Arquivo para Adriano Mascarenhas

Um chamado às armas que fez-me rir

Posted in homofobia, opinião, violência with tags , , , , , , , , , , , on 12/04/2011 by Adriano Mascarenhas Lima

Um artigo publicado pelo site “A Capa” reclama da pouca adesão de gays na aglomeração que ocorreu no dia dos “protestos” a favor de Bolsonaro. O autor, Beto Sato, queria que gays se metessem na rixa antiga entre:

  • Carecas
  • White powers
  • Integralistas
  • Proto-nazistas em geral

VS.

  • Esquerdistas
  • Integrantes do Movimento Passe Livre
  • Integrantes da Marcha da Maconha
  • Sindicalistas do SintUsp
  • Integrantes da Liga Estratégica Revolucionária
  • Anarquistas Independentes
  • Punks
  • Anarcopunks

Ele disse romanticamente ter sentido vontade de lutar (inclua sob a palavra “lutar”: punhos, dentes quebrados, gás lacrimogênio, etc.) contra “o inimigo”, e, no início das manifestações, a polícia foi de fato obrigada a separar os dois lados, antes que o pior e o inútil acontecessem. Também reclamou de “sarados”, “poc-pocs” e “ursinhos” não terem dado as caras, como se isso fosse um atestado inconteste de desinteresse político por parte dos gays.

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Feliz dia do amigo!

Posted in bioblog with tags , , , , , , on 22/07/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

De repente, eu estava chorando em frente ao computador. Mas eram lágrimas serenas, de felicidade, emoção. O motivo: Um amigo meu me disse, pelo GTalk, que estava cada vez mais fora do armário. Ele relatou que havia saído de mãos dadas com um rapaz em público, primeiro em uma festa “hétero”, e depois caminhando pela praia. Perguntei ao meu amigo o que ele sentiu ao fazê-lo (de praxe, acabo sempre me concentrando nas sensações das pessoas quando me contam as coisas). Ele me falou coisas sobre liberdade, sobre a sensação de estar fazendo algo importante, e sobre a consciência de este ser um direito simples que nos é negado e precisa ser conquistado: o direito de expressar afeto. Ele falou ainda sobre se ver futuramente como algum tipo de militante pela diversidade, como se fosse uma coisa inevitável. O que poderia ser apenas um relato sobre um caso até trivial, de certa forma, ganhou outros contornos quando ele me disse que pensou muito em mim nesse processo. Ele disse que sabia que eu ficaria orgulhoso dele por isso. Como não se emocionar?

O nome desse amigo é Bruno. Nós nos conhecemos em um fórum de RPG, bem antes do advento das redes sociais como local preferencial de interação online. O que a princípio eram conversas (frequentemente hilárias) sobre os jogos, logo se tornou um contato diário (ainda frequentemente hilário, haha) sobre todos os assuntos possíveis, tamanha foi nossa afinidade. Quando nos conhecemos, não sabíamos da sexualidade um do outro, e, de minha parte, confesso que eu não sabia nem da minha direito. Um dia, escrevi um texto em um blog assumindo-me bissexual (porque eu achava que era), ao que o Bruno respondeu com parabéns e contando-me também que era gay. Não foi a sexualidade que nos uniu como amigos, mas ela nos uniu mais quando soubemos que teríamos com quem contar.

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As crianças vão bem, obrigado!

Posted in direitos GLBTT, homoafetividade, homofobia, homoparentalidade, opinião with tags , , , , , , , , , , on 23/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

Acho que isso é o que diria qualquer casal gay que já tivesse passado pelas várias lutas árduas e diárias em busca dos direitos de amar. Sim, usei plurais: Não bastassem os percalços que cada homossexual enfrenta, numa ou noutra medida, pelo direito de amar um namorado ou companheiro, casais gays que adotam crianças constatam que essa não é a única forma de amor que lhes é proibida pela sociedade e pelas leis que esta cria do alto de suas “verdades imutáveis” tediosas. O direito de amar filhos também encontra o tom de voz da rejeição.

