos Trabalhadores ignorou uma plataforma histórica do seu partido e simplesmente “tirou o corpo fora” da questão, deixando claro que, no que tange aos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, ela (assim como seu adversário) também não vai se comprometer em apoiar nada que abale suas alianças para manutenção e permanência no poder.

A questão mais dramática não é se Dilma ou Serra, vão reverter esse quadro após eleitos e definitivamente aprovar a criminalização da homofobia ou mesmo o casamento CIVIL. O lamentável é que a grande tragédia social já foi feita: consistiu exatamente em reificar o estigma social a que os LGBTs já estão sujeitos diariamente, ao se sentirem, no fim das contas, indesejados por aqueles que deveriam representá-los nos espaços políticos.

Só posso me perguntar como coibir a homofobia, se nossos candidatos à Presidência da República permitem que as pessoas acreditem que a homossexualidade é uma “ameaça à espécie humana” ou mesmo na falácia de que os “homossexuais querem instaurar uma ditadura gay no Brasil”?

No que tange aos direitos da população homossexual brasileira, essas eleições serviram principalmente para legitimar a violência simbólica e física à qual mais de 19 milhões de brasileiros LGBT estão expostos todos os dias.

*Publicada n Globo on-line Opinião pelo leitor João Batista

um sábado no bar do netão, no baixo augusta

Posted in comportamento, cotidiano, diversidade, opinião with tags on 12/07/2010 by Me

Meses atrás, depois de assistir Direito de Amar (A single man, 2009), resolvemos dar uma volta nos arredores da Paulista. Passamos no Tostex, chegamos a subir, dar uma olhada e o clima de encontro de amigos não soou muito convidativo. Estávamos com fome, mas não queríamos jantar. Então, optei por comer um lanche simples no café do Ícone Espaço Cultural. Apesar do atendimento um tanto deficiente (um pedido de três itens chegaram separados), o lanchinho tostado de pão de forma com queijo estava gostoso e segurou a onda. Depois, a idéia era ir para um bar e tomar uns gorós antes de ir pra casa. O Volt, que fica na Haddock Lobo, era uma opção. Mas optamos por dar uma olhada na movimentação do Baixo Augusta.

Não sou afeito a tomar cerveja na calçada de botecos, mas ver aquela galera toda na rua, na Rua Augusta, é muito bacana. Reafirma a vocação noturna do lugar, que na década de 60 era point, mas que passou longos anos entregue aos inferninhos o que reduzia o potencial noturno de lá. Hoje os inferninhos continuam lá (ainda bem!) mas se misturam com lugares para outras tribos. Pode ser um barzinho que apaga a luz e liga o som para virar uma baladinha ou botecos de luz acesa servindo cerveja – e é o que importa: gente e cerveja. Dá um clima de liberdade e prazer poder andar na rua, no Centro de São Paulo, sem medo ser assaltado.

E foi descendo a Augusta, um pouco depois da esquina com a Peixoto Gomide, que vimos uma (mais uma) muvuca. Paramos. Havia um clima diferente, de tipos heterogêneos, não dava para definir um estilo. Chegando na porta do bar, parecia que era tão pequeno que poderia ser medido com poucos passos. Mas uma movimentação, um entra e sai e música eletrônica, deixava a dúvida: de onde vem e vai tanta gente? Entramos. Como que andando no escuro, fomos dando passos curtos rumo ao fundo do pequeno bar. E surpreendentemente, no fundo, dois ou três degraus abaixo do nível da rua, tinha uma micro pista de dança, tiras de plástico brilhante grudadas no teto que refletiam as poucas luzes coloridas. Ahn? Uma pista de dança onde se entra e sai livremente? Sim, era isso. E aquilo pareceu fascinante. Diferente de outros lugares e países, em São Paulo, não é comum poder estar numa pista de dança, sem antes passar por uma fila e pagar pela entrada. No Bar do Netão (R. Augusta, 822 B, São Paulo, SP) as pessoas entram e saem livremente, vão até a calçada, se misturam com todo o trânsito de pessoas, tomam uma cerveja e voltam para pista de dança, num movimento de revezamento que parece ensaiado já que o espaço é diminuto.

