Archive for the opinião Category

chega de meios termos: homofobia é crime, sim.

Posted in cidadania, opinião with tags on 24/07/2011 by Homofobia Já Era

Se não está previsto em lei ainda é porque nós somos atrasados em tudo ou quase. Se ainda não existe um movimento consistente, maduro e efetivo contra as barbaridades que se cometem em nome do “eu não gosto do jeito que você leva sua vida” é porque somos acomodados, para não dizer acovardados, na ideia arcaica de que afinal este é o velho e bom país da cordialidade. Balela.

Vivemos num tempo de retrocesso e assistimos calados ou apenas manifestando nosso pasmo a uma inédita escalada da violência. Violência típica da idade média. Ou haveria época mais sinistra em que um pai tem a orelha decepada (deve estar em alguma prateleira de troféus…) porque estava abraçado ao filho e foi “confundido” com um gay? Progredimos tanto para chegar a isso?

Este episódio foi tratado pela imprensa em geral com rara insensibilidade, como uma banalidade do dia-a-dia, ou, no linguajar dos boletins de ocorrência de antigamente, como uma “desinteligência”. Não, foi barbárie mesmo! Ah, os caras antes de descer o cacete perguntaram a pai e filhos se eles eram gays. E os coitados nem eram!
Ou seja, se fossem, tudo bem?

Mesmo que os animais tenham partido para cima desses dois infelizes porque não gostaram da cor da camisa que eles estavam usando, ou por causa do corte do cabelo, o “grito de guerra” foi anti-gay e certamente partiu da velha máxima de que “viado tem mais é que tomar porrada”.Um garoto quase fica cego na avenida Paulista agredido com uma lâmpada fluorescente, um rapaz perde os dentes na porta de uma boate por causa de um soco inglês, outro é esfaqueado sem nem saber de onde nem porque, agora aparece este “caçador de orelhas”.

O que mais?

Eis onde nos encontramos, senhoras e senhores, em plena idade das trevas, acessível pelo seu smart-phone, Ipad ou por sua televisão de led 3G. Aproveitem!

Luiz Caversan, 55 anos, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha.com.

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Um chamado às armas que fez-me rir

Posted in homofobia, opinião, violência with tags , , , , , , , , , , , on 12/04/2011 by Adriano Mascarenhas Lima

Um artigo publicado pelo site “A Capa” reclama da pouca adesão de gays na aglomeração que ocorreu no dia dos “protestos” a favor de Bolsonaro. O autor, Beto Sato, queria que gays se metessem na rixa antiga entre:

  • Carecas
  • White powers
  • Integralistas
  • Proto-nazistas em geral

VS.

  • Esquerdistas
  • Integrantes do Movimento Passe Livre
  • Integrantes da Marcha da Maconha
  • Sindicalistas do SintUsp
  • Integrantes da Liga Estratégica Revolucionária
  • Anarquistas Independentes
  • Punks
  • Anarcopunks

Ele disse romanticamente ter sentido vontade de lutar (inclua sob a palavra “lutar”: punhos, dentes quebrados, gás lacrimogênio, etc.) contra “o inimigo”, e, no início das manifestações, a polícia foi de fato obrigada a separar os dois lados, antes que o pior e o inútil acontecessem. Também reclamou de “sarados”, “poc-pocs” e “ursinhos” não terem dado as caras, como se isso fosse um atestado inconteste de desinteresse político por parte dos gays.

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"a última homofóbica" do rio de janeiro*

Posted in bullying, ciberativismo, cidadania, mídia, opinião, política, Redes Sociais, web with tags , on 26/01/2011 by Rafael

wanted-rickNo domingo, dia 23 de Janeiro, uma história envolvendo André Fischer, editor do site Mix Brasil, seu namorado, uma amiga e um amigo que está indo pra Berlim fazer um curso de curadoria chocou o Brasil (clique aqui para ler o artigo, intitulado "Caramba, fui vítima de homofobia" ).

Enquanto esperavam na fila para ver uma exposição, foram verbalmente agredidos por uma moça visivelmente perturbada psicologicamente. “Parecia uma pessoa possuída”, segundo o próprio autor do texto. Ligaram para a polícia e para o Brasil Sem Homofobia, não recebendo retorno de nenhum dos dois durante a hora em que ficaram cercando a “homfoboba” (sic) no saguão do CCBB.