Gay Parents E esse tom é velho conhecido aos ouvidos já ressentidos com ele. Podemos escutá-lo no áspero desamor do “eu não vou deixar” que um pai autoritário diz para o filho que quer sair. Questionado sobre seus motivos, esse ditatorial e amável pai arquetípico (mais aceito socialmente que o pai gay) justifica-se com um “porque eu sou seu pai e te proíbo”. A imagem que podemos fazer da rejeição à adoção homoparental é bem essa: A de um discurso que não tem mais encontrado como se justificar mas mesmo assim tem insistido em apelar para a preguiçosa “ordem natural das coisas”.

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Veja além das aparências

Posted in comportamento, diversidade, editorial, homofobia, imprensa, opinião, orgulho, revistas with tags , , , , , , , on 11/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

Adriano Mascarenhas Adoro ingenuidades. Eu mesmo sou um ingênuo confesso. Acho que a palavra é o bem / dom mais precioso que temos, e se uma pessoa me diz algo verossímil – especialmente quando referindo-se a si mesma ou a algo que cuja única fonte necessária seja sua palavra – não fico duvidando não, acredito de primeira.

Imagine só: Você poderá me dizer “Eu estudei na França e falo fluentemente a língua de lá”, e pra mim estará tudo bem, porque vou acreditar na sua palavra. Também espero que acreditem em mim quando eu falar. Mas transparência é tudo. Esses ditos precisam encontrar respaldo na realidade objetiva, ou, do contrário, acabarão sendo desmascarados, colocando em franco descrédito aquele que tiver emitido tais “falsas verdades”. Se eu te perguntasse, na hipótese sugerida, como dizer “A Veja é mentirosa” em francês e você não soubesse me responder, eu poderia te chamar de mentiroso, não poderia? Le magazine Veja est un menteur!

A Veja Mente Este é um texto sobre a reportagem de capa da Veja de 12 de maio de 2010, chamada “A geração tolerância”. A matéria trata da naturalidade com que alguns grupos de adolescentes têm vivenciado sua homossexualidade. Se você é dos meus, você viu “Veja” nessa frase e já ficou com os dois pés atrás. Pois é. Fez bem. Eu poderia deixar de lado minhas animosidades em relação a essa revista e escrever um texto neutro, deixando para expressar meu ponto de vista apenas no final, mas acho que podemos pular essas formalidades, uma vez que não é de hoje que essa revista se mostra inimiga dos movimentos sociais. Em todo caso, vou pedir que leia primeiramente o texto original antes de continuar. Não quero te influenciar demais.

Já foi? Ótimo. Porque se você está lendo este texto, quero crer que você é alguém com pelo menos um mínimo de consciência a respeito da causa LGBT, a ponto de já ter sentido as entrelinhas da matéria e o que nós podemos falar sobre ela.

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Uma Festa Virtual

Posted in comportamento, cotidiano, diversidade, eles, homoerotismo, tecnologia with tags , , , , on 05/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

A promessa dos sites de pegação é clara: Facilitar encontros entre homens. Sites como o Manhunt e o Disponível devem receber adesões diárias por parte de um público interessado em encontrar alguém, numa ou noutra medida, para propósitos diversos. Fora o “clássico” Batepapo UOL e outros sites com propostas similares a estes.

Poderia eu alicemente suspirar e dizer “Uau, as novas tecnologias e a internet estão melhorando a vida dos gays”. Tá, confesso: De certa forma, eu penso assim mesmo, mas hoje preciso falar aqui é de uma visão menos idealizada desse ambiente virtual de interação entre homens gays. Não é porque eu adoro a internet que vou deixar de refletir sobre ela, certo? Certo!

Primeiro vamos oferecer algum contexto para quem não sabe como funcionam as coisas. Na maioria desses sites, você pode criar um perfil e colocar uma descrição sua e de quem você está procurando, além de acrescentar fotos e fazer buscas por pessoas com características específicas. Se você mora na Zona Sul de São Paulo e quer encontrar perto da sua casa um urso afim de sadomasoquismo e leather, é só dar uns cliques, e, se alguém preencher as características da busca, logo o perfil aparecerá na tela para que você possa entrar em contato e combinar algo.

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Quero ser discriminado também!