E na pista, havia uma rica fauna humana composta por hetero comportado, lésbica, modernete de óculos fundo de garrafa, gay, andrógino de moicano, tio freak, roqueiro, skatista, gente feia, gente bonita, tudo isso num espaço bem apertado, teto baixo ao som misturadão que passou, entre outras coisas, por Miss Kittin e Michael Jackson. E aquela falta de uniformidade na música me pareceu adequada ao clima de diversidade que é a cara daquele lugar.

Às vezes, não estamos a fim de ficar dentro de um quadrado fechado ouvindo um som tão alto que nem conseguimos conversar. É bom poder ir até a calçada, respirar, ver gente subindo e descendo, ver um cenário diferente das baladas que costumamos ir. Espero que lugares assim, se tornem uma tendência.

Quem sabe é uma forma efetiva das pessoas saírem de suas caixas para ganhar as ruas livremente, exercendo o direito de ir e vir sem ter que dar satisfações a hostess, ao segurança, nem ninguém. Sem ter que ficarem fechadas dentro de um cubo que só se abre com o nascer do sol, sem medo de se misturar. Exercendo a liberdade de ser ou não ser diferente.

escova de dentes

Posted in comportamento, cotidiano, filme, opinião on 12/07/2010 by Me

No filme Goldfish Memory ,(em português, Todas as cores do amor), quando o personagem Red ao perceber que seu amante deixou uma escova de dentes na sua casa, não pensou duas vezes. Colocou-a imediatamente em um envelope, foi até o trabalho do cara e, interrompendo uma reunião, disparou: “É, começa com a escova de dentes e logo estaremos brigando por causa da roupa suja. Se quer amor verdadeiro e compromisso, arranje um cachorrinho!” Não resta dúvida de que, para ele, a escova de dentes simboliza compromisso. Será?

Fiquei pensando em quantas escovas de dentes tenho espalhadas pela cidade. Numa contagem rápida, acho que são quatro. Mas assim como eu havia esquecido desta cena (o filme é de 2003 e eu já havia assistido antes), esqueço também as escovas por aí. Não volto para pegá-las porque normalmente não sei quando será a última vez que vou usá-las. Sempre há uma possibilidade. Mas quando temos certeza que o relacionamento acabou, o que fazer com a escova que deixamos ou que deixaram? Cada pessoa tem seus próprios critérios para definir quando um ficante deixa de sê-lo para tornar-se algo mais sério.

Eu não acredito que um simples objeto deixado no banheiro possa determinar vínculo. É preciso mais que isso.

Fico com a impressão de que o pânico que certas pessoas têm da palavra “compromisso” pode causar situações, desnecessariamente, embaraçosas.

Outro dia no trabalho, ouvi uma história burlesca sobre isso. Uma “mulher-pegadora” ,que combinava encontros pela Internet,  quando se encontrava com as presas simplesmente não falava nada sobre si. E se o cara insistisse perguntando, por exemplo, seu nome, ela dizia o mesmo texto ensaiado: “Pra que você quer saber meu nome? Vai me investigar na Polícia? Vai me mandar carta?”. Para ela, saber o nome gera compromisso. O que diria de uma escova de dentes?

De outro modo, tenho um amigo que trata a questão de forma bastante “econômica”. Ele deixa sempre a mesma escova na embalagem já aberta, e sempre que aparece um novo convidado, ele finge estar abrindo naquele momento e a oferece como se fosse nova. As pessoas não costumam prestar atenção nos detalhes. E são os detalhes que sinalizam mudanças.

Sou do tipo que nunca pergunta coisas do tipo “quer namorar comigo?” ou “estamos namorando?”. Acredito que estas respostas se dão com o tempo. Então, presto atenção nas pequenas coisas. Geralmente começa pela escova de dentes, passa por camisetas e cuecas deixadas no final de semana até chegar ao ponto de ter uma gaveta no armário.

Existe indício mais forte de compromisso que ter uma gaveta no armário de alguém?