O editor do site publicou uma foto e pediu que todos buscassem “a louca” para evitar que ela continuasse agredindo gays. E todos os gays se mobilizaram na busca do que parecia ser a última homofóbica do Brasil. Bastava encontrá-la, que a luta estava encerrada! Uma moça de uns 30 anos, desequilibrada, fora das ruas, vai trazer todos os avanços que a comunidade LGBT almeja. A luta contra o preconceito não começa com as leis, pressionando os governos. Ela começa nas ruas, combatendo indivíduos.

Ok, eu não concordo com isso, e espero que você também não. Mas antes de discordar da solução encontrada por André Fischer, certifique-se de que você é branco, porque, segundo o próprio, chamar alguém de “bicha escrota” equivale a chamar de “preto escroto” qualquer preto escroto que discorde da sua ação (como foi o caso da segurança negra do CCBB).

Já que a comparação foi feita, não precisamos ir longe para ver o quanto a luta negra se diferencia do ato praticado ontem na internet: o sonho de Martin Luther King nunca foi o de publicar em jornais os dados dos racistas. Nelson Mandela também não fez isso. Quem publica fotos de indivíduos com seus endereços, telefones e outros dados é o governo de Uganda, que é declaradamente contra a homossexualidade; prática que é combatida por órgãos contra homofobia em todo o mundo. No caso do editor, seu namorado e seus amigos que vão morar em Berlim, entretanto, fez-se o mesmo. Uma perseguição à bruxa, a última homofóbica do Brasil.

Mandela nunca teria conseguido o que conseguiu publicando fotos de quem não o deixava entrar nos ônibus. Racistas existem ainda hoje e existirão por um longo tempo, infelizmente. O segredo para o fim do preconceito está na lei, e não na cabeça das pessoas. Sendo perseguida, ela, a bruxa do CCBB, não irá parar de odiar gays, mas se a polícia tivesse chegado a tempo, talvez ela não estivesse solta. Ela e tantos outros agressores, assassinos até.

Em nenhum momento do post ou da mobilização na internet, foi-se comentado sobre o engavetamento do PLC 122/2006, projeto de lei que faria deste acontecimento um crime. Poucos homossexuais que sabem o nome, endereço, Facebook e MSN da última homofóbica do Brasil sabem nomear pelo menos um senador que é contra o PLC 122/2006, contra o casamento gay, e por aí vai…

Escolhemos o barraco e a fofoca antes da mobilização e ação política. Agimos como bichas verdadeiramente escrotas. Mais interessante do que divulgar a foto para os internautas, seria levar a foto à delegacia e fazer uma reportagem sobre as investigações. O que importa de verdade são os nossos direitos, que devem ser garantidos pelo Estado. O resto, cada enrustido ou mal-comido que resolva entre as quatro paredes. Ou então atrás das grades!

capuz2 * Essa é a estréia de mais um colaborador do blog: Rafael Puetter é roteirista e videomaker. Acredita que a luta por direitos iguais deve ser parte da vida de todo aquele que é diferente (ou seja, todo mundo). Escreve para o blog http://brinkstv.wordpress.com e no twitter @rafucko.

“negar direitos a casais do mesmo sexo é imposição que vai contra princípios elementares de justiça”

Posted in cidadania, direitos GLBTT, opinião on 04/12/2010 by Homofobia Já Era

A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare. Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural. Os que assim o julgam, partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou ele). Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras? Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos. Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação. Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva. A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes. Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos. Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas. Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira. Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade. Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social. Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos. Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? 

Dr. Drauzio Varella no caderno Ilustrada da Folha de SP de 02.12.2010

leilão da causa homossexual*

Posted in opinião with tags on 31/10/2010 by Homofobia Já Era

GayEleitorContribuinteÉ no mínimo deprimente ver e rever, bem como ouvir – e, pior ainda, sentir -, a maneira como a homossexualidade ou mesmo a vivência sexual das pessoas foi (des)tratada nessas eleições. Uma parcela de 10% da população brasileira (mais de 19 milhões de homens e mulheres desse país) teve suas vidas “leiloadas” e negociadas, como se não significasse absolutamente nada mais do que a atração ou repulsão de votos de uma outra parcela também minoritária da nação, a comunidade extremista-religiosa-conservadora.