Posted in comportamento, diversidade, editorial, opinião, racismo with tags , , , , on 05/05/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

Vamos fazer um pequeno exercício de memória discursiva. Se você tivesse que fazer uma lista dos grupos ou tipos de pessoas que mais sofrem preconceito em nossa sociedade, quem você listaria? Homossexuais, Travestis, Negros, Mulheres, Portadores de Necessidades Especiais, Nordestinos, Pobres. Ok, vamos parar nesses primeiros. Claro que poderíamos listar mais, mas a idéia é nos fixarmos nesse “top of mind”. São os tipos de preconceito mais discutidos atualmente, em programas de TV, blogs, fóruns, comunidades em redes sociais, etc. Essa maior exposição do assunto, pelo que tenho percebido, leva a uma maior conscientização da população, gradativamente, ao ponto de, pouco a pouco, esses preconceitos serem forçados a recuar, tornando-se socialmente condenáveis.

Cada um deles encontra-se em condições muito peculiares nesse processo, mas há uma noção clara de onde estamos e onde devemos chegar: o não preconceito. Vamos chamar de “noção clara”consciência de que existe um grupo discriminado, um grupo discriminador, e uma situação que precisa ser mudada. A princípio, pode parecer simplório reduzir a questão dos preconceitos a isso, mas peço que detenham-se nessa idéia por um instante, por favor. Simplicidade é uma virtude que precisa entrar na moda porque suscita a clareza de pensamento necessária para nos livrarmos de algumas armadilhas conceituais.

Estou dizendo isso porque parece haver sempre movimentos contrários ou de desaceleração em relação a esse caminho a ser seguido rumo ao fim dos preconceitos. Um tititi, um ruído na comunicação, seguido por um monte de ecos de pensamentos reacionários, atrasados, e que ficam pondo em questão as demandas do movimento gay a todo tempo, como se nunca qualquer das nossas reinvindicações não pudesse simplesmente “ser” e tivesse que ficar se provando ad infinitum. E dá-lhe relativizações, ressalvas duvidosas, inversões, e todo tipo de falácia a serviço de tentativas de dizer que as coisas “não são bem assim” quando atacamos aqueles que nos oprimem. Analisando isso detalhadamente, temos o seguinte:

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concubinos do poder

Posted in direitos GLBTT, opinião, orgulho, política with tags , , , , , on 13/01/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

 

Estava passeando pelo calçadão de Ribeirão Preto no intervalo diário de 15 minutos que faço no meu trabalho, e, como de costume, fui à banca de revistas dar uma olhada na capa dos jornais do dia. Sempre faço isso para saber do que anda falando a mídia impressa. Infelizmente, não disponho de dinheiro pra comprar jornais todos os dias, e essa foi uma das maneiras que encontrei de não me desligar totalmente daquilo que chega às pessoas por meio dos diversos canais de comunicação em massa (Está certo que, ultimamente, eles só vinham servindo pra me aborrecer, mas tudo bem, é sempre bom saber mesmo assim). Foi quando vi uma matéria de capa mencionando o recuo do governo do PT quanto a algumas questões do Programa Nacional de Direitos Humanos. O que pensei na hora? Só uma coisa:

Que decepção.

Pra quem não chegou a ficar sabendo nem mesmo da apresentação de tal programa, ele se trata de um documento oficial, elaborado a partir de reivindicações da sociedade em diversas conferências, e tem por objetivo orientar os poderes públicos na promoção dos direitos humanos. Este programa, que é o terceiro de seu tipo, incluia questões de grande interesse da comunidade LGBT, tais como o casamento gay, a consideração da autodeclaração de cidadãos LGBT, e a possibilidade de travestis e transsexuais poderem escolher seus nomes em documentos oficiais sem necessidade de decisão judicial.

Minha primeira (logo, mais espontânea) reação, quando soube foi de esperança. Não uma esperança oriunda de fascinação por um gracejo de certa forma tardio por parte do governo, mas uma esperança mais realista, segundo a qual nós já estivéssemos, pelo menos, “seguindo a tendência”, trilhando caminhos antes já trilhados por outros países, até mesmo da América Latina. Nunca achei o Brasil um exemplo de protagonismo político, mas a minha esperança era que estivéssemos, no mínimo, seguindo – ainda que atrás, ainda que timidamente – o fluxo do futuro.