P.S.: A tal mulher-pegadora que tinha fobia de compromisso, hoje é evangélica.

(Texto escrito em 20/03/2009)

se eu pudesse escolher não ser gay, eu não seria

Posted in diversidade, homofobia, mídia, opinião, orgulho, vídeos with tags , on 15/06/2010 by Professor Carlinhos

A participação de três homossexuais assumidos na décima edição do Big Brother Brasil causou uma grande discussão entre os militantes. Alguns comemoraram com entusiasmo a presença de Dimmy, Dr Orgastic e Angélica no programa da rede Globo. Outros protestaram tendo em vista que a participação no programa não garantiria visibilidade, já que os representantes não teriam capacidade de levar o debate sobre os direitos dos GLBTs à mídia. Alguns chegaram a argumentar que Sérgio e Dicésar, especialmente, contribuiriam para uma maior estereotipização, já que os dois eram demasiadamente afeminados (discurso que esconde consigo uma forte dose de homofobia).

Na primeira edição do BBB muita gente curiosa quis comparar o programa a uma experiência científica, como se os participantes fossem ratinhos de laboratório. A realidade, porém, mostrou que não era nada daquilo. Nada de ciência. Nada de filosofia. Imagem, apenas. Uma boa produção, roteiro e edição, como qualquer novela que se preze. Na décima edição os participantes foram divididos por tribos, uma mais questionável que a outra. A única tribo que parecia ter um significado era a dos coloridos (nome que “pegou” dentro do universo GLBT). A direção do programa (diga-se Boninho) foi enfática ao privilegiar a participação dos coloridos.

Quando Dicésar disse em uma conversa com a parceira Angélica que se pudesse escolher não ser gay, ele não seria, muita gente do movimento caiu em cima da diva das boates e paradas gay. Dimmy Kieer, com todo o seu brilho, não escondeu um dilema existencial que – não sejamos hipócritas – está presente na vida de grande parte dos homossexuais. É claro que é necessário fazer campanha pelo orgulho gay, no entanto, não é preciso esconder os dilemas que essa orientação traz para a vida do sujeito.

Essa semana saiu uma propaganda no site da Folha falando sobre o livro A Experiência Homossexual de Marina Castaneda (A Girafa). Sérgio Ripardo escreveu na resenha:

Nunca estamos preparados para sair do armário. Não sabemos o que dizer para amigos, parentes e colegas de trabalho. Tememos suas reações. Pagamos um preço alto por expor em praça pública nossa orientação sexual, ainda estigmatizada. O roteiro mais frequente desse rosário: alguns amigos fogem de você com medo de serem confundidos ou vistos como “metidos com gays”; as namoradas deles desconfiam de você, que passa a ser encarado como uma “ameaça”; dependendo do seu emprego, não espere entusiasmo, afinal, muitas empresas ainda consideram o assunto um tabu.

Na aula sobre machismo e homofobia que dei aos meus alunos, esta semana, eu tive que falar do Freud. Perguntei a um aluno da sala se ele gostava de bife de fígado, ao que ele respondeu: “não”. Então perguntei-lhe quando foi que ele decidiu não gostar de bife de fígado. Silêncio na sala. Aproveitei a brecha para explicar alguma coisa que eu sei sobre o Id: o campo dos desejos é impulso, é animal e é inconsciente, não faz parte daquelas coisas que a gente escolhe. Se o sujeito heterossexual está no ônibus lotado e pára em sua frente uma menina linda e cheirosa, ele não tem como segurar a ereção. A sala foi ao delírio quando eu disse isso, é claro, o que me proporcionou maior segurança para continuar o debate.

Expliquei à galera que o Superego também é inconsciente e é a parte da nossa personalidade responsável pela moral: aquelas regras básicas de convivência que são construídas ao longo de nossas vivências. Segundo Freud, o homem não seria capaz de viver em sociedade se não fosse regido por leis. Assim, o cara no ônibus logo pensaria: “putz, aqui eu não posso” e procuraria sublimar seu desejo. Essa reflexão é feita pelo Ego (parte consciente da nossa personalidade), contei eu à meninada.