O candidato tucano esqueceu tudo o que ele já havia feito na garantia de direitos em relação à população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) desse país e usou a homossexualidade para instigar uma campanha de ódio e ataques contra a sua adversária. Já a candidata do Partido dos Trabalhadores ignorou uma plataforma histórica do seu partido e simplesmente “tirou o corpo fora” da questão, deixando claro que, no que tange aos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, ela (assim como seu adversário) também não vai se comprometer em apoiar nada que abale suas alianças para manutenção e permanência no poder.

A questão mais dramática não é se Dilma ou Serra, vão reverter esse quadro após eleitos e definitivamente aprovar a criminalização da homofobia ou mesmo o casamento CIVIL. O lamentável é que a grande tragédia social já foi feita: consistiu exatamente em reificar o estigma social a que os LGBTs já estão sujeitos diariamente, ao se sentirem, no fim das contas, indesejados por aqueles que deveriam representá-los nos espaços políticos.

Só posso me perguntar como coibir a homofobia, se nossos candidatos à Presidência da República permitem que as pessoas acreditem que a homossexualidade é uma “ameaça à espécie humana” ou mesmo na falácia de que os “homossexuais querem instaurar uma ditadura gay no Brasil”?

No que tange aos direitos da população homossexual brasileira, essas eleições serviram principalmente para legitimar a violência simbólica e física à qual mais de 19 milhões de brasileiros LGBT estão expostos todos os dias.

*Publicada n Globo on-line Opinião pelo leitor João Batista

um sábado no bar do netão, no baixo augusta

Posted in comportamento, cotidiano, diversidade, opinião with tags on 12/07/2010 by Me

Meses atrás, depois de assistir Direito de Amar (A single man, 2009), resolvemos dar uma volta nos arredores da Paulista. Passamos no Tostex, chegamos a subir, dar uma olhada e o clima de encontro de amigos não soou muito convidativo. Estávamos com fome, mas não queríamos jantar. Então, optei por comer um lanche simples no café do Ícone Espaço Cultural. Apesar do atendimento um tanto deficiente (um pedido de três itens chegaram separados), o lanchinho tostado de pão de forma com queijo estava gostoso e segurou a onda. Depois, a idéia era ir para um bar e tomar uns gorós antes de ir pra casa. O Volt, que fica na Haddock Lobo, era uma opção. Mas optamos por dar uma olhada na movimentação do Baixo Augusta.

Não sou afeito a tomar cerveja na calçada de botecos, mas ver aquela galera toda na rua, na Rua Augusta, é muito bacana. Reafirma a vocação noturna do lugar, que na década de 60 era point, mas que passou longos anos entregue aos inferninhos o que reduzia o potencial noturno de lá. Hoje os inferninhos continuam lá (ainda bem!) mas se misturam com lugares para outras tribos. Pode ser um barzinho que apaga a luz e liga o som para virar uma baladinha ou botecos de luz acesa servindo cerveja – e é o que importa: gente e cerveja. Dá um clima de liberdade e prazer poder andar na rua, no Centro de São Paulo, sem medo ser assaltado.

E foi descendo a Augusta, um pouco depois da esquina com a Peixoto Gomide, que vimos uma (mais uma) muvuca. Paramos. Havia um clima diferente, de tipos heterogêneos, não dava para definir um estilo. Chegando na porta do bar, parecia que era tão pequeno que poderia ser medido com poucos passos. Mas uma movimentação, um entra e sai e música eletrônica, deixava a dúvida: de onde vem e vai tanta gente? Entramos. Como que andando no escuro, fomos dando passos curtos rumo ao fundo do pequeno bar. E surpreendentemente, no fundo, dois ou três degraus abaixo do nível da rua, tinha uma micro pista de dança, tiras de plástico brilhante grudadas no teto que refletiam as poucas luzes coloridas. Ahn? Uma pista de dança onde se entra e sai livremente? Sim, era isso. E aquilo pareceu fascinante. Diferente de outros lugares e países, em São Paulo, não é comum poder estar numa pista de dança, sem antes passar por uma fila e pagar pela entrada. No Bar do Netão (R. Augusta, 822 B, São Paulo, SP) as pessoas entram e saem livremente, vão até a calçada, se misturam com todo o trânsito de pessoas, tomam uma cerveja e voltam para pista de dança, num movimento de revezamento que parece ensaiado já que o espaço é diminuto.