As reações posteriores foram mais ponderadas, e bateu o ceticismo. Também não do tipo de ceticismo mais comum, que seria duvidar da iniciativa pura e simplesmente por ter sido governamental e em ano eleitoral. Para ser bem franco, isso não me incomodaria, e, pelo contrário, significaria até um avanço, em vista de que nunca fomos matéria de discussão em campanhas eleitorais presidenciais. Alguém se lembrar de nós tão expressamente já poderia até ser considerado um avanço. O ceticismo a que me refiro tem mais a ver com o fato de este ser apenas um programa de diretrizes, e que ainda levaria mais uns bons anos para resultar em algo concreto, estando restrito ao plano etéreo das idéias neste momento. Percebam que, mentalmente, não lidei em momento algum com a possibilidade de um recuo…

Dosando esperança e ceticismo com minhas próprias medidas, optei por acompanhar as discussões sobre esse programa com certo distanciamento. Tem sido minha postura para tudo o que diz respeito à política institucionalizada neste país. Refiro-me a “política institucionalizada” como essa que chama a si mesma de “política” o tempo todo, e que, evidentemente, não encerra todo o significado do termo.

Diferentemente de mim, várias vozes se ergueram em protesto quando o programa foi divulgado. Essas vozes de protesto disseram muitas coisas. Destas, as de dentro da comunidade LGBT disseram que se tratava de uma iniciativa eleitoreira, querendo apenas os votos do arco-íris para a candidata do PT à presidência, Dilma Roussef. Outras, de setores reacionários da sociedade, não gostaram muito da possibilidade de finalmente termos esses direitos elementares, e foram às pressões contra o documento. Outras, ainda, influenciadas pelas primeiras certamente, já começaram com os temores da perda de votos e reclamaram dentro do próprio governo, pedindo pela retirada do casamento gay do rol destas propostas.

O resultado: Essas vozes foram ouvidas. E o casamento gay aparentemente não constará no documento que o governo entende como diretrizes de direitos humanos para a nação. Fomos preteridos. Jamais pensei que o referido programa pudesse ter saído do governo sem que os envolvidos em sua ratificação tivessem chegado a um mínimo consenso sobre o que apresentar à sociedade. Jamais esperei, eu, que até então me considerava simpatizante do PT, que as lideranças do partido batessem tanto a cabeça e fossem capazes de papel tão traidor e vexatório.

É sem vergonha alguma que admito aqui que fui enganado, porque os enganados jamais deveriam sentir vergonha pelo mau-caratismo alheio. O governo, ao se posicionar de modo inicialmente favorável para depois voltar atrás, brincou com os meus sonhos, sentimentos, expectativas e esperanças. E eu estou certo de que não falo apenas em nome de Adriano Mascarenhas, mas de todos nós.

O governo agiu como um homem casado que promete a seu amante gay secreto que ele passará a ser seu, para em seguida voltar à segurança de sua família de aparências, que ele jamais teve intenção real de largar. E, assim, como concubinos do poder, seguimos à mercê dos compromissos de nossos políticos para com o conservadorismo e o atraso desumanos que tanto nos assolam e impedem que nosso país entre verdadeiramente no grupo dos países capazes de fazerem a diferença no que diz respeito aos direitos humanos.

Hoje, quando fui pra academia, não consegui tirar esses pensamentos de minha mente, e a frustração até me fez suar mais e quase esmurrar os aparelhos por vezes. Vi vários homens lindos ali dentro, e me perguntei: Será que um dia vou poder me casar com um homem bonito como eles? Será que algum deles é gay também? Será que, se for gay, também tem vontade de se casar um dia? Será que teve essas referências? Será que é fácil um casal gay entender a si mesmo plenamente como casal, em uma sociedade que não dispõe de estrutura ideológica ou legal para lidar com essa realidade e dizer a esse casal que ele “pode” ser? Sinto-me estranho no mundo quando esses pensamentos afloram em situações das mais corriqueiras e percebo que jamais estarei ajustado ao mundo. Agradeço por não sê-lo em alguns quesitos, mas, às vezes, sinto que sentir-se igual a todos seria bom.