Foi aí que chegamos ao ponto: e quando o menino que está no ônibus lotado, voltando do trabalho, fica excitado quando um rapaz bonito, forte e cheiroso pára em sua frente? O que ele vai pensar? A primeira coisa que vem à cabeça é um NÃO do tamanho do mundo. A mesma coisa diz a autora do referido livro em trecho que foi publicado na propaganda do site da Folha:

Com efeito, todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral. Dar-se conta de que isso, provavelmente, não acontecerá, e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante e, como em qualquer perda, há um trabalho de luto a ser feito.

Assim, não fica difícil entender a honestidade contida no desabafo de Dicésar. Essa edição do BBB foi positiva, sob o meu ponto de vista, por ter trazido à tona alguns debates que não tinham tido espaço até então.  O pessoal do Homomento registrou no seu site o aumento das pesquisas relacionadas ao verbete “homofobia” quando Dicésar acusou pela primeira vez o seu colega de confinamento (Dourado) de homofóbico.

Os que se empolgaram com a participação dos homossexuais no programa tiveram uma grande decepção quando viram Marcelo Dourado comemorando a vitória do jogo. Mas o jogo é importante pra quem? Ao meu ver, a participação de Dimmy, Serginho e Angélica promoveu uma discussão muito importante e fez com que o público pudesse ver aqueles homossexuais como pessoas comuns, não como aberrações nem como estrelas. O desabafo de Dicésar nos permite realizar outras discussões. Até quando vamos continuar comemorando o “orgulho gay” enquanto as pessoas, especialmente os mais pobres (homossexuais trabalhadores, michês e travestis), sofrem com os dilemas existenciais, com a violência e com a cooptação dos movimentos pelos interesses do capital?

Os que achavam que Angélica, Dimmy e Serginho não eram representantes dos homossexuais na televisão talvez tivessem razão. Mas quem disse que precisamos de representantes? Precisamos, isso sim, de promover um debate e pensar mais profundamente sobre nossa condição para poder transformá-la. Pessoalmente, eu acredito que a participação dessa gente naquele programa nos ajudou a criar alguma reflexão. Era só o que eu esperava deles. E, agora, eu espero que possamos usar dos elementos que nos deram para construirmos de forma mais madura e com seriedade um movimento que verdadeiramente represente os anseios da maioria dos homossexuais desse país e do mundo.

As crianças vão bem, obrigado!

Posted in direitos GLBTT, homoafetividade, homofobia, homoparentalidade, opinião with tags , , , , , , , , , , on 23/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

Acho que isso é o que diria qualquer casal gay que já tivesse passado pelas várias lutas árduas e diárias em busca dos direitos de amar. Sim, usei plurais: Não bastassem os percalços que cada homossexual enfrenta, numa ou noutra medida, pelo direito de amar um namorado ou companheiro, casais gays que adotam crianças constatam que essa não é a única forma de amor que lhes é proibida pela sociedade e pelas leis que esta cria do alto de suas “verdades imutáveis” tediosas. O direito de amar filhos também encontra o tom de voz da rejeição.

Gay Parents E esse tom é velho conhecido aos ouvidos já ressentidos com ele. Podemos escutá-lo no áspero desamor do “eu não vou deixar” que um pai autoritário diz para o filho que quer sair. Questionado sobre seus motivos, esse ditatorial e amável pai arquetípico (mais aceito socialmente que o pai gay) justifica-se com um “porque eu sou seu pai e te proíbo”. A imagem que podemos fazer da rejeição à adoção homoparental é bem essa: A de um discurso que não tem mais encontrado como se justificar mas mesmo assim tem insistido em apelar para a preguiçosa “ordem natural das coisas”.

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Veja além das aparências

Posted in comportamento, diversidade, editorial, homofobia, imprensa, opinião, orgulho, revistas with tags , , , , , , , on 11/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

Adriano Mascarenhas Adoro ingenuidades. Eu mesmo sou um ingênuo confesso. Acho que a palavra é o bem / dom mais precioso que temos, e se uma pessoa me diz algo verossímil – especialmente quando referindo-se a si mesma ou a algo que cuja única fonte necessária seja sua palavra – não fico duvidando não, acredito de primeira.