E na pista, havia uma rica fauna humana composta por hetero comportado, lésbica, modernete de óculos fundo de garrafa, gay, andrógino de moicano, tio freak, roqueiro, skatista, gente feia, gente bonita, tudo isso num espaço bem apertado, teto baixo ao som misturadão que passou, entre outras coisas, por Miss Kittin e Michael Jackson. E aquela falta de uniformidade na música me pareceu adequada ao clima de diversidade que é a cara daquele lugar.

Às vezes, não estamos a fim de ficar dentro de um quadrado fechado ouvindo um som tão alto que nem conseguimos conversar. É bom poder ir até a calçada, respirar, ver gente subindo e descendo, ver um cenário diferente das baladas que costumamos ir. Espero que lugares assim, se tornem uma tendência.

Quem sabe é uma forma efetiva das pessoas saírem de suas caixas para ganhar as ruas livremente, exercendo o direito de ir e vir sem ter que dar satisfações a hostess, ao segurança, nem ninguém. Sem ter que ficarem fechadas dentro de um cubo que só se abre com o nascer do sol, sem medo de se misturar. Exercendo a liberdade de ser ou não ser diferente.

escova de dentes

Posted in comportamento, cotidiano, filme, opinião on 12/07/2010 by Me

No filme Goldfish Memory ,(em português, Todas as cores do amor), quando o personagem Red ao perceber que seu amante deixou uma escova de dentes na sua casa, não pensou duas vezes. Colocou-a imediatamente em um envelope, foi até o trabalho do cara e, interrompendo uma reunião, disparou: “É, começa com a escova de dentes e logo estaremos brigando por causa da roupa suja. Se quer amor verdadeiro e compromisso, arranje um cachorrinho!” Não resta dúvida de que, para ele, a escova de dentes simboliza compromisso. Será?

Fiquei pensando em quantas escovas de dentes tenho espalhadas pela cidade. Numa contagem rápida, acho que são quatro. Mas assim como eu havia esquecido desta cena (o filme é de 2003 e eu já havia assistido antes), esqueço também as escovas por aí. Não volto para pegá-las porque normalmente não sei quando será a última vez que vou usá-las. Sempre há uma possibilidade. Mas quando temos certeza que o relacionamento acabou, o que fazer com a escova que deixamos ou que deixaram? Cada pessoa tem seus próprios critérios para definir quando um ficante deixa de sê-lo para tornar-se algo mais sério.

Eu não acredito que um simples objeto deixado no banheiro possa determinar vínculo. É preciso mais que isso.

Fico com a impressão de que o pânico que certas pessoas têm da palavra “compromisso” pode causar situações, desnecessariamente, embaraçosas.

Outro dia no trabalho, ouvi uma história burlesca sobre isso. Uma “mulher-pegadora” ,que combinava encontros pela Internet,  quando se encontrava com as presas simplesmente não falava nada sobre si. E se o cara insistisse perguntando, por exemplo, seu nome, ela dizia o mesmo texto ensaiado: “Pra que você quer saber meu nome? Vai me investigar na Polícia? Vai me mandar carta?”. Para ela, saber o nome gera compromisso. O que diria de uma escova de dentes?

De outro modo, tenho um amigo que trata a questão de forma bastante “econômica”. Ele deixa sempre a mesma escova na embalagem já aberta, e sempre que aparece um novo convidado, ele finge estar abrindo naquele momento e a oferece como se fosse nova. As pessoas não costumam prestar atenção nos detalhes. E são os detalhes que sinalizam mudanças.

Sou do tipo que nunca pergunta coisas do tipo “quer namorar comigo?” ou “estamos namorando?”. Acredito que estas respostas se dão com o tempo. Então, presto atenção nas pequenas coisas. Geralmente começa pela escova de dentes, passa por camisetas e cuecas deixadas no final de semana até chegar ao ponto de ter uma gaveta no armário.

Existe indício mais forte de compromisso que ter uma gaveta no armário de alguém?

P.S.: A tal mulher-pegadora que tinha fobia de compromisso, hoje é evangélica.

(Texto escrito em 20/03/2009)

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