Alguns podem dizer que soa disparatado eu mencionar pensamentos e impressões tão pessoais como essas em um texto sobre algo que se pretenderia mais ou menos político, mas peço que não deixem de notar o quanto esses assuntos agem interconectados. A vida de milhões de pessoas é afetada pela política. Neste dia, milhões de pessoas podem ter deixado escapar uma lágrima furtiva mimetizada ao suor. Força e dor me tomaram nesse símbolo da lágrima que não foi só minha.

O que pude foi apenas vir à rede mundial de computadores falar com meus iguais, aqueles entre os quais me sinto compreendido e aceito. E não me restrinjo a me referir a pessoas LGBTTT quando falo de iguais: os meus iguais são todos aqueles que me querem como igual. Sei que deles também é a minha decepção, que não se fia apenas em um programa de diretrizes rejeitado, mas em todo o descaso que segura as cordas dos bonecos de Brasília. A situação é muito mais grave do que faz supor essa pequena vergonha. Sinto-me mais que frustrado, sinto-me idiota perante essa fina teia difusa de lealdades do quadro da política brasileira e sua total falta de identidade, na qual nunca podemos saber com quem contar. E isso porque me considero alguém pelo menos um pouquinho crítico. Vai se lá saber o que acontece com o voto de quem não se importa tanto assim com “política”. Cheguei ao ponto de duvidar até mesmo de quem diz que entende a política no Brasil. Estou farto de quem diz saber tudo, e parte da culpa por isso é dos nossos próprios governantes. São eles que dizem que entendem demais disso, quando o que fazem por lá demonstra algo bem diferente.

Acredito que nossa única saída é mirar novamente a comparação com o concubino. É necessário o amor próprio. É necessário que obriguemos o adúltero a se decidir, e parar de nos iludir: Ou a esposa, ou nós. Ele não poderá continuar com ambos. Se o governo preferir tomar partido da homofobia, vai ter que arcar com as consequências. Se é de perda de votos que o PT tem medo por comprar a nossa briga, será com perda de votos que teremos que puni-lo se ceder a essa pressão, ao mesmo tempo em que temos que apoiar as iniciativas que se mostrarem efetivamente favoráveis a nós (reclamar tanto quando estão a favor quanto quando estão contra não é produtivo). E com pressões de ambos os lados, restará a eles escolher entre o que é ético, político, e afinado à nossa Constituição, ou isso que está fazendo.

É hora do basta final.

quando prazer e amor são um erro

Posted in comportamento, diversidade, opinião with tags , , on 10/01/2010 by Adriano Mascarenhas Lima

Tudo começa com uma generalização homofóbica: Os gays são promíscuos. Como se não bastasse a homofobia, em si, ser uma coisa estúpida, generalizações são uma excelente maneira de deixá-la ainda mais.

E podemos encontrar várias outras tão preconceituosas quanto. Algumas gozam até de certo status, como atestado (falso, é claro) de pensamento crítico: Todo político é ladrão. A justiça neste país não funciona. As religiões são o atraso da humanidade. Homens são mais erotizados que as mulheres. As mulheres são mais sensíveis que os homens.

Quantas frases feitas como essas você tem no seu repertório cognitivo diário? E quantas você pensa antes de usar? Estou perguntando porque a generalização da “promiscuidade gay” parece ser uma das preferidas de serem desconstruídas pela grande maioria dos homossexuais, mas outras, nem tanto. É claro, eu não poderia querer que fôssemos mais esclarecidos que a média da população. No entanto, o meu assunto neste momento é outro. Quero falar do próprio processo de quebra da “generalização da promiscuidade”.

Essa situação, a princípio, me lembra o que acontece quando “acusam” alguém de ser gay e logo vem “a turma do bem” dizer que não… que o indivíduo acusado não é gay, essa coisa feia e horrorosa. Assim como essa defesa presume que ser gay é um demérito a ser evitado, o que o senso comum chama de “promíscuo” é rotineiramente taxado de errado por quem se presta a desconstruir a generalização da “promiscuidade gay” com os argumentos errados, recusando-se a se despir os mesmos preconceitos de quem faz as acusações. Aí nos sobra uma onda de moralismo gay, cuspindo no prato das liberdades sexuais, quando as conquistas desta nos interessam muito mais do que a mera substituição de imposições morais. Vejamos como isso funciona.