Imagine só: Você poderá me dizer “Eu estudei na França e falo fluentemente a língua de lá”, e pra mim estará tudo bem, porque vou acreditar na sua palavra. Também espero que acreditem em mim quando eu falar. Mas transparência é tudo. Esses ditos precisam encontrar respaldo na realidade objetiva, ou, do contrário, acabarão sendo desmascarados, colocando em franco descrédito aquele que tiver emitido tais “falsas verdades”. Se eu te perguntasse, na hipótese sugerida, como dizer “A Veja é mentirosa” em francês e você não soubesse me responder, eu poderia te chamar de mentiroso, não poderia? Le magazine Veja est un menteur!

A Veja Mente Este é um texto sobre a reportagem de capa da Veja de 12 de maio de 2010, chamada “A geração tolerância”. A matéria trata da naturalidade com que alguns grupos de adolescentes têm vivenciado sua homossexualidade. Se você é dos meus, você viu “Veja” nessa frase e já ficou com os dois pés atrás. Pois é. Fez bem. Eu poderia deixar de lado minhas animosidades em relação a essa revista e escrever um texto neutro, deixando para expressar meu ponto de vista apenas no final, mas acho que podemos pular essas formalidades, uma vez que não é de hoje que essa revista se mostra inimiga dos movimentos sociais. Em todo caso, vou pedir que leia primeiramente o texto original antes de continuar. Não quero te influenciar demais.

Já foi? Ótimo. Porque se você está lendo este texto, quero crer que você é alguém com pelo menos um mínimo de consciência a respeito da causa LGBT, a ponto de já ter sentido as entrelinhas da matéria e o que nós podemos falar sobre ela.

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Quero ser discriminado também!

Posted in comportamento, diversidade, editorial, opinião, racismo with tags , , , , on 05/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

Vamos fazer um pequeno exercício de memória discursiva. Se você tivesse que fazer uma lista dos grupos ou tipos de pessoas que mais sofrem preconceito em nossa sociedade, quem você listaria? Homossexuais, Travestis, Negros, Mulheres, Portadores de Necessidades Especiais, Nordestinos, Pobres. Ok, vamos parar nesses primeiros. Claro que poderíamos listar mais, mas a idéia é nos fixarmos nesse “top of mind”. São os tipos de preconceito mais discutidos atualmente, em programas de TV, blogs, fóruns, comunidades em redes sociais, etc. Essa maior exposição do assunto, pelo que tenho percebido, leva a uma maior conscientização da população, gradativamente, ao ponto de, pouco a pouco, esses preconceitos serem forçados a recuar, tornando-se socialmente condenáveis.

Cada um deles encontra-se em condições muito peculiares nesse processo, mas há uma noção clara de onde estamos e onde devemos chegar: o não preconceito. Vamos chamar de “noção clara”consciência de que existe um grupo discriminado, um grupo discriminador, e uma situação que precisa ser mudada. A princípio, pode parecer simplório reduzir a questão dos preconceitos a isso, mas peço que detenham-se nessa idéia por um instante, por favor. Simplicidade é uma virtude que precisa entrar na moda porque suscita a clareza de pensamento necessária para nos livrarmos de algumas armadilhas conceituais.

Estou dizendo isso porque parece haver sempre movimentos contrários ou de desaceleração em relação a esse caminho a ser seguido rumo ao fim dos preconceitos. Um tititi, um ruído na comunicação, seguido por um monte de ecos de pensamentos reacionários, atrasados, e que ficam pondo em questão as demandas do movimento gay a todo tempo, como se nunca qualquer das nossas reinvindicações não pudesse simplesmente “ser” e tivesse que ficar se provando ad infinitum. E dá-lhe relativizações, ressalvas duvidosas, inversões, e todo tipo de falácia a serviço de tentativas de dizer que as coisas “não são bem assim” quando atacamos aqueles que nos oprimem. Analisando isso detalhadamente, temos o seguinte:

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a caça às tias

Posted in comportamento, cotidiano, direitos GLBTT, diversidade, opinião, violência on 29/04/2010 by Jisuis

No meio deste caos, onde a elite intelectual do país incentiva que se atire merda em bichas, onde diversos países no mundo criminalizam a homossexualidade com pena de morte e NÃO HÁ qualquer manifestação eficiente por parte de quem se diz “preocupado com os direitos humanos”, quando você olha tudo isto, estes absurdos, e pensa que não tem como piorar…

Aí vem alguém e diz: “se os gays fossem discretos, isto não teria acontecido. Isto acontece porque ficam se pegando na rua.”

E eu fico P!!! da vida.

Sabe por quê?

Porque esta criatura tem razão. Não pelo motivo que imagina, mas tem razão.

Não, não acho que o povo glbtxyz deva voltar todo pro armário e isto vai acabar com a violência.  Contudo, é inegável que a violência é a manifestação última da revolta pela nossa incapacidade de nos submeter. Insistimos em não existir rebaixados, humilhados e confinados; libertamos-nos do jugo da moral do outro e decidimos ser felizes.

A violência a que somos expostos é a tentativa da sociedade heteronormativa de nos enrustir. “calem-se ou serão atingidos”; “escondam-se ou serão alvos”; “fujam ou serão caçados”.

A violência quer nos subjugar, assumir o controle da nossa vida.

Controle este perdido quando saímos do armário e deixamos de ser controlados pelo poder absoluto da ofensa, do preconceito alheio.  Quando deixamos de viver 24 horas por dia interpretando personagens, inventando histórias, mentindo, queimando fosfato com o objetivo último pior que não dizer de si, para desdizer do que se é.

Quando abrimos a boca para ‘sair do armário’, incomodamos todo mundo muito mais. Porque não se trata apenas de assumir a homossexualidade. Trata-se de negar-se enquanto heterossexual, negar a heterossexualidade presumida, negar a exclusão discursiva de ser quem se é – um ‘não-hetero’, um gay.

Quando saímos do armário, quando trazemos nossa vida privada para a esfera pública, destruímos o poder primevo da repressão heteronormativa – a exclusão do sujeito do discurso – nos assumimos sujeitos e falantes. Deixamos de estar à margem, presos no discurso do outro, submetidos às reduções do preconceito. Somos responsáveis pelo nosso destino, pela nossa vida. Vivemos como queremos e não como querem que não sejamos.

Isto é absurdo. Alguém que tenha autonomia de sua existência e seu discurso a ponto de romper com a rede de ofensas opressoras, a rede de humilhações que restringia a vida satisfatória ao armário? Inadmissível. Coloca em risco toda a capacidade cruel das nossas instituições. Será punido com a violência com a qual ameaçamos TODOS os que são diferentes.

Sim. Nós nos rebelamos, nos revoltamos e conquistamos, quotidianamente, nossa liberdade. Estamos todo dia construindo um ‘out’ que nada mais é que dizer “Eu não aceito este não-lugar que você tem para mim, este julgo, esta acusação, esta pré-punição que você me empurra. Eu sou melhor que isto, eu não caibo nesta pequenez toda. Chega!”

Por tanto, cacem as tias, derrubem as bichas, queimem as sapatas, castrem os travecos!

Rápido, o tempo urge!

Eliminemos todos aqueles que estão felizes a ser quem são, pois sua felicidade hedionda me incomoda em minha mesquinhez miserável, nesta minha vida insossa, cujas alegrias só surgem quando posso transformar a vida dos outros nesta minha vidinha de merda.

Cacem as tias. Detenham a autonomia, o desejo, a liberdade.

Ou tentem.

Porque somos muitos. Cada vez tomamos mais consciência que sair do armário é tomar as rédeas da própria vida. Somos cada vez mais.

A opressão não vai durar para sempre.

Preparem as malas. Com merda, morte e que mais inventarem, vocês vão ter de mudar.

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