No afã de lutarem contra o pensamento homofóbico, que enxerga caricaturas em tudo do mundo gay e as exagera ao nível de uma depravação sexual completa, muitos gays defendem, inversamente, uma postura de “bom moço” que deixaria para trás os mais cavalheiros príncipes encantados dos contos de fadas, daqueles que são felizes para sempre com o primeiro amor. O mágico, o inefável, o perfeito primeiro e único amor.

Bradam eles que os gays não são promíscuos, são monogâmicos, fiéis e românticos, tanto quanto os modelos heteronormativos de par perfeito, e que os “depravados” são a exceção indesejável – Os responsáveis pelo preconceito sofrido por todos, completam alguns. Dizem esses arautos do “bom mocismo” gay que os os gays “têm que se dar ao respeito para serem respeitados”.

Essas frases soam familiares para todos? Porque pra mim elas são bastante. E me encho de desgosto quando leio ou escuto coisas assim, porque são as mais fatais em demonstrar que mesmo o combate ao preconceito pode ser preconceituoso, moralista.

Aponto esse dedo contra o moralismo porque… O que é promiscuidade? A maioria das pessoas pensa em excesso de parceiros, opção por relações puramente sexuais, infidelidade, ou mesmo safadeza pura e simples. Mas o ponto principal aqui é: Quem foi que disse que essas coisas são ruins, para termos que evitá-las tanto?

Alguém que tenha muitos parceiros sexuais, e que pratique esse sexo de maneira responsável, não está fazendo nada errado. Quem opta por contatos voltados apenas para o sexo também não, desde que não iluda os sentimentos dos outros pra isso. Infidelidade? Ela pode vir do namorado recém-conquistado ou do companheiro de 20 anos. Pode vir desse companheiro com uma ou com trinta pessoas. E isso porque você só pode ser considerado fiel ou infiel em relação a um pacto pré-determinado entre ambas as partes, sendo que a questão é de manter a palavra, e não de transar ou não transar.

A relação dessas coisas com a tal da “promiscuidade” é meramente uma maneira de arranjar um termo “guarda-chuva” que cubra várias coisas ditas ruins, dessas que a moral despreza, ou é algo específico, que designe algo por si só? A promiscuidade existe, afinal?

De acordo com o que temos mais próximo de um critério objetivo, que seria o critério de número seguro de parceiros sexuais para quem pretende doar sangue, se você teve mais de três parceiros num ano, já pode ser considerado promíscuo. Uau. Se brincar, até uma vovó viúva que sai pra namorar nos bailes de terceira idade já pode ser considerara promíscua agora. Ficaram chocados? Eu e essa vovó também. Tudo puta!

Percebam que isso é arbitrário. Não há objetividade alguma nos julgamentos acerca disso, e isso fica ainda mais evidente quando falamos de opiniões. Se formos entrar no campo das noções puramente subjetivas, não haverá muito o que ser discutido sobre esse assunto, em lugar nenhum. Ou vamos começar a considerar o conceito de todo mundo a respeito disso? O papa, por exemplo, o que será que ele pensa sobre a quantidade ideal de parceiros? Ops, parceiras. Ou melhor, parceira. Esqueci que, pra ele, essa coisa de “homossexualismo” (sic) é imoral também, bem como qualquer fora de relação sexual fora de um matrimônio, que tem que obrigatoriamente durar pra sempre. Bem se pode notar daí que assumir certas subjetividades como universais traz um belo pacote de baboseiras a tiracolo…

É justamente pelo sexo entre iguais ser considerado “errado” que sofremos preconceito. Mas parece difícil demais que a maioria das pessoas perceba que preconceitos andam de maos dadas e são filhos dos mesmos pais. Nada seria mais natural, nesse contexto, que assumir que defender a liberdade de conduta sexual colabora para uma visão de mundo em que não haja formas erradas de se ter prazer entre dois ou mais adultos conscientes, e que isso não é algo a ser feito pelas metades.

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Ainda se pode ressaltar como curioso e sarcástico (eu nem vou dizer que é uma ironia da vida, porque o escárnio do termo “sarcasmo” me parece mais apropriado) que a rejeição à promiscuidade e mais todo o conjunto de tabus sexuais acabem tendo um efeito contraproducente em relação a seus objetivos. Sim, porque se você compartimenta o sexo humano e diz “não pode”, você reprime o desejo e apenas contribui para que sua vazão seja mais forte posteriormente. Isso atrapalha até mesmo os relacionamentos que parodiam o sonho do príncipe com cavalo branco. Já vi muitas pessoas fazendo toda uma imitação de relacionamento afetivo unicamente para poderem ter sexo, incapazes de serem francas sobre suas reais intenções, tudo em nome do respeito a essa moral segundo a qual sexo é uma coisa safada e suja. A Hipocrisia se regozija, enquanto as pessoas persistem em não descobrirem que a moral, apesar de suas origens na coletividade, na tradição, só pode subsistir no âmbito do individual.

E eu ainda me arrependo por ter escrito um texto tão grande para defender algo tão simples. Duas ou mais pessoas se encontram para ter prazer, para fazer carinho, para ter sensações deliciosas, em algo que só faz bem.

Qual a lógica de alguém dizer que isso está errado?

heterossexualidade presumida e o outing

Posted in cotidiano, editorial, eles with tags , , , on 18/07/2009 by Adriano Mascarenhas Lima

OgAAAEc89fh4pcquBe-EFnDzb2Ve3a9TtSwCnizg30brwvZc4w_f_YfDrAx86Uu_pq3nY7VRHH9Bv8oX_f0mTZ8c0osAm1T1UC0dCCldAZDqYUx0Ib9z-fPlUtitDevo muito da minha consciência atual às coisas que li no orkut. Às vezes vejo as pessoas dizerem que o orkut não pode ser levado a sério, e me entristeço. Essa tecnologia das redes sociais tem possibilidades ótimas de interação, e aqueles que sabem utilizá-las podem sempre aprender coisas novas e conhecer muito mais do mundo do que aquilo que o cotidiano permite.

Falo isso porque meu processo de auto-conhecimento (nem vou falar “auto-aceitação”, porque “aceitação” acaba sugerindo uma resignação quanto a algo ruim, e nada seria mais falso) se deu quando pude ver várias pessoas (que hoje são minhas amigas) discutindo preconceitos numa rede social. O mesmo ocorreu quando decidi me assumir (ou parar de me esconder). A Comunidade HJE teve um papel fundamental nisso.

Comecei colocando no perfil do orkut a orientação sexual, com um texto super “tropa de choque” exigindo respeito, o qual mantenho até hoje, com poucas alterações. Achei que logo alguém viria me perguntar se era verdade, ou supôr que meu perfil havia sido roubado, duvidando que eu fosse gay. Isso, de fato, aconteceu uma meia-dúzia de vezes. As pessoas, às vezes, têm uma noção tão arraigada de que supor homossexualidade é uma ofensa, que mesmo você tendo “a” pinta, preferem tomar atitudes que “respeitem” sua “heterossexualidade presumida”, tais como perguntar da sua namorada, como se, com isso, elas quisessem deixar claro que não acham que você é “viado”.

No meu dia a dia fora da rede, pouca coisa mudou com esse outing “de orkut”, pelo menos externamente. Como sou muito reservado, as pessoas, na verdade, nunca tinham qualquer informação sobre minha vida pessoal, quanto mais sobre minha sexualidade. No entanto, notei que, entre elas, elas sempre falavam de namorados, casamentos, etc, essas coisas para as quais, às vezes, nós gays parecemos não ter referências.

Foi então que passei a pensar: Por que eu não tenho isso? Por que pra mim esse tipo de informação tem que ser tratada como se fosse um segredo? Por que é que eu também não posso usar minha vida afetiva como pretexto para falar de trivialidades? Será que minha introspecção não é consequência dessa “barreira” que aceitei que a homofobia me imputasse? Será que aceitei ou simplesmente nunca parei pra pensar que isso poderia ser diferente?

JPDC Swept Away By My SailorFiquei com essas perguntas na mente, até que, certa vez, uma colega de trabalho me convidou para a festa de casamento dela. Ela veio com dois convites e me disse: “Adriano, leva dois convites! Você tem namorada?”